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BEATRIZ: QUAL A SAÍDA?

BEATRIZ: QUAL A SAÍDA?
Cassiano Ricardo Martines Bovo
jan. 31 - 3 min de leitura
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Já vi Beatriz em maus momentos, mas agora....

Rua Bento Freitas, aquela das outrora luxuosas boates da então “boca do luxo”, no centro de São Paulo. Ali Beatriz deixou jorrar toda sua angústia.

Transtornada, parece até que sua feminilidade se perdeu um pouco.

Não havia mais espaço em sua mente e sentimentos para as queixas e dores dos amores, nem mesmo para as tantas violências a que está exposta nas ruas, como em outras conversas. Agora, angústias outras.

Os programas vão escasseando, por mais saúde e jovialidade que apresente aos seus 46 anos. E olha que a situação não está fácil nem para as mais jovens!

O mercado é cruel, o tempo idem, o proprietário do minúsculo apartamento que ela aluga na Av. São João, também.

“Não aguento mais a prostituição, estou ficando com nojo”.

 Beatriz teme o roteiro que já viu muitas trilharem ao atravessar certo limiar de idade e ainda tendo que que viver da prostituição, mesmo que procurem empregos, geralmente negados.

As fixas despesas diante da flutuante (ou variável, como dizem os economistas?) receita.  

“Há tanto tempo procuro emprego, e nada!”. No Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD) a encaminham para entrevistas. “Quando veem que eu sou trans dizem que ligam depois ou que não tem mais vaga”.

Agonia. Beatriz é esforçada, vai atrás, fez o Transcidania, terminou o ensino médio. Tem saúde, é forte.  

Hoje em dia o que as trans mais falam é “tem muito drogado na rua”. De fato, Beatriz só está conseguindo ganhar um pouco mais se cheirar com clientes. Pelo seu passado e vivência com drogas, isso é catastrófico. “Não é mais programa como antigamente, não.... está mudando muito”.

“Quero voltar para minha terra, Maceió”. Eu achei boa ideia. Ir de ônibus mesmo, para baratear, mesmo aqueles bem arrebentados. Ela acha que o que importa é chegar.   

É desejo. Mas ela logo desanima. “Eu teria que morar com minha mãe e irmã, que é esquizofrênica. Aí fica difícil, a última vez que fiquei lá, ela tentou me esfaquear. Tem hora que está tudo bem, de repente muda. Por causa da doença, minha mãe a apoia. Quem apartava e me protegia é meu irmão, mas ele não mais está lá; teve que se mudar para o Mato Grosso por causa do trabalho”.  

Beatriz recorda-se de seu pai, falecido. Triste, conta-me como ele era um companheiro, a apoiava, saiam e bebiam juntos.  

Perguntei sobre a possibilidade de alugar algo por lá. Ela descarta. “Como vou pagar o aluguel? Lá me pagam vinte reais por um programa. E, geralmente, são casas grandes, não é como São Paulo”.

Aí comentei sobre a possibilidade de morar com sua irmã, em Suzano, Grande São Paulo. “Não dá, já tentei. O marido dela começou a dar em cima de mim. Quero evitar essa situação complicada.”

 O que fazer?

Emprego, emprego, emprego...aí daria para ficar em São Paulo, em melhor (ou menos pior) condição. Mas como arrumar o emprego? 

Alguém pode arrumar um emprego para Beatriz?

Como Beatriz sobreviverá? Não quer acabar na rua, como muitas. 

Antes de ir embora, Beatriz me faz o pedido: “me arruma 20 reais para eu poder comer alguma coisa?”

 

 


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