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O que tem por trás da tua pele? O que te move?

O que tem por trás da tua pele? O que te move?

Uma mãe e seus sete filhos. 17, 11, 12, 9, 6, 7, 3. 

Isso é o que se sabe. Uma vida permeada de obedecer. Então, depois da morte da mãe, ela decidiu vir para Belo Horizonte, residir em uma casa não sei a onde, não sei com quem. A filha, de 12, narra os fatos de maneira peculiar, detalhada e estranhamente calma. Ela conta a verdade, se sabe. Foi criada pelos avós por muitos anos. Depois por uma tia em uma região que falava ser feliz. Ela sabe o que é bom e o que não está certo. Ela sabe o que é amor. Então, isso lhe move. Conta com saudade sobre uma amiga com quem passava as tardes conversando. Possivelmente a mãe passou por algum procedimento abortivo em algum momento de sua vida, pois sabia o que dar para a filha logo que a menstruação atrasou, logo depois que o Sr. tocou no corpo dela com seu membro. Moram na casa uma tia e pessoas adultas não muito bem identificadas. A mãe disse que estudou até a segunda série, diz ser analfabeta. Prostituição por 5 anos, disse que largou. A filha adolescente revelou com certa facilidade que a mãe vivia em um relacionamento conturbado com o Sr, a qual ela chamava de pai, mesmo sabendo que não o era, que o seu biológico abandonou-a, desde sempre. Aborto. Disse que a mãe também tinha um outro homem na cidade de origem da família e na casa desse Sr, tinham o projeto inicial de o que ela reconhece como “lar”. E que ele era legal, ela comia bem. Diz que comeu bolo durante uma semana, quando ficou sozinha em alguma oportunidade. Eu realmente fiquei pensando muito nisso. Parece Bukovisk, mas não é. É a vida mesmo, sem ficções, ou quase isso.

Essa mãe, mulher, ser, conta que na região onde sempre morou, indicando como roça, era muito comum casos de abuso. Confessa já ter sido abusada e que uma prima era muito abusada. Essa prima, depois de um tempo e por não suportar mais, matou, a facadas, o Sr,. A adolescente amorosa diz que confessou a mãe os abusos e que ela disse, apenas, para ela matar quem tentasse abusar dela. A mãe nega que sabia, nega que sabia de tudo, demonstra desinteressada, disse que se nada der certo que ela vai seguir seu rumo.

Quem olha por essa mãe, mulher, ré?

O de 17 tá com os primos no interior. O de 11 com a família paterna, sendo que não diz a família de qual dos pais, pois ele tem um pai registrado e um biológico. O de ¾ (?) anos, com a avó paterna biológica. 9, C., preferida do Sr. no quesito amor. Não tem indícios de abuso, nem maus tratos. A filha demonstrou muita saudade da mãe, do Sr. e do irmão. Não sentimos saudades do que machuca? Ela aparenta estar bem, vivendo em um furacão, vivendo uma vida em que todos ao seu redor vivem dores. Adolescente de 12. Abusada. L, 7. Abusada, silenciada. Restam-lhe sequelas. A mãe diz que a filha sempre teve algum déficit de atenção. Ela foi a única criança em que a família externa manifestou interesse pela guarda após serem intimados. A avó entrou em contato sendo que nem reside aqui nesta. L, 6, menino. Foi agredido fisicamente por algum parente em alguma data, sendo que vai precisar passar por uma cirurgia de reconstrução de alguma parte do corpo. Relata agressões constantes pela parte de alguns parentes e sente que o Sr. o trata com desgosto. Não fala nada da mãe. Não fala nada. Pratica agressões contra as crianças ao seu redor.

Esse foi apenas o primeiro contato que eu tive com essa história. Essas pessoas estão lá fora, nesse exato momento, vivendo, respirando, igual a você. Não são números, não são apenas nomes escritos em negritos, acompanhados de uma data de nascimento e de uma idade. Infante ou adolescente. É um mundo que existe. E nos estamos vendo que elas vivem nesse mesmo mundo? São tantas violações, violências, crenças, ordem, poder. Como fazer resistência nesses espaços? Como alcançar quem vive uma vida apenas sobrevivendo; apenas vendo?

Lz,. Mulher, analfabeta, branca, do interior, abusada pelo pai em alguma época, teve o primeiro aos 12 e vieram mais 6. Mãe morta, pai não se sabe. Homens, prostituição, abandono, violência, código penal não aplicado, inexistente. “Vim para capital esperando uma vida melhor e piorou”. Piorou.

INfluxo
Ana Carolina Neto Rodrigues
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Mineira, barbacenense, louca. Poeta, advogada, escritora, dona de brechó, empreendedora. Feliz, confiante, corajosa, arteira e serelepe. Ando sorrindo, ando cantando, busco a felicidade nos mais simples detalhes do dia a dia. Eu sou real.

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