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MARIA E PEDRO

MARIA E PEDRO

Mais um dia amanhecendo. Maria olha seus dois pequenos filhos ainda dormindo, enrolados em vários panos. Muito frio. Ela abre o zíper da velha e pequena barraca de camping, põe a cabeça para fora, sente a lufada gelada de ar. A névoa da manhã ainda não se dissipara e ela vê vagamente as fachadas de alguns prédios do centro da cidade de São Paulo, assim como as silhuetas de barracas próximas à dela.

Maria perdeu seu emprego num supermercado durante a pandemia e nunca mais encontrou outro. Sem ter como pagar aluguel, ela se juntou à extensa legião de pessoas que são obrigadas a morar nas ruas, um contingente que vinha crescendo ano a ano e aumentou significativamente durante a pandemia.  

Pouco depois de preparar um singelo café para seus filhos, Maria senta-se em frente à barraca e olha o movimento das pessoas chegando ao centro, como toda manhã. À sua frente passa um homem sério, de termo e gravata, de idade já avançada. É Pedro, a caminho do seu escritório, na região. Normalmente, ao andar por lá, ele não liga para as pessoas em situação de rua, mas, nesse dia, coisa de segundos, seus olhos encontram-se com os de Maria que, cravados, ficaram em sua mente. Sobressalto. E segue adiante.   

Maria deixa seus filhos com uma amiga de barraca vizinha e perambula para pedir algum dinheiro e catar latas. Ao passar em frente a uma banca de jornal lê a seguinte manchete de um deles: “Euforia e lucros na construção civil e no mercado imobiliário”. Se ela lesse a matéria se defrontaria com a confluência de dados e informações, de diferentes órgãos do setor imobiliário e da construção civil, para algo que talvez vez não imaginássemos: em plena pandemia as vendas de casas, apartamentos e loteamentos cresceram muito, batendo recordes. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção, por exemplo, mostra vendas em 2020 superiores a 2019 (ano que já vinha performando bem) e em 2021 superiores a 2020, para o país como um todo. 

Quem observou, viu, em cidades de todo tipo, obras (imóveis novos e reformas) para todo lado. Como se sabe, turbinadas pelo home office e adiamento de planos, muita gente comprou (ou alugou) casas, apartamentos e chácaras, em suas cidades ou outras. Celebridades até aumentaram a intensidade da ostentação em enormes e luxuosos imóveis recém-adquiridos. Mais uma das nuances da já tão corriqueira desigualdade.

Por outro lado, como se vê (e as estatísticas comprovam), a quantidade de pessoas em situação de rua, que vinha crescendo ano a ano, deu um salto na pandemia, em todo o país. Enquanto uns compram, compram e reformam, outros perderam a possibilidade de morar em imóveis. Os dados também mostram aumento da concentração da renda nesse período.

Pedro foi um desses que aumentou seu patrimônio imobiliário. Comprou uma chácara e uma casa na praia. Além disso, reformou e aumentou sua já grande casa em bairro nobre da cidade de São Paulo. Parece que pessoas e empresas de todo tipo aproveitaram a “parada” para melhorar ou expandir seu patrimônio, o que pode ser bom, em alguns aspectos. Mas o interessante é que normalmente reclamam que não têm dinheiro....

Justamente foi sobre isso que Maria ficou pensando, durante o dia, depois de ler a manchete que ficou impregnada na sua mente. “Alguns ganhando mais ainda e muitos ganhando cada vez menos ou perdendo tudo”. Ela emendou no pensamento: “De onde veio tanto dinheiro se antes todo mundo falava que não tinha? Então tem dinheiro sim”.

Essa elocubração pode ser transposta para a área governamental e empresarial. Governo Federal, Estados, Prefeituras, e órgãos em geral, sempre dizem que não possuem recursos, mas na pandemia eles apareceram, gastaram muito, adiantaram 13º salário, benefícios, a condução ficou congelada todo o tempo, dentre outros (embora recursos para as pessoas em situação de rua, pouco apareceram).  E muitas empresas aproveitaram para construir, comprar imóveis, dentre outras ações.  

Em sua perambulação pelas ruas do centro, Maria passa diante de um grande e movimentado restaurante e, coincidentemente, cruza com Pedro, que estava entrando.  Novo sobressalto, encontro de olhares, recordações da manhã. Mais uma vez ele impressionou-se; nem almoçou direito, pensando numa pessoa que desconhecia. Lembrou-se da barraca, das crianças.

Maria voltou para a barraca. No caminho ela viu as tantas ocupações (prédios que se degradaram, ficaram vazios e são ocupados pelas chamadas “pessoas sem teto”). Em frente a uma delas está João, já seu conhecido, que lhe pergunta sobre a possibilidade de ela ir para lá. Maria diz que vai pensar, embora esteja cada vez mais desanimada com a vida. “Mas eu não posso nem cair na bebida e na droga, como muitos acabam fazendo; tenho dois filhos para cuidar”, pensou ela.   

Fim de tarde; Pedro passa novamente em frente à barraca, alimentado pelos seus impressionamentos do dia (que antes não existiam). Maria lá na frente. Ele jogou duas notas de cinquenta reais para ela, que ficou estática pelo inesperado da situação. Nada conversaram, ele se foi. Isso, obviamente, a ajudou momentaneamente. Talvez também tenha aliviado alguma possível angústia de Pedro. De qualquer forma, ele pensou: “e amanhã, e nos próximos dias? o que farei ao vê-la no meu caminho?”. Será que ele desviará a rota para não confrontar tal nível de situação, uma tamanha disparidade de condição? 

Quando, de fato, um projeto envolvendo as diferentes esferas governamentais (global e local) e integrando políticas públicas (multiplicidade de áreas e tipos de profissionais) surgirá (não remendos...soluções...) para o enfrentamento de algo que cresce e se faz de conta que não existe? (o mesmo vale para a concentração da renda). Enquanto isso, regiões urbanas extensas, país afora, se tornarão ambientes cada vez mais distópicos....  

Ou ficaremos em decisões que agravam o problema, em vez de resolver? É o caso do projeto aprovado na Câmara dos Deputados, agora em tramitação no Senado, que autoriza – o que ainda é proibido por lei – o uso do único imóvel de alguém como garantia para adquirir mais de um financiamento.  

 

Retratos & Roteiros Sociais - Por Cassiano R. M. Bovo

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Cassiano Ricardo Martines Bovo
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Cientista social e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, tenta expressar em palavras cenas do cotidiano de pessoas estigmatizadas e violentadas das mais variadas maneiras. Veja mais em https://influxo.tv/retratos-e-roteiros-sociais

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