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Uma prosa para você dar nome

Uma prosa para você dar nome

Privatizaram a vida e viver está cada vez mais caro. A inflação sobrepôs a esperança. A liberdade se encontra enclausurada por câmeras de segurança, muros e cercas de alta tensão. As convenções sociais estão quase todas falidas. Os valores de maior prestígio são os valores da Bolsa.

Tudo é para todos, mas só têm quem pode pagar. Ter é mais que ser. Aliás, qualquer um que tenha 30 milhões de dinheiros está fadado a "vencer" na vida. A ganância do individualismo está vencendo a sapiência que nos fez humanos e que um dia nos foi dada pelo presente. É sempre pelo pão de amanhã.

O presente se tornou líquido, volátil. Fácil de ser manipulado pelo Poder. Querem que as coisas mudem para que continue tudo igual. Temem uma real mudança. Manipulam a história, a verdade e o sentido da vida em prol de poucos. O livre arbítrio é só mais uma história daquele livro chamado bíblia e a liberdade de expressão é só mais uma das tantas histórias daquele livro chamado Constituição.

Somos programados a não pensar, não sentir; apenas trabalhar, produzir. Somos coagidos moralmente por pensar fora da caixa. Nos querem quadrados, imóveis. O capital não dá espaço para questionamentos e tudo gira em torno dele. Ignoramos as coisas simples da vida em nome do status quo de amanhã. Nos tornamos atores e coadjuvantes da nossa própria história.

Control c, control v: não criamos nada além de memes nas redes sociais para amenizar nossa angústia diante do mundo. Eu sei bem como é. A mesma velha história se repete. Embaixo da pirâmide social o poço nem é assim tão fundo. Pois nos dão um pouco de poder para o supérfluo, para cachaça, para o calmante, para cerveja, para o pay per view do futebol, do bbb e nos sentimos confortavelmente entorpecidos e bem. Por isso demonizamos a educação e a luta que muda o mundo: para não perdermos a novela na tv e as fake news do dia, pois eles dizem o que a nossa mesquinhez quer ouvir.

O acesso às migalhas que caem da mesa dos senhores do mundo é o que chamamos de qualidade de vida, pois a história que nos contaram nós já decoramos e não parece assim tão ruim. São tempos de coisas rasas. "O fascínio é fascinante, deixa a gente ignorante, fascinada. É tão fácil seguir em frente e esquecer que a coisa toda tá errada".

Nos querem na zona de conforto, mas não entender que quem nasceu confronto, mesmo quando cala é uma maneira de afronta!

Já cooptaram nosso tempo e nossa consciência de nós mesmos, agora querem nossas almas, entretanto já hipotecamos nos bancos, em suaves prestações, oito horas por dia, onze meses por ano. 

Chegará um dia que inventarão novas máquinas que substituirão não só a mão de obra, mas também as nossas emoções. Aí, meu amigo, minha amiga: será tarde para quem sonha a vida diferente. Nos tomarão o resto que nos sobra de humanidade. Portanto, sejamos subversivos ao que nos é imposto. Questionemos. Isso se chama resistência!

Nos querem na zona de conforto. Mas eu nasci confronto e só de estar aqui já é uma afronta!


*Publicado no Jornal Inconfidentes em tiragem local e impressa

Narrativas

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Luciano Prado
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Jornalista, escritor, músico produtor e empreendedor

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