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Terminais #4 - ESTAÇÃO BOTUJURU

Terminais #4 - ESTAÇÃO BOTUJURU

                                                                       “(...) Centenas vão sentados e milhares vão em pé”.

                                                                                        – O trem, Rapaziada da Zona Oeste – RZO

 

trilhos dormentes trados cancelas marteletes apitos ferros lastros britas tirefrão postos telegráficos bitolas ferragens comboios bondes entrevias automotrizes freios aços containers engonços cavalos de força contrapesos cavalo-vapor tarifas guarda-trilhos litorinas eixos fueiros taludes maria-fumaça puas locomotivas sulcadoras freios rodeiros troles de linha vagonetes ferrugens, Tudo.

As estradas de ferro são o suor sublimado das gerações, a chegada de migrantes e imigrantes é apenas a foz desses acontecimentos, antes vieram os que foram escravizados, antes ainda viviam os que nomearam essas terras. Botujuru é boca dos ventos num tupi-guarani que para mim é incógnito, aprendi os folclores sem vida de um país que estuprou ancestrais filhas irmãs mães sobrinhas netas e avós.

Botujuru, estação-casebre que agora ocupa meus olhos.

No trajeto há um túnel, no túnel há penumbra e na penumbra há sonhos remotos que o trem usurpa: noites que invadem dias; noites dentro das noites; dias de um sol canicular; e tardes nubladas que gestam a próxima tempestade. Mas a estação vem antes, pelo menos para quem, assim como eu, provém desse interior sonâmbulo. Não importa o sentido, sob o túnel, todo céu é passadiço.

A lenda diz que o guardião dos túneis de Botujuru é o fantasma do Engenheiro Chefe Henry J. Beeck, um britânico que foi assassinado devido ao abuso de poder que exercia contra seus empregados. Foto In: https://ribeiraopretoculturaljaf.blogspot.com/2020/02/o-fantasma-de-botujuru-artigo.html

Um vento encanado assobia entre vagões ladeados por outros séculos. Eu sei que esse trecho das ferrovias já estive sob os gringos cabrestos da São Paulo Railway: o Engenheiro Chefe Henry J. Beeck, como exímio britânico rico, ignorava qualquer direito trabalhista, chicoteava seus empregados e acabou degolado. Depois a linha férrea passou para as mãos estatais. Parece que desde sempre tudo aqui já nasceu no desengano das sucatas.

Sei pouquíssimo sobre os povos da morte insepulta que na escola a gente aprende a chamar apenas por índios. Também desconheço testemunhos dos que da mátria África vieram e experimentaram, combalidos, o dessabor das ausências: o banzo. Nessas terras, em se plantando, tudo dá! Mas o que sempre se cultivou desde muito antes das vias férreas foram fomes, escravidões e genocídios.

As linhas da antiga Santos-Jundiahy ecoam, para quem quiser ouvir, um canto abatido, épocas estranguladas pela desmemória e a modorra dos transportes públicos, que perpetuam adestramentos novos em corpos já envelhecidos.

Essas coisas nascem em minha cabeça talvez para desviar-me dos pensamentos sobre vida que quer ser interrompida.

Meu avô foi ferroviário. Um velho de poucas palavras e ira. Com mulher e filhas ele deixou o roçado e só ganhou emprego na estaçãozinha de Ityrapina porque, dentre os filhos de pais sitiantes que chegaram daquela Nápoles fantasmagórica, era o único que sabia escrever alguma coisa além do próprio nome. Nas minhas lembranças meu avô materno sempre perambulou como um ser já velho, suas fotos de moço, de pracinha que integrava o exército anêmico, jamais me convenceram.

Quando eu era criança nunca considerei que em algum momento ele pudesse ter tido dezoito anos. O velho exibiu a ferida que portava no queixo: já grande levou umas bofetadas do pai por acreditar-se homem feito enquanto acendia o paieiro num almoço de domingo. A rigidez em ter um patriarca fazendeiro que foi parar na cadeia – e de lá saiu alcoólatra e empobrecido – constrangia meu avô, mas logo virou também sua marca, seu distintivo de fidalguia de operário. Batia nas filhas. Vigiava suas beldades com os desmandos de uma palmatória que tinha em casa. Ele mesmo, um tanto sádico, fez o instrumento.

Meu avô materno foi sempre o pelego exemplar: nunca caiu no canto das sereias dos sindicatos, repudiava a política que não fosse de cabresto amigo – o típico empregado que desconhecia seus direitos. Foi sempre útil, sempre disponível aos gracejos de um cartão de horas exemplar.

 

Um corpo, como tantos, que viveu domesticado: de segunda a sábado, pelo trabalho; e, aos domingos, pela missa e a macarronada.

Ele fazia manutenção nos dormentes dos trilhos, sabia identificar os que apodreciam aos poucos, de dentro pra fora. Trabalhou trinta e três anos, recusou férias e descanso e vigiou o namoro de duas das três filhas. O funcionário do mês, todos os meses – o idiota útil que é o triunfo para patrões. Sim, ele acreditava que São Paulo era a locomotiva que puxava esse país. Por toda vida meu avô afirmou que “pretos, amarelos, baianos, bugres, atrizes, turcos e viados não prestavam” porque não se empenhavam à sua maneira e, por isso, não passavam de “ralé vagamunda, gente imprestável”. Ele também dizia não ser racista, afirmava que Mussolini fez bem à sua Itália e que Vargas era frouxo demais.

O velho era duro feito sarrafo e nunca ficava doente, mas, assim como a madeira maciça que também embolora, apodreceu aos poucos, de dentro pra fora; foi comido pelo câncer e nunca soube abraçar netos e netas, jamais agradeceu mulher e filhas por se atarantaram nas despesas dos remédios, convênios e exames.

Dias antes de morrer ele odiava a si mesmo por ser reduzido à invalidez; minha mãe contou que ele, já nos delírios da morfina, chorava o nome do pai. Alguns meses depois, quando o luto instalou-se feito parasita nos corações, minha mãe e minhas tias encontraram, num fundo falso de gaveta da cômoda de mogno, um punhado de notas roídas pelas traças, moedas consumadas e bilhetes com nomes imprecisos de mulheres. Meu avô experimentou o desassossego dos que economizam por vaidade, foi um pobre soberbo e seus dinheiros, que aqui ficaram, inválidos.

Ninguém subiu ou desceu quando, antes do túnel, o trem acuou na estação da boca dos ventos e esse não é um conto de fadas em que o fantasma do meu avô sorridente acena para mim de lá do passado.

Eu sigo já exausto, assim como as demais pessoas que lotam a merda desse trem. 

INfluxo
Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino
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Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino, é escritor, poeta e professor de filosofia. Acredita, sem demagogia, que a literatura tem como função humanizar as pessoas.

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