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MAÍSA

MAÍSA

Fui ao encontro com Maísa; quando me contatou, pelo que percebi, estava aflita. Combinamos num bar que fica na esquina da Rego Freitas com o Largo do Arouche. No caminho, parei no Bar da Cidade, na Bento Freitas com a Marquês de Itu. Na TV, à minha frente, me deparei com um âncora desses programas policiais, indivíduo de tipo bem grosseiro, que falava de uma mulher transexual que foi assassinada na região próxima ao Parque do Carmo, em Itaquera, São Paulo. Me detive porque ele dizia algo do tipo “não me venham com mimimi, várias pessoas morrem, não é só trans não”, provavelmente se referindo aos tantos cotidianos crimes transfóbicos e às reivindicações das organizações e ativistas por mais direitos, inclusive à segurança. Já na rua pensei como é necessário conhecer melhor esses programas e ficar ligado.

Quando cheguei ao bar, Maísa lá estava; sentada numa das cadeiras da mesa da ponta, colada à calçada, olhar fixo para a pracinha onde se via um amontoado de homens e mulheres largados, deitados, outros andando no gramado debaixo das árvores.

Maísa me contou da briga que houve na casa dela. O Rodolfo, um michê que ela se envolveu, foi para cima de Matias, o que aconteceria mais cedo ou mais tarde. O problema é que o primeiro estava com uma faca na mão. Ela teve que intervir para não acontecer o pior. Foi por pouco. Me contou o sufoco da situação. Assustada, relatava o desejo de não se envolver mais com ninguém. Não via ela a hora de chegar ao fim do “contrato”.

Quando, anos atrás, Maísa me disse que ia aceitar a proposta do Matias, eu ponderei para que ela pensasse bem, pois isso teria também suas desvantagens. Mas ela estava determinada; foi uma oportunidade para realizar as transformações corporais que toda trans que está iniciando, sem recursos, almeja. Chegando em São Paulo, vinda de uma pobre família de Belém do Pará, a ideia de Matias falou mais alto na sua cabeça. Ainda mais pensando nesse mercado altamente competitivo em que mais e concorrentes vindas de várias regiões do país vão se inserindo, em busca da sobrevivência.  

Também Maísa pensou que essa foi uma forma de poder se livrar do domínio da cafetina dona do local onde estava morando e da convivência com dezoito outras mulheres trans sob o mesmo teto, controles, regras, horários, pressão para pagamento das diárias, multas e brigas. É que Matias também prometeu ajudá-la a alugar uma quitinete, o que facilitava para atender os clientes no seu local, diminuindo a dependência do trabalho nas ruas, fonte de riscos e ameaças.   

Matias é um fotógrafo especializado em mulheres transexuais, realizando principalmente trabalhos freelancer para vários canais de mídia, cobrindo eventos e outros serviços do tipo. Pelas lentes de sua câmera fotográfica, detalhe a detalhe, registrou muitas delas, vendo-as como obras de arte, captando os mais variados aspectos da transexualidade, nas combinações com a indumentária, adereços, cores e tipos.  

Depois de fazer um programa com Maísa e conhecê-la melhor aflorou a ideia de bancar financeiramente a transformação daquela já bela trans; alta, longos cabelos negros sem mega hair, mas ainda sem seios, pouco silicone nas nádegas e coxas, o rosto para ser trabalhado, procedimentos estéticos à frente. E imaginava-a do jeito que queria, como um corpo a ser paulatinamente esculpido.  

Matias a acompanhava em vários procedimentos. Logo de cara viu fixamente a bombadeira encher as seringas com silicone industrial, atarracha-las nas grossas agulhas em suas nádegas fincadas para - depois de checar a ausência de ar - exercer a necessária pressão, uma a uma, inundando e transformando seu corpo rumo à esbelta feminina forma. Depois de retiradas as agulhas a viu passando a cola para fechar os buracos e as bolinhas de algodão em cima. A maioria das clínicas realiza processos já mais sofisticados, mas Maísa quis fazer com uma bombadeira amiga sua, como há trans que ainda fazem.  

De litro em litro de silicone, intervenção a intervenção, Maísa foi ficando belíssima para os padrões das mulheres trans; começou a ganhar muito dinheiro e toda hora era convidada para fazer filmes pornô (que sempre negava, sob o argumento do baixo pagamento por filme e a exposição em relação à sua família e amigos). Implicitamente o contrato verbal firmado entre ambos pressupunha um poder sobre Maísa, por ser Matias o financiador. Às vezes ele dizia isso abertamente, geralmente nas brigas, desavenças. Desacertos, desencontros. Difícil convivência. Quantos momentos ela queria ficar só e Matias se julgava no direito de estar lá com ela, nem que fosse para bater um papo?  

Já Rodolfo, por quem Maísa estava apaixonada, dizia: “que contrato o quê, dá um pé nesse cara; vamos viver nossa vida”! Os que vieram antes disseram a mesma coisa. Ela dizia que não é justo, que não dá, não vai ficar fugindo, não quer ter problemas. Afinal, Matias bancou sua transformação, ela aceitou o “contrato”. Propunha que o melhor seria conciliar as coisas e assim viver. Mas, ao contrário, Rodolfo foi ficando ainda mais violento do que já era. Maísa queria que ele levasse numa boa, mas não acontecia. Como em geral, e de várias formas, se tornava um corpo para pessoas terem algum nível de controle e poder usufruir disso.   

No bar, quando eu perguntei a Maísa: “E depois, quando terminar o contrato, o que você vai fazer”? Não sei, disse ela. O aparente desdém na resposta deixou, de relance, transparecer um tremor nos lábios, muito disfarçadamente quase sorrindo. Questão de segundos.  

Depois do encontro não vi mais Maísa pessoalmente, conversávamos apenas esporadicamente por mensagens.  Eu a vi, na verdade. Foi num daqueles dias em que o mercado estava fraco e que as trans que atendem no seu local saem para a rua. Fato é que quase não a reconheci. Seu corpo estava deslumbrante. Frente a frente, me impressionei. Não só a grossa maquiagem forte e o tão vermelho batom, mas os enormes cílios negros postiços. Mas falamos rapidamente. E ela estava num sofrimento, pois era uma daquelas noites paulistanas da época do frio, algo difícil para uma paraense acostumada com o calor.

Tempos depois, mandei algumas mensagens para ver como ela estava. Sem respostas. Estranhei. Ainda mais em meio a tantas e tantas notícias de violências e homicídios contra as transexuais. Por outro lado, lembrei que o “contrato” devia ter terminado. Fui até o apartamento dela. O porteiro me disse que ela se mudou, mas não sabia de muita coisa, apenas ouviu dizer que ela saiu do país.

Um dia Maísa me contatou e deu notícias. Estava em Milão. Usou o dinheiro que conseguiu juntar. Ela, realmente, não era como muitas que pegam a grana que ganham e queimam em celulares do último modelo, bolsas, sapatos, roupas caras, viagens e outras coisas. Mas estava preocupada. Era mais uma ilegal no país, num esquema com uma cafetina brasileira. Como é muito comum, a qualquer momento poderia ser deportada. E estava ganhando muito dinheiro. Por outro lado, a dureza do frio, a droga por tudo quanto é canto. Também, o risco da violência. Não nos iludamos. As transexuais sofrem violências no mundo inteiro.  

Fiquei pensando em Matias. Deve ter sido pego de surpresa. Talvez agora ele esteja olhando o que restou do seu enorme arsenal de fotos, uma vez que ia registrando cada etapa das transformações, tipo “o antes e o depois”. Ela, bem longe, provavelmente nem ligando, na medida que apenas o tolerava.   

Um dia desses passei em frente a um bar. Numa mesa ao fundo estava Matias, algumas garrafas vazias de cerveja à sua frente. Olhar triste. Ele não me viu. Eu ia entrar, mas achei melhor deixar para lá.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Retratos & Roteiros Sociais - Por Cassiano R. M. Bovo

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Cassiano Ricardo Martines Bovo
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Cientista social e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, tenta expressar em palavras cenas do cotidiano de pessoas estigmatizadas e violentadas das mais variadas maneiras. Veja mais em https://influxo.tv/retratos-e-roteiros-sociais

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