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O Renegado

O Renegado
Dennis De Oliveira Santos
ago. 29 - 3 min de leitura
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Eu sou o renegado, o inimigo,

O herege, o desiludido,

O cético, a tenaz pedra no sapato,

A curva diante das retas feitas de tediosas verdades.

Eu sou ninguém,

Às vezes me porto na vaidade de Napoleão,

O imperador de tudo que existe,

O qual insiste, persiste

Em não ser consumido pela liturgia

Do conformismo gravado nas testas

Dos homens-ovelhas em rebanhos

Burrocraticamente estáveis no senso comum.

Eu sou a tesoura, a faca amolada, o sarcasmo,

O triste tango de Piazzolla tocado na folia do carnaval,

O provocador rock n' roll contra as mesmices das canções de amor.

Eu sou o maldito, o prisioneiro, o reservado,

O verborrágico contra os persistentes dogmas.

O lutador contra a política a favor dos opressores,

O operário que incita a rebelião contra os desmandos do patrão.

Eu sou o atrito, o trágico, o provocador,

O torcedor de um time pouco querido,

Um isolado filósofo sartreano que desfere machadada contra valores reconfortantes.

Eu sou o inconformado, o do contra,

A ovelha negra que não vestiu o branco manto das religiões,

O amigo de poucas amizades e que deseja a cabeça dos traidores num vistoso prato.

Eu sou o homem que se consome de ódio

Contra injustiças que me prejudicam e não posso alterar.

Eu sou o tiro, o lamento do blues, o que tem dificuldade em pedir desculpas,

O professor que roda a chave da reflexão na cabeça dos alunos.

Eu sou o questionador de tudo que me dizem,

O que enfia com violência o dedo nas feridas que me causam incomodo,

O eterno rebelde em tempos petrificados em redes sociais e amores líquidos.

Eu sou o defensor do lado pouco visitado,

O viajante em busca de quentes praias,

O que cospe nas good vibes dos sacerdotes,

O que desdenha dos dúbios milagres,

O esfomeado por novas transcendências,

O que não se aliena na felicidade acéfala dos zumbis,

O antissocial que não faz coro com os imbecis.

Eu sou o esquisito, o pé torto, o peculiar,

O frio corte nos cadáveres dos ídolos públicos,

O detestado e que a poucos ama, mas com intensidade.

Eu sou a língua ferina, o pé atrás com conhecidos,

O alpinista que escala montanhas além da mediocridade,

O sombrio poema de Augusto que fertiliza o húmus de pessimismo e decompõe a matéria.

O epicurista que questiona os jardins de aparente felicidade,

A pessoa que carrega a foice e o martelo para decepar cabeças de reis e burgueses.

Eu sou o blasfemador contra verdades absolutas,

O paradoxo, a contracultura, o protesto,

A visceral canção de Belchior tateando liberdades,

O lobo que critica a alcateia firmada na corrosão da conformidade,

O dialético que internaliza as contradições da realidade em suas entranhas, que a tudo quer alterar.

Eu sou o que faz moradia em seu próprio lar,

Que de erro em erro descobriu-se e construiu os próprios alicerces.

O homem que do nascimento a sepultura

Não será devorado por uma vida insossa e sem sentido.

 



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