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COMO MILENA SE VIROU NA PANDEMIA?

COMO MILENA SE VIROU NA PANDEMIA?

 

                                                        A doença afetou bastante a gente, a gente ficava                                                              como um poste na esquina porque a pessoa tinha                                                            medo de parar e se contaminar e levar a doença                                                              para casa, para os seus familiares, então foi bem                                                              difícil (Milena).

 

Uma noite de setembro de 2021. Naquela mesma esquina de sempre estava Milena (pseudônimo). Tranquila e serena como em geral; creio que agora mais ainda, afinal parece que o período mais difícil da pandemia já passou, com todos os seus rastros devastadores e as mortes que ainda nos rondam.   

Como será que essa amazonense, que mora em São Paulo desde 2005, se virou na pandemia? E suas colegas? E a prostituição?

Início de 2020, intenso movimento para Milena; a euforia do carnaval. Depois veio a quarentena.

Primeira semana: resistência; não saiu de casa, porém “vou ter que ir, porque as contas me esperam”. Sobrevivência. Teve de aventurar-se rua afora junto com algumas de suas colegas. Logo de cara o baque: tudo vazio, parado, não tinha clientes. Apreensão. Ninguém queria parar. A maioria passava, quando paravam nem abaixavam o vidro, não falavam direito. As máscaras não diziam muita coisa, o medo de contaminação, sim.  

Duas semanas depois: certa flexibilização. Alguns homens, já conhecidos, embora relutantes, começaram a parar para conversar. Um ou outro se arriscava a colocá-la dentro de um carro.

E Milena às vezes tinha que tirar a máscara: “as pessoas tinham medo, porque achavam que eu tinha alguma coisa”. E perguntavam: “você não está com o vírus não? Coloca a máscara! Vai para casa!”. Estupefata ela afirma: “Eu nunca imaginei que ia acontecer isso, quer dizer, nem eu e nem muita gente, porque foi bem difícil para a gente”.

Um mês depois. Milena acha que o movimento caiu oitenta por cento, quer dizer, estava a 20% da situação pré-pandemia. “Foi bem difícil mesmo nos primeiros meses”.

Ausência não só de clientes, mas também de outras mulheres transexuais, amigas e colegas. Algumas voltaram para sua terra natal e foram morar com familiares; agora uma parte já está voltando. Outras, mais estáveis financeiramente (que não é o caso de Milena e da maioria), puderam esperar um pouco mais. Há aquelas que passaram a dividir um mesmo apartamento em grupos maiores como estratégia. Mas a maioria teve que se virar na rua.

Três meses de pandemia: “sempre tinha algum que vinha, um dia eu trabalhava, dois dias eu não trabalhava, mas sempre tinha alguém, acho que é da cultura do brasileiro, vinham dar uma escapadinha com a gente”.

De acordo com Milena, algumas, como que paralisadas, não conseguiram sair para trabalhar mesmo precisando. E aquelas que ficaram sem lugar para morar? Aparentemente aumentou o número de mulheres trans em situação de rua na pandemia, estatística que já vinha em assustadora ascensão. Ela mesma encontrou algumas no CRD (Centro de Referência e Defesa da Diversidade), que afirmaram terem ido morar em barracas na rua e lembrou como tem aumentado a população no Minhocão (Elevado Presidente João Goulart, que fecha à noite e totalmente nos finas-de-semana).  

A prostituição virtual é alternativa corriqueiramente lembrada em tempos de pandemia. Milena conhece transexuais que já assim trabalhavam e algumas (poucas) agora passaram a fazê-lo, mas ela não aventou a possibilidade; não tem paciência: “O cliente que procura, ele quer muito.... assim... ‘manda foto, manda isso, manda aquilo”. A sua argumentação é de que o dinheiro já estava escasso e é necessário investir em anúncios em sites; os melhores são caros. O retorno é incerto, alto risco. Como ela viu meninas fazendo isso sem o ganho imaginado, preferiu não se arriscar. As que se deram melhor são justamente aquelas que já faziam, têm o anúncio.

Ir para a casa de familiares, como parte delas fez, também não se colocou. Receou levar o vírus para seus entes queridos (avó, tias, grupo de risco); causar problemas nesse sentido. Preferiu esperar a demorada imunização via vacina.

Milena entende que lá pelo quarto, quinto mês, houve certa retomada do movimento. Ela disse que muitos homens, a maioria casados, ficavam estressados em casa, não aguentaram e começaram a dar a “escapada do brasileiro”; diziam que se sentiam um pouco presos, que iam à padaria, a barzinho, ver futebol, mas iam lá ficar com elas. Milena afirmou que retomada (ou melhor, amenizada) mais significativa se deu entre setembro para final de 2020.

Para Milena, o movimento ainda não recuperou a situação pré-pandemia; está longe disso. Apesar da recuperação gradativa, “ainda está bem parado”. Do início, ela acredita que melhorou uns 40%, falta uns 60%.

Algo que sempre foi muito importante, sobretudo para a prostituição de rua, é revelado. Parte da clientela sempre veio da balada. Homens ao sair (“eu vou dar uma volta”) passa por lá e acabam fazendo programa. Com a pandemia, isso acabou. Casas, barzinhos fechados ou fechando mais cedo. Esse público diminuiu muito: “dá meia noite, não tem mais ninguém”. A madrugada sempre foi manancial de clientela (continuidade da diversão, descontração, muitas vezes no embalo da bebedeira). Quantas trans não faziam programas quando o dia estava amanhecendo?   

Milena também não pôde utilizar uma estratégia que frequentemente lança mão: a de viajar para diferentes cidades, de tempos em tempos. Barreiras sanitárias, redução de ônibus, cidades isoladas, como se sabe. “Se for para gastar o dinheiro, pelo menos fico em casa”.

Mas veio ajuda de várias direções e formas. Clientes deram uma força. O proprietário do imóvel onde Milena mora concedeu descontos. Organizações várias distribuíram lanches e álcool em gel. Milena mencionou: GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS), Grupo Pela Vidda, Casa Roberto, Casa Florescer, uma instituição na Lapa (não recorda o nome), outra em São Miguel (Zona Leste, idem) e uma organização da Barra Funda que fez um trabalho muito bom por meio de testes gratuitos de PCR para todas. Membros de instituições religiosas, além de distribuir lanches, conversavam. Segundo ela, “um alimento espiritual” e lembrando que sempre as respeitavam, nunca pedindo para parar. “Algumas meninas gostam do alimento....mas eu gosto também de escutar, é sempre bom se conectar com Deus, independente de tudo, Deus está acima de tudo”).

Milena afirmou que em todo o período – até hoje – o CRD concedeu cestas básicas, além do apoio, orientação, doações. Um “estar junto”, suporte importante em momentos de tanta incerteza, sobretudo para aquelas em situação de maior vulnerabilidade.    

Em janeiro de 2021 Milena começou o Transcidadania[1], decisivo apoio. A remuneração mensal alivia o valor do aluguel. O programa também possibilitou a volta aos estudos, via EJA (Educação de Jovens e Adultos), no caso, a 5ª série. Tem a qualificação profissional, os encontros e debates. “Estou gostando, o colégio que eu estudo, o pessoal é bem tranquilo, tem bastante trans (....) eles fazem de uma maneira que dá uma boa, vamos dizer assim, uma organização que as pessoas estão sendo colocadas no lugar certo. É bem distribuído”.

Milena continua: “Eu quero agradecer ao CRD e ao Transcidadania, que ajudou bastante, não é? Não só ajudou como está ajudando bastante (...) não só eu, mas muitas meninas que estavam em situação de rua, que puderam estudar de novo, retomar as aulas, fazer cursos. O Pela Vidda também, que oferece bastante cursos para as meninas, não só para as meninas, para as pessoas LGBT+. Só gratidão, não é?”. E emenda: “Eu já vi, o programa é muito bom e funciona sim, só tinha que melhorar um pouco o valor. Uma pessoa que mora aqui no centro paga um aluguel muito caro, a maioria paga um aluguel muito caro para poder ficar no centro, por causa do trabalho, porque é tudo perto, outras atividades a gente faz por aqui, então, só isso, mas o programa... sim, o programa é bem...funciona sim, para aquelas que querem realmente alguma coisa na vida”.

Ela quer arrumar um emprego futuramente. Lembra: “como disse uma vez para mim uma grande militante, a Bruna Valim, a vida trans não é só prostituição, entendeu? Então a gente tem que olhar, que ocupar outras cadeiras, outros lugares, entendeu? Porque trans não é só isso, é muito mais, é só você querer que você consegue”. 

Para enfrentar a pandemia e todas as dificuldades decorrentes, Milena acha que o crucial foi a sua tranquilidade, a sua característica de facilmente conseguir “ficar de boa”: “eu acho que no fim do túnel sempre tem uma luz, então, eu nunca fiquei desesperada, lógico que fiquei preocupada, a gente fica apreensiva, né? É uma coisa muito nova, mas eu sempre fiquei tranquila (....) eu fui levando, não é? Fui levando do jeito que eu consegui, não é? Graças a Deus deu tudo certo no final”.

Com todos os riscos pelos quais passou, Milena não se infectou, a não ser que tenha ficado assintomática; quando fez o teste PCR, deu não reagente. Está imunizada com as duas doses.

Artigo baseado em entrevista realizada em 16/09/2021.

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[1] Para mais informações sobre o significado e o funcionamento do Transcidadania veja https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/direitos_humanos/lgbti/programas_e_projetos/index.php?p=150965

Retratos & Roteiros Sociais - Por Cassiano R. M. Bovo

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Cassiano Ricardo Martines Bovo
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Cientista social e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, tenta expressar em palavras cenas do cotidiano de pessoas estigmatizadas e violentadas das mais variadas maneiras. Veja mais em https://influxo.tv/retratos-e-roteiros-sociais

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