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UMA CARTA PARA DEUS

UMA CARTA PARA DEUS

Querido e amado Criador, espero que leia a minha carta e um dia possa então dar-me respostas a todos os questionamentos que trago comigo desde a primeira vez, que aprendi que penso e posso transformar as coisas que demasiadamente me incomodam. Se puder ler e responder-me serei grata e sentir-me-ei honrada. Segue meu desabafo:        

 

Às vezes me sinto como uma peça de um quebra cabeças distante das demais peças, outras vezes me percebo como um animal acuado fora do meu habitat natural. Na grande maioria das vezes olho e observo as pessoas ao meu redor e não consigo me sentir parte desse universo, me escandalizo com a falta de educação, me assusto com a indelicadeza e a indiferença, me definho com as injustiças, choro em demasia quando presencio a violência, sinto vontade de desaparecer quando ouço gritos.

Muitas vezes desejo virar vapor e dissipar-me tornando parte do universo, distanciando-me cada vez mais dos seres ditos humanos. Queria juntar-me às estrelas, viajar entre os planetas percorrendo o caminho no compasso da luz, sentir-me parte da imensidão e nunca mais voltar a ser matéria. Sinto-me como se estivesse aprisionada em um corpo que impede minha locomoção. Tento voar mas parece que minhas asas estão pequenas demais para que possa viajar pelos céus, sinto uma sede insaciável de mergulhar no profundo dos Oceanos e conseguir me encontrar, desejo voar o mais alto para ver se consigo me enxergar.

Pode até parecer tolice, mas me falta algo que não consigo definir. Quando minha amada estava em espírito e matéria ao meu lado eu conseguia relegar a um outro plano a sensação do vazio e da incompletude que me povoa, porém com sua viajem para um outro plano, outra dimensão deixando-me com as mais doces lembranças me fazendo chorar dia após dia, trazendo à tona o amargo sabor da solidão, o áspero som do vazio, o grito do silencio das noites frias e vazias, o tenebroso grunhido do medo do não reencontro; volto a ser eu e meus vazios, eu e minha solidão, eu e meus pensamentos, eu e os meus medos, eu sem meu próprio EU.

A alma vai aos poucos se distanciando da razão tal qual pintura em que as tintas se quebram e se distanciam formando entre seu colorido um imenso rasgo como fossos impedindo que se transite, mantendo-me imóvel. Essa sensação de incompletude abarca todo o meu ser e sinto-me como um pássaro ferido impedido de alçar voo.

Esse corpo que me aprisiona, judia da minha alma e do meu espírito! O princípio da inteligência que comanda a razão se desespera ao passar dos dias, buscando veementemente encontrar a fórmula perfeita de desligar-se da matéria sem causar danos ao espírito. Desejo desvencilhar-me dessa prisão, espíritos jamais deveriam prender-se a um corpo, sinto-me cada vez mais presa em um mundo que não é meu.

Sinto que pertenço a uma outra época e não consigo ajustar-me aonde estou, aonde vivo e aonde constitui família, cada dia que passa, cada mês e cada ano, esquartejam meu coração que pulsa sedento de um mundo registrado e impresso em meu código genético e que definitivamente não se parece em nada com o mundo em que vim parar.

Esse mundo me enche de agonia, sinto medo das pessoas, elas sempre parecem estar maquinando algo que fatalmente irá ao meu encontro provocando uma colisão frontal, contrariando tudo o que tenho como ético, tudo que tenho como crença evolutiva.

Tenho medo dos olhares que lançam, são olhares diferentes, são frios, sem emoção, pálidos e gélidos como se estivessem congelando tudo à sua volta, tenho medo dos olhares sem brilho e sem luz, tenho medo dos olhares desprovidos da película de aço. Eles simplesmente escondem seus verdadeiros intentos que camuflados ficam no fosco olhar.

Os gritos e vozes descompassados e em alto tom me assombram, não gosto disso! Tento fugir e não consigo, estou presa a uma matéria que me atormenta... Quero livrar-me dela e não consigo. Sou uma e ao mesmo tempo sou dez, entretanto estou reduzida a um pedaço de corpo, pedaço de matéria, partes de carnes, músculos, veias e ossos, sistemas inteligentes porém dependentes um do outro que formam um todo emaranhado que me mantém presa nesse universo. Com tantos eus aprisionados, acabo me tornando um simples “nada”

Tenho medo que o tempo passe e eu não consiga encontrar o caminho de volta ao lar, que sinto existir e do qual de fato faço parte, tenho medo de não conseguir me recordar ou de não aprender como fazer para poder voltar. Tenho medos e medos. Busco freneticamente descobrir a fórmula da física quântica que me fará voltar para casa! Descobrir o método de desligar-me da matéria e finalmente libertar-me dessa prisão e assim deixar meu espírito inconformado livre de vez!

Passo meus dias tentando me ajustar às pessoas, ao comportamento estranho que elas tem, tento compreender seus pensamentos, atitudes, porém não encontro a lógica deles. Eles sempre dificultam tudo, parece que gostam de serem esdrúxulos desprovidos de compaixão, parecem espectros que simplesmente repetem ações impensadas, não refletem, não buscam o conhecimento. Parece que não sentem sede em aprender, em conhecer, em desbravar o desconhecido e apropriar-se da vontade e do desejo de preencher os espaços vazios do desconhecido universo cerebral.

Quero mais! O que me permitem conhecer e compreender é muito pouco, é pequeno demais para mim, parecem apenas falsos fragmentos de uma incomensurável verdade que parece estar acima da insignificante capacidade da compreensão humana. Quero mais, isso tudo é pouco!

 

Prosa Poética premiada com o 1º Lugar no XXIV Concurso de Poesia e Prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista em 2016.

 

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Vana Miletto
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Poeta e escritora. Membro da academia Internacional de Literatura Brasileira, cadeira 36; Membro da Academia Itapetiningana de Letras, Academia Luminescência Brasileira e Academia Literária do Clube da Poesia Nordestina. Autora de diversas obras.

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