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Terminais #1 - ESTAÇÃO TERMINAL JUNDIAHY

Terminais #1 - ESTAÇÃO TERMINAL JUNDIAHY

ATENÇÃO

Os últimos meses foram de um torpor enorme que se alastrou em nossa sociedade. Não merecíamos os efeitos catastróficos da pandemia e todos os problemas decorrentes de uma quarentena muito mal executada, tampouco merecíamos um desgoverno tão mesquinho, incompetente. O fosso da desigualdade escancarou-se ainda mais e os mais pobres tiveram que escolher entre a carência de uma sobrevida ou sucumbir ao contágio pela falta de ar. Os transportes públicos desse país foram, talvez, os maiores propagadores da doença, além das asneiras diárias do presidente e seu séquito. Essas linhas não são o que parecem; o texto, apesar de insinuar, não almeja ser panfletário. Os escritos que seguem podem pendular entre autoficção ou testemunho, não me importa. Eu os tenho apenas como uma espécie de testamento.

                                                                                                                                             H. V.

                                                                                                                                Dezembro de 2020

 

                                                                                         “(...) Vai e vem, no vagão do trem,

                                                                                                   fazendo dinheiro, ligeiro, éh,

                                                                                                                  salve os marreteiros!”.

                                                                                               Organização Xiita – Marreteiros          

https://www.youtube.com/watch?v=Nvo_q5bJKqM

 

Acordei atrasado, mas ainda em tempo.

Levo pouco mais que as roupas e o corpo. Na mochila: maçãs, dois lanches, garrafa com água fresca, meia dúzia de cigarros e dois baseados, a blusa xadrez de sempre, livros e o cantil de Santhiago de Compostela – goles de uísque são bons para recordar minhas antigas viagens, trechos percorridos com um velho amigo pela América Latina dos corações insones. A cada passo dado sinto afastar-se de mim, por um momento, a melancolia dos meses de quarentena, dessa pandemia sem fim. São ansiosos os olhos das pessoas com quem cruzo pelas calçadas, há aquela aflição matinal inclusive nos carros que surgem e logo desaparecem. As árvores exalam nascimento e morte.

Dias empilhados em isolamento e contendas, a incerteza pairando em cada minuto – até bem pouco tempo eu procurava um novo fôlego, meu novo fôlego, mas desisti. Pôr a cara nas ruas povoadas por gente anônima parecia, apesar de tudo, um recomeço. Há ruídos nas portas de alguns comércios; conversas que em vão tentam afastar as angústias de todos os tempos.

Nos arredores da estação ferroviária o preço das passagens é sempre menos abusivo que o da bilheteria. Um ou dois bilhetes a cada cem engasgam na catraca, mas podem ser trocados. Vantagens de driblar a vigilância e comprar dos comércios paralelos, sempre liderados por malandros caricatos.

Aqui todo trajeto é terminal.

O sol de dezembro maltrata os nossos rostos cansados logo pela manhã. Muitos protegem os olhos com uma das mãos; outros usam bonés e não são raros os que fazem dos amarrotados envelopes de papel pardo, para currículos, uma proteção contra a claridade. Muita gente já abandonou o uso das máscaras e há quem ainda relute colocando-as, mesmo de forma incorreta. Eu disfarço como posso. À direita e à esquerda rangem ferros. Há tempos as faixas amarelas de segurança estão descascadas.

As linhas principais são para trens de passageiros. Num segundo plano ecoam apitos magoados das composições de carga; e, já ao longe, alguns rebocadores e peças de manutenção somem da vista panorâmica. Empregados e usuários trocam de turno e assim executam o ballet mecânico das atividades. As duas plataformas assemelham-se a ilhotas repletas de náufragos assombrados – um bando de solitários: o início e o fim de tudo estão sempre aqui.

Estação Terminal Jundiahy – disse.

Ressoam dos aços as palavras dispersas até que enfim esbarram em tijolos e em madeiras podres da construção avelhantada. Gente pobre, gente cansada e fodida que irá acotovelar-se até o fim dos tempos a espera desses vagões negreiros.

 

Até pouco tempo atrás era esse o poleiro pelo qual pagávamos, a CPTM chama-o de transporte público. Foto In: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2019/01/16/passageiros-da-cptm-reclamam-de-demora-do-trajeto-entre-jundiai-e-francisco-morato.ghtml

 

– A CPTM informa: cuidado com o vão entre o trem e a plataforma – disse.

– A CPTM informa: evite desconforto aos demais usuários! Ao embarcar, leve sua mochila nas mãos. Colabore! - disse.

Esses autofalantes não dão trégua. O aglomerado se agita ao assobio ainda distante, mas que vem se aproximando.

Trens lotados que se esvaziam e reenchem: idas e vindas; cargas e descargas – A CPTM informa: Senhores usuários, bom dia. Este trem tem como destino a Estação Terminal Luz. – disse, mas já não havia quem se dispusesse a ouvir. Vidas periféricas, bairros e assentos dormitórios disputados no grito e no soco. Lá, bem longe, a cidade grande em concreto armado se insinuará para mais um dia de cansaço.

Afobação, correria e estrondos, mas não por causa do esguicho de vômito de algum pinguço de meia idade, nem mesmo se trata de  algum suicida que se jogou na linha. No instante em que a embarcação abre as portas, num ponto próximo da plataforma, alguém que saiu empurrando tudo pela frente tenta escapar dos fardas-bege. Mas é pego antes de alcançar o alambrado que abraça a estação.

Leva coronhadas, muitos chutes, um dos milicos vai à forra e lhe cospe na cara, três vezes. – A CPTM informa: evite acidentes, não sente no piso do trem – disse.

É um marreteiro com suas sacolas pesadas. A mercadoria de amendoins salgados e doces que seria para o dia inteiro é apreendida, os guardas gritam para que ele mostre o dinheiro, o lucro proibido – ninharias de dar pena, ele ainda não havia começado sequer a fazer os corres. É só um marreteiro inexperiente, ambulante nos seus mangueios. Talvez venha daí o único sustento, talvez tenha sido o único jeito de pagar as contas de uma casa alugada ou a pensão alimentícia de um filho que quase não vê. Ninguém saberá.  

Agora ele permanece com a cara no chão, imobilizado. Gritos de revolta contida, algumas pessoas empunham celulares, gravam o ocorrido. Os milicos o levantam e ele reluta enquanto fios de saliva rubra lhe escorrem da beirada da boca e empapam a camiseta velha cheia de números de um vereador arcaico. Ele é levado, seus olhos envergonhados evitam a direção das plataformas, diante dele viram os rostos. Um homem exposto à reprovação e aos castigos públicos. E essa é só mais uma manhã na linha 7-Rubi.

O trem já enchido ignora qualquer distanciamento social. O operador da máquina dá a partida, eu e alguns outros usuários resolvemos aguardar o próximo, ninguém se dispõe a comentar o acontecimento por mais de três minutos – A CPTM informa: colabore com a segurança. Envie torpedo SMS denúncia para 971504949. A CPTM deseja a todos uma boa viagem - disse.

 

 

 

 

INfluxo
Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino
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Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino, é escritor, poeta e professor de filosofia. Acredita, sem demagogia, que a literatura tem como função humanizar as pessoas.

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