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Ensaio — Poesia

Ensaio — Poesia
Matheus Roberto
jan. 3 - 3 min de leitura
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A poesia é uma multiplicidade em si. Para ler poesia, os olhos devem ver com o coração, isto é, sentir além das retinas e dos ouvidos. A tradição poética ensina-nos a ver com uma pulsão psicológica a essência das almas escritoras. Trazendo à prática, imagine um vaso passado por várias gerações, uma relíquia familiar com significados históricos e particulares. Mas num fatídico dia, esse vaso se esvai da mão de quem o pegou, sendo posteriormente sucumbido a tenacidade do chão. Obviamente, as reclamações e os lamentos da família com quem o deixou cair seriam inevitáveis, mas o vaso, apesar de sua importância histórica, revela mais do que sua quebra? Um poeta diria que sim.

Há metafísica na história do vaso, como há rachaduras que o tornam eterno. Os símbolos carregados por esse acontecimento são milhares. Como a ausência de ternura dos familiares após sua queda. Dizendo mais sobre as pessoas do que objetos; falando da falta de empatia com o próximo, mas platonicamente amando a fantasmagórica história do vaso, apenas socorrida pelas membranas da memória. Ou então, os microssegundos de ansiedade com o vaso rasgando o ar, que aos olhos da arte, perpetuariam este sentimento por milênios, talvez anos-luz de tortuosa espera pelo fim.

Enxerguemos a poesia como um fluxo, perdoa-me pelo clichê da relação do ar com a poesia, mas a fim de entendimento, poetizar é como preencher o pulmão de coisas. Sentimos durante nossa trajetória existencial o mundo fluindo como vento, sobrepujando a olho nu, tudo o que constitui a matéria. À parte disso, concluo que a tradição da poesia é uma boa maneira de criar, mas também de limitá-la; ora, se é um fluxo, ela não está fincada a nenhum critério estético. Novas maneiras de alinhar a metafísica do sujeito escritor com os versos (ou não-versos) ocorreram e ocorrerão inevitavelmente. Como supracitado, a linha da verdade do poeta com sua poesia diz sobre ele e seus limites; e se a sua verdade não condizer com a de outrem? Sendo franco, e se a verdade dele for mesquinha, afinal? Até onde nossas consciências limítrofes chegam, não somos idênticos, somos plurais, como a poesia. O mundo não é um espelho. Uma sentença óbvia, mas o óbvio hoje em dia deve ser uma oração.

Sejamos mais adultos quanto a realidade. Um apreço ao passado deve ser moderado, não vejo outrora com maus olhos, seria dum burlesco sentimento de inovação. A inovação é natural, mas não necessariamente útil. Mudança pela mudança não tem resquício lógico como a história entende.

Portanto, se há uma exímia maneira perspicaz de fitar o mundo como ele é, sejamos moderados. O passado é o coração, mas não dependemos do coração para viver: o cérebro é quem está no jugo como vivemos. Mas de pensamentos o homem não se sustenta, isto é, a razão é mecânica, antinômica à intuição. As batidas bombásticas de sangue, como bem entendo, são formas de dizer o quão sentimentais somos. Sem sentir, a poesia não existiria, logo, o universo, idem.



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