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Dennys, Uma Vida Perdida na Matança Policial em Paraisópolis

Dennys, Uma Vida Perdida na Matança Policial em Paraisópolis
Dennis De Oliveira Santos
abr. 8 - 5 min de leitura
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Ontem eu fui dormir pensando no garoto Dennys Guilherme dos Santos Franco, um dos rapazes que perdeu a vida na matança policial que ocorreu na região paulista de Paraisópolis durante um baile funk. O meu xará tinha dezesseis anos de idade e na flor da juventude desejava ser o orgulho de sua família. Negro, morador da periferia, estudava administração com o sonho de conquistar o mundo (palavras do próprio expostas em redes sociais).

Diante dessa chacina estatal, na qual os assassinos fardados foram elogiados pelo playboy governador João Dória, fiquei questionando-me: o racismo institucionalizado há séculos no país é um muro total que isola todo tipo de civilidade com os semelhantes por parte da classe média e de nossa espúria elite? Sei de forma mecânica as respostas desumanas dos visitadores de shopping centers: se ele estivesse em casa isso não aconteceria, ninguém mandou ir à um baile funk, não eram pessoas de bem, estavam fazendo alguma coisa errada para a polícia agir dessa forma.

Mas o fato, a verdade incontestável é que a compaixão e o respeito a dignidade humana são valores seletivos nesse país. O tratamento digno depende do nível de melanina na pele, da classe social em questão. Porque se Dennys estivesse num Lollapalozza ou Rock in Rio não sofreria nenhum “baculejo” policial em busca de drogas. Se ele estivesse numa rave não iria ver nenhum PM em busca de “delirantes doces”. O que aconteceu em Paraisópolis é a síntese concreta de nosso racismo institucional por parte das forças públicas de segurança e de nossa asquerosa elite.

Perante as baladas de classe média sempre há uma grande comoção por parte da opinião pública: lembrem do clima de intensa solidariedade com os jovens brancos e sulistas no incêndio de Santa Maria. Enquanto jovens morrendo pisoteados numa ação arbitraria de policiais em uma festa de favelados não são dignos de tanta atenção na imprensa. Eles serão apenas corpos esquecidos nas frias estatísticas – sem um minuto de silencio em estádios como forma de homenagem, sem pomba branca da paz, sem mobilização de artistas ou passeatas da classe média pedindo o fim da violência urbana.

Enquanto se posta foto em redes sociais em solidariedade a um ataque terrorista em Paris, silencio ensurdecedor em relação ao tráfico de pessoas em países africanos. Exportamos a nossa violência estatal embrulhada no papel presente chamado missão de paz quando o exército brasileiro maltratou a humilde população haitiana.     

Comoção pública perante o sumiço do Amarildo ou do rapaz que foi alvejado pela polícia por que estava com um guarda-chuva? Não! Inclusive se alcança o ápice da institucionalização do racismo quando se criou um projeto de lei no Senado para criminalizar o funk. É música de favelado – isso se trata com tiro, porrada e bomba! No país em que muitos negam o racismo, advogam a falsa tese da democracia racial, muitas vezes os próprios negros (os neo-capitães do mato) “se embranquecem” para não reconhecerem os comportamentos discriminatórios arraigados em nossa sociedade.

E assim, as crianças vivem assustadas pelas ruas, olhando para todos os lados, com muito medo, agachadas nas escolas ou correndo em disparada ao fugiram de tiroteios de toda a domadora violência miliciana e estatal que chicoteia o dorso dos mais humildes. Na marcha fúnebre, onde jaz Marielle, Amarildo e Ághata se juntam aos corpos dilacerados pela chacina do Estado. Correm pelas favelas, pelos poucos equipamentos públicos presentes, os negros e pardos mediante o pavor dos atropelos de governantes psicopatas. As pessoas olham para o futuro e questionam se são apenas números nos mapas da violência - carne bovina a ser mutilada na burocracia do sanguinolento Leviatã.

A dignidade dos negros e pobres sempre foi dilacerada no Brasil chacina-varonil. Dirigindo um capitalismo dependente de estrangeiros, vendendo todas as riquezas naturais, forçando a entrada de milhares de braços na ociosidade do desemprego, o trôpego Leviatã pune prostituta, motorista e flanelinha para manter o controle social. Cria um Auschwitz tropical para isolar os indesejáveis, mantê-los distantes dos cidadãos de bem. Os três poderes esquentam as modernas chibatas para marginalizarem as classes perigosas: punir, torturar e matar os pobres é a solução de controle social. Pois, na linhagem fina e distinta das elites, os desdentados não podem deixar seus rastros no país. Com pólvora, bala, cassetete e canetadas estatais se pescam corpos negros nos anzóis da violência para impedir que os status dos ricos sejam ameaçados pelos comedores de marmita.
                                                                         

03.12.2019
 


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