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Conto Visita ao Cavaleiro Negro - Lu Evans

Conto Visita ao Cavaleiro Negro - Lu Evans

 

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Acordei sozinha em um quarto branco com fios de um monitor conectados a mim e algemada pelo pulso ao trilho de metal da cama. Ainda um pouco desorientada,  apertei o botão ao lado da cama para pedir ajuda, mas ninguém veio. Gritei por socorro, nada.  

Somente meia hora depois, quando já sentia minha mente clara, tive a ideia de arrancar os fios do equipamento que monitorava meus sinais vitais. Meu plano para trazer alguém ao quarto funcionou, pois pouco depois entrou uma mulher loira e alta usando um jaleco branco. Embora estivesse vestida como médica, não me examinou. Nem ao menos me cumprimentou.

Exigi uma explicação sobre o tratamento que estava recebendo, um absurdo completo. Como poderia uma cientista que não fez nada além de seu trabalho ser algemada à cama de um hospital?

Além de uma prancheta, ela trazia uma câmera que montou sobre um tripé, apontando a lente na minha direção. Então puxou uma cadeira e sentou-se, informando que tinha vindo para me interrogar.

Pedi um advogado.

— Não precisa de advogados. Vamos começar — foi a resposta gelada que recebi.

— Tenho certeza de que isso é um engano, seja lá o que for —  retruquei, chacoalhando a mão presa pela algema.

De pernas cruzadas, ela começou a sacudir um pé no ar, demonstrando impaciência.

— Se for um engano, deixaremos você ir assim que tudo for esclarecido.

Eu insisti. Queria saber o que estava fazendo ali, o motivo de estar algemada, e também queria saber quem era ela, mas meu esforço de conseguir qualquer resposta foi inútil. A mulher não cedeu. Em vez disso, ameaçou chamar os militares para tomar seu lugar, assegurando que seria melhor eu tê-la como minha entrevistadora.

Aquele diálogo começava a me assustar e intimidar. Eu nunca fui do tipo valentão. Nunca fui durona. Como eu poderia resistir? Como poderia sair de lá ou mesmo conseguir comida e água se me recusasse a cooperar? Suspirei e assenti com a cabeça.

— Excelente! — ela comentou sem qualquer tipo de emoção. — Vamos começar do início. Diga-me seu nome, sua posição e responsabilidades — disse ela com rispidez, a ponta da caneta sobre o papel, pronta para tomar notas.

— Meu nome é Laura O'Brien, especialista em códigos. Fui designada pela NASA para entrar no Cavaleiro Negro e tentar entender o seu propósito.

— O Cavaleiro Negro. Fale mais sobre isso.

Essa pergunta me surpreendeu. Por que ela queria saber sobre o Cavaleiro Negro se aquilo já não era mais segredo para ninguém?

Suspirei. Se era necessário falar o óbvio para sair dali, eu falaria.

— O Cavaleiro Negro é um enorme satélite artificial que pesa mais de 10 toneladas, orbitando a cerca de 500 milhas do Planeta. Suponho que você tenha esse tipo de informação, certo?

Não havia nenhuma expressão nos olhos dela.

— Não faça perguntas. Apenas responda às minhas... O que mais?

— No início, sabíamos quase nada sobre ele. Tudo o que tínhamos eram perguntas: por que e por quem foi enviado ao nosso planeta? Se estavam usando aquilo para tentar se comunicar conosco? Por que orbita principalmente sobre as regiões polares? E assim por diante.

— Como e quando ouviu falar do Cavaleiro Negro pela primeira vez?

Expirei aborrecida, mas sabia que não havia alternativa. Teria de responder ao interrogatório da misteriosa mulher.

— O grande inventor Nikola Tesla foi o primeiro a captar um sinal daquele satélite em 1899, usando um dispositivo de rádio de alta frequência em Colorado Springs. Tesla afirmou que o sinal era uma tentativa de comunicação, mas estava codificado.

Ela não olhava para mim. Conservava a vista baixa, concentrada em escrever tudo o que eu falava.

— Só isso? — indagou a mulher, sem erguer o rosto.

Naquele ponto, eu já sabia que ela não era uma funcionária da NASA. Talvez fosse uma espiã de um governo estrangeiro. Mas eu não estava dando qualquer informação secreta, já que a NASA tinha divulgado todos os dados sobre o Cavaleiro Negro. Bastava uma busca na internet para obter as mesmíssimas informações que eu estava passando a ela.

— Não. Claro que não. O mesmo sinal foi interceptado muitas outras vezes na década de 1920. Com o avanço da tecnologia, os astrônomos passaram a captar sinais com mais frequência, embora não soubessem ao certo qual era a fonte.

— Por que não? — ela me encarou com desconfiança.

Sacudi os ombros.

— Naquela época, nenhuma nação possuía tecnologia para lançar satélites, ter telescópios ou equipamentos capazes de fotografar um objeto em torno do planeta.

Eu estava cansada, com sede e fome, mas tinha a certeza de que seria uma perda de tempo pedir algo a ela. A única coisa com a qual a mulher se preocupava era aquela entrevista inútil.

— Quando e como você teve conhecimento da existência do Cavaleiro Negro? — ela perguntou, indiferente.

— A mídia começou a falar mais abertamente sobre a possibilidade de uma fonte de sinais estranhos orbitando o planeta nos anos de 1940, mas sua presença foi confirmada apenas na década seguinte, quando a União Soviética lançou o Sputnik, primeiro satélite artificial do mundo. Depois disso, um comitê formado por cientistas de diferentes campos começou a estudar o objeto.

— Você faz parte do Comitê?

— Afirmativo. Comecei o trabalho há cerca de dez anos, analisando todos os dados relacionados aos sinais, que são, de fato, um código.

— Decifrou o código? — ela indagou e, dessa vez, percebi que havia um certo brilho em seus olhos.

Confirmei com um sorriso arrogante que até mesmo eu estranhei.

Ela fez uma pausa, olhou para mim por alguns segundos e disse:

— O que descobriu?

— O Cavaleiro Negro é, como muitas pessoas previram, um objeto de origem extraterrestre. Veio para nossa órbita há cerca de 13 mil anos. Sua origem é um planeta localizado no sistema solar da estrela Izar na constelação Boötis.

Ela não me perguntou qualquer coisa por um bom tempo, mas seus olhos, mais uma vez inexpressivos, estavam grudados em mim. Finalmente, disse:

— Feita a descoberta, qual foi o próximo passo?

Àquela altura, comecei a pensar que a coisa toda era uma piada.

— Você deve estar brincando comigo! Isso foi relatado por cada jornal, revista científica, programa televisivo e de rádio no planeta.

— Responda! — sua voz era baixa, mas extremamente ameaçadora.

Respirei fundo, mordendo a língua para não mandá-la para o inferno.

— Sabíamos da sua origem, mas também precisávamos descobrir sua finalidade. Por isso, me ofereci para ir até o Cavaleiro Negro e estudá-lo.

— Quando começou a missão?

— Parti no dia 21 de dezembro.

— De que ano?

— Este ano. Há poucos dias.

— Diga o ano.

— 2009. Dia 21 de dezembro de 2009.

— Você foi sozinha?

— Sim.

— Por quê?

— Razões de segurança. A NASA não queria colocar pessoas não essenciais em risco, então fui selecionada para entrar primeiro e gravar tudo. Se o lugar fosse seguro, outros iriam mais tarde.

— Por quanto tempo você ficou lá?

A pergunta ativou minhas memórias daquele momento específico. A sensação de medo e excitação diante do desconhecido. Lembrei-me de estar no vazio entre a nave e o Cavaleiro Negro, e tudo o que eu tinha para me manter conectada à minha nave era um cabo flexível e fino como um cordão umbilical.

Quando alcancei o Cavaleiro Negro, me agarrei a ele e continuei a missão. Algum tempo depois, consegui abrir uma passagem para dentro do satélite.

O Cavaleiro Negro era escuro não apenas pelo lado de fora, mas também por dentro. Muito devagar e com cuidado, avancei. Oh, Deus! Eu estava com tanto medo! Não sabia o que esperar, e tinha uma sensação infantil de que algum monstro poderia estar à espreita na escuridão, pronto para me despedaçar. Foi quando comecei a sentir um toque fantasmagórico correndo pela minha pele e me deixando arrepiada.

— Fiquei lá apenas por alguns minutos — respondi, finalmente.

— Havia mais alguém?

Essa foi a pergunta mais estranha de todas. Franzi o cenho.

— Dentro do satélite? Não, claro que não.

— O que aconteceu então?

— Comecei a ver tudo embaçado. Acho que havia algum tipo de atividade magnética, elétrica ou radioativa me afetando. Também não descarto a possibilidade de que eu estivesse muito nervosa e amedrontada. O fato é que me senti tão mal que fui forçada a abortar a missão e sair dali antes que acabasse desmaiando. Voltei para minha nave e perdi a consciência. Felizmente, a nave tem um sistema de auto navegação. O controle da missão, na Terra, me trouxe de volta. A próxima coisa que lembro foi acordar aqui.

Ela se levantou e caminhou até a câmera para desligá-la.

— Acho que isso é tudo que precisamos saber por enquanto.

— Você disse que eu poderia ir se respondesse às suas perguntas.

— Eu falei que você poderia ir se esclarecesse a situação. Mas, até agora, suas respostas apenas tornaram tudo ainda mais complicado.

— Como assim? — questionei em pânico.

Ela cruzou os braços, já ao lado da porta.

— Porque o Cavaleiro Negro não é extraterrestre, mas um satélite que lançamos em 1972 para pesquisar as regiões polares e medir seu tamanho e espessura, já que nosso planeta vem sofrendo um aquecimento contínuo há algumas décadas... Porque você não é a mesma pessoa que foi enviada ao Cavaleiro Negro para fazer a manutenção de rotina, e nós queremos saber o que aconteceu com o técnico que estava verificando o equipamento dentro do satélite. E principalmente porque nosso planeta está localizado no sistema solar da estrela Izar na constelação Boötis.

 

Esse conto foi publicado pela primeira vez na edição n. 1 da revista Literomancia, em 2019.

Faz parte da antologia solo "Dramas Robóticos & Outros Contos Futuristas", de Lu Evans, lançada em 2020 (foto abaixo).

Sinopse: Essa é a primeira de uma série de coletâneas solo que Lu Evans pretende lançar nos próximos anos. Nesse primeiro volume, todos os contos são de ficção científica, subgênero fantástico favorito da autora. A maior parte dos contos já foi publicada previamente em coletâneas e revistas. São eles: Dramas Robóticos; Altocumulus; Homo-Sapiens-Ferox; Visita ao Cavaleiro Negro; Singularidade; Involução; O Enigma de Titânia; Namoro à Distância; Projeto Bethany; Almas Gêmeas; A Embaixadora.

Links:

Kindle: https://www.amazon.com.br/dp/B08NWKNM7H
Google play books: https://bit.ly/39YHC6d

Físico: https://loja.uiclap.com/titulo/ua3289/

Goodreads: https://bit.ly/3a2zYry

Skoob: https://bit.ly/34775Xz

 

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