[ editar artigo]

A PROPÓSITO DO ASSASSINATO DE VITÓRIA RODRIGUES

A PROPÓSITO DO ASSASSINATO DE VITÓRIA RODRIGUES

                                                                       Falo-vos da cidade em que resido

                                                                       Cidade em que há palavras como ruas

                                                                       E cada qual que busca um sentido

                                                                       As recolhe e as usa como suas

                                                                      (João Alberto Roque, Poesia na cidade)                                                                

Uma das extremidades da Ponte Cidade Jardim. Ali começa a Avenida Lineu de Paula Machado, que, paralelamente à Marginal Pinheiros, vai beirando o Jockey Club de São Paulo até se encontrar com a Avenida Afrânio Peixoto, que finda na Cidade Universitária da USP. O percurso é uma artéria central de um emaranhado de travessas e paralelas cheias de residências de classe média alta.

Distante dali, com suas semelhanças, a Avenida Indianópolis, que liga a Avenida Jabaquara ao Parque Ibirapuera, cortada e margeada por um sem-número de alamedas também repletas de imóveis de alto padrão, embora a via principal seja composta quase que totalmente por imóveis comerciais. De resto, residências mais residências....   

Trata-se de duas tradicionais regiões de prostituição de mulheres transexuais e cisgênero (estas em menor número) espalhadas, dia e noite, pelas vias principais e suas adjacências; juntas, portanto, das unidades familiares. São regiões que se diferenciam da maioria daquelas em que as mulheres transexuais costumam prostituir-se, onde comércio, indústria e serviços pulsam freneticamente de dia. Ali, o encontro da oferta com a demanda do mercado sexual se dá à noite, quando tudo fecha.

Os conflitos entre moradores e as mulheres transexuais nas regiões do Jockey e Indianópolis (enclaves que, como já dito, são majoritariamente residenciais) vêm de há muito tempo, ora se acirram, ora enfraquecem, repletos de nuances e estratégias por parte dos moradores que, em atmosfera moralizante, reclamam de barulho, da violência, da prostituição, mas, sobretudo, da desvalorização de seus imóveis. Várias as tentativas de expulsá-las: instalação de câmeras e colocação de faixas assustando os clientes, com dizeres do tipo “cuidado, a placa do seu carro está sendo filmada”, contratação de grupos de vigilantes para ameaçar e amedrontar, projetos de mudança nas calçadas e guias (que nunca saíram do papel), dentre outras.  Às vezes a violência policial se torna um ingrediente a mais. Iniciativas que nunca tiveram êxito, até porque a prostituição não é crime no Brasil.

E, imersas na cotidiana transfobia, outros riscos e perigos rondam as vidas trans nessas regiões, como a violência e os homicídios.

Madrugada do dia 23 de outubro de 2021. Por volta das três da manhã uma mulher transexual é atirada de um carro em movimento quando passava pela Alameda dos Uapês, próximo à Avenida Indianópolis. Seu corpo, nu das nádegas para baixo, fica estendido na rua, a cabeça na calçada.

Trata-se da cearense Vitória Rodrigues, 31 anos. Pouco depois para lá acorrem algumas trans; indignadas e impressionadas chamam o socorro, mas ela já está morta; ao retirá-la puderam ver as facadas pelo corpo.

Dias depois, como sempre, as matérias da mídia relataram o caso; esse em especial, de forma bem sucinta; abruptamente algumas delas mudam de assunto (com os subtítulos “ação judicial”, “ação na justiça”, por exemplo); sai Vitória e sua morte e a narrativa envereda pela ação que a Acresce – Associação dos Condomínios Residenciais e Comerciais – entrou na Justiça, solicitando à Prefeitura a regulamentação da atividade de prostituição:

“A principal intenção é frear uma possível desvalorização imobiliária em regiões como Planalto Paulista e Moema, ambas na zona sul, e Butantã, na zona oeste, além de amenizar incômodos a vizinhos de pontos de prostituição”[1].

Em seguida vem a informação de que o Ministério Público–SP já está analisando.

Em textos praticamente iguais, mas em diferentes veículos de mídia, as matérias, repentinamente, passam a mirar seu foco nas reivindicações dos moradores; Vitória, e seu brutal assassinato (assim como outros tantos que já aconteceram por ali), é esquecida. Passa a ser lembrada a desvalorização dos imóveis causada pela prostituição no local, assim como não se fala das motivações para a prostituição.

Que moradores e suas associações, assim como outros atores solidários, se utilizem dos espaços disponíveis para expor suas demandas, está dentro das expectativas, embora possa ser eticamente discutível; mas como que a partir do relato de mais uma vida trans perdida, grandes meios de comunicação, repentinamente, como uma segunda parte, inseriram uma outra questão (embora interligada) mudando os rumos da narrativa? Como que a preocupação econômica abafando a dor do assassinato....  

Lembremos de que não se trata de uma matéria sobre a prostituição, mas sim, de um assassinato.... E mais, os homicídios de mulheres transexuais não se dão por causa da prostituição, mas, sim, da transfobia reinante na sociedade....

 

 

 

 


[1] Transexual é morta em travessa da avenida Indianópolis, em São Paulo | O TEMPO. Essa mudança de foco aconteceu ao menos nos seguintes canais: Folha Press, Notícias do Mundo, Isto É, O Tempo, Folha de S. Paulo - Agora.

 

Retratos & Roteiros Sociais - Por Cassiano R. M. Bovo

INfluxo
Cassiano Ricardo Martines Bovo
Cassiano Ricardo Martines Bovo Seguir

Cientista social e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, tenta expressar em palavras cenas do cotidiano de pessoas estigmatizadas e violentadas das mais variadas maneiras. Veja mais em https://influxo.tv/retratos-e-roteiros-sociais

Ler conteúdo completo
Indicados para você