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Tempestades de areia: a outra face da agricultura predatória

Tempestades de areia: a outra face da agricultura predatória

Introdução

Em trinta de março de 2021 moradores das cidades de Petrolina e Juazeiro, ambas localizadas às margens do Rio São Francisco, sendo a primeira no estado de Pernambuco e a segunda, na Bahia; relataram um fenômeno climático que durante séculos foi registrado somente em áreas desérticas e que vem se tornando cada vez mais comum no Semiárido Brasileiro: as tempestades de areia. As imagens registradas circulam em redes sociais e portais de notícias e mostram a cidade de Petrolina envolta em uma nuvem de poeira vermelha e castigada por uma forte ventania. Especialistas e gestores públicos ouvidos, falaram que o evento foi devido à falta de chuva na região e que o solo está muito seco, o que ocasiona o levantamento das partículas de areia pela ação do vento. O que não fica muito claro é por que existe tanta areia solta e por quê, somente agora invadiu ruas e casas? Sendo que os períodos de estiagem ocorrem desde o começo da ocupação humana do Semiárido Brasileiro(1). Mas por que estamos registrando cada vez mais tempestades de areia? O fenômeno em si é muito mais complexo e as verdadeiras explicações estão relacionadas com temas que ainda são tabus em cidades como Petrolina e Juazeiro que tem a sua economia baseada na agricultura de irrigação e na comercialização desses produtos com outras regiões do país e com o exterior. Essa agricultura, muitas vezes realizada de forma predatória leva os ecossistemas a exaustão o que por sua vez colapsa o Meio Ambiente. Uma abordagem imparcial sobre o assunto pode revelar o que a Natureza vem demonstrando ano após ano e que nós fingimos não perceber: toda prática antrópica de caráter predatório sempre terá uma resposta a altura do Meio Ambiente, o que nesse caso são as tempestades de areia.

A Desertificação

A Desertificação, ao contrário do fenômeno natural que levou milhares de anos para formar as grandes regiões desérticas do planeta como as do Saara, Gobi e Kalahari, é um processo que tem as ações antrópicas como principais responsáveis. As regiões da Terra mais susceptíveis a desertificação são as áridas, semiáridas e subúmidas secas, coincidência ou não, Petrolina e Juazeiro se encontram em uma zona semiárida que é dessa forma caracterizada por ter uma precipitação média anual inferior a 800 milímetros, a pluviosidade é concentrada em três meses do ano e com a ocorrência de longos períodos de seca (2). Outra característica importante são as taxas de evaporação nos espelhos de água e no solo que podem variar de 1000mm a 2000mm podendo chegar a 3000 mm por ano. Quanto ao solo, a Caatinga tem como característica principal aqueles de origem cristalina o que dificulta a infiltração da água, sendo que grande parte das chuvas escoam por riachos e rios sem que penetrem nas camadas inferiores. Não podemos esquecer que de todos os Biomas brasileiros, aquele que ocupa a maior  área do Seminário, a Caatinga é o menos protegido do país (3). Atualmente só 1%, do universo de um milhão de quilômetros quadrados da área original do Bioma Caatinga, está protegido.

Os impactos da Agricultura Predatória

Todos os ingredientes necessários para um desastre ambiental como o da Desertificação são encontrados na região que engloba as cidades de Petrolina e Juazeiro. Uma região semiárida com baixa precipitação e alta evaporação, solos cristalinos que impedem a infiltração da água, concentração das chuvas em determinado período do ano e longas estiagens. Junte-se a esses fatores naturais o evento dos grandes projetos de irrigação que vêm sendo implantados desde os anos 1970 na região através das águas retiradas do Rio São Francisco por meio de critérios ainda obscuros para a grande maioria da população. Vale salientar que o processo de ocupação na era moderna da região não se inicia com os projetos de irrigação e sim com a utilização das várzeas do Rio São Francisco e de seus afluentes para a criação extensiva de gado bovino, remontando ao Brasil Colônia (4). Mas devido a proximidade dessas terras com a calha do Rio São Francisco e a maior facilidade de se implantar sistemas de irrigação a baixo custo, as plantações se concentraram durante décadas em faixas de terra ao longo do rio. Ao mesmo tempo, áreas mais distantes do rio onde era praticada a agricultura de sequeiro foram sendo utilizadas para a criação de gado bovino o que levou a compactação do solo. Com o passar dos anos, as terras utilizadas para a irrigação foram precisando cada vez mais de fertilizantes para a correção artificial das deficiências do solo, como o baixo teor de  fósforo (5). Os métodos utilizados na irrigação também agravaram esse desequilíbrio ambiental. No método tradicional de aspersão, em um dia quente e com vento, pode levar a uma perda de até 30% do líquido aspergido (6). O desperdício de um recurso tão escasso no Semiárido já deveria ser um impedimento para a irrigação pelo método de aspersão, mas ele ainda ocasiona outros problemas como os processos de compactação, erosão e a salinização dos solos. Dados coletados em pesquisas sobre o tema, evidenciaram que 50% das áreas irrigadas do Nordeste já estão afetadas por sais. Essa forma predatória de se utilizar os recursos naturais exaure os solos e não sendo realizado um manejo adequado do mesmo, com o decorrer do tempo essas áreas vão se tornando improdutivas ao ponto que se torna necessário buscar outros lotes para o cultivo. Estes solos desprotegidos são levados pelas chuvas e depositados em rios e lagos aumentando a turbidez da água, impossibilitando a passagem dos raios solares, dificultando a vida aquática nesses ecossistemas. A retirada de árvores, impede que o vento tenha uma barreira natural e encontre o solo desprotegido, ocasionando a erosão eólica. Sem a cobertura vegetal que atenue a sua atividade erosiva, o vento ergue as partículas de areia e dependendo de sua intensidade, pode formar as tempestades que se movimentam por dezenas e até centenas de quilômetros. Por mais impactante que a agricultura predatória seja para o processo de desertificação do Semiárido Brasileiro, outras atividades também contribuem para o aumento de áreas degradadas. Atualmente, algo em torno de 13% do Semiárido Brasileiro já foi atingido pela Desertificação (7). A retirada de madeira para a queima em fogões e a produção de carvão vegetal, o super pastoreio de gado bovino e caprino são outros agravantes para a Desertificação do Semiárido Brasileiro (8). Algo que podia ser evitado caso fossem colocadas em prática técnicas de manejo sustentável já existentes que permitem um melhor aproveitamento dos recursos naturais do Semiárido Brasileiro(9).

Conclusão 

As tempestades de poeira e de areia, apesar de chamarem a atenção dos meios de comunicação e da sociedade por seu aspecto assustador e apocalíptico, é somente a parte visível de uma catástrofe ambiental que vem se tornando mais aguda a cada ano. Compramos frutas, verduras e cereais para a nossa alimentação sem nunca nos perguntarmos quais os processos de produção desses produtos. Qual o manejo aplicado, qual o custo ambiental desses alimentos e os impactos diretos e indiretos de seu cultivo em nossos Biomas. Cabe a nós, consumidores, como sociedade civil fiscalizar as práticas de grandes conglomerados produtivos que agem de forma predatória em Biomas frágeis e que levaram décadas, ou em alguns casos, centenas de anos para se recuperarem. É necessário olhar o que está por trás de campanhas publicitárias que insistem em dizer que frutas, legumes e cereais são alimentos saudáveis e imprescindíveis a todos nós, quando o preço ambiental e humano deles é cada vez mais alto. Deve-se, cobrar dessas empresas mais clareza quanto a origem desses alimentos e quais as ações que essas corporações tomam para mitigar os impactos ambientais oriundos de suas atividades. Talvez a maioria dessas empresas não se preocupem com a desertificação e as comunidades atingidas por ele, mas, com o meu e o seu dinheiro, com certeza elas estão preocupadas. Escolhendo melhor de quem e o quê comprar, iremos forçar as empresas que não respeitam o Meio Ambiente a repensarem as suas políticas de qualidade e sustentabilidade. Por que diante daqueles que não agem com o coração e a consciência, resta-nos apelar a única coisa que lhes causa alguma comoção: seus lucros.

Aparecido Galindo, Gestor Ambiental com Especialização em Gestão de Controles Ambientais - Faculdade de Tecnologia Ambiental do SENAI - SP


Referências utilizadas neste Ensaio

1:Arqueologia da Região do Parque Nacional Serra da Capivara

Fonte-pesquisada em 09/04/2021 as 09:30hs 

2: Precipitação e Evaporação no Semiárido Brasileiro

Pesquisado em: 09/04/2021 às 10:00hs

3: Asa Brasil - Dados do Semiárido

Pesquisado em 09/04/2021 as 10:20hs

4: Em 1674, o Cacique Francisco Rodela da Tribo Tuxá recebeu a patente de Capitão de Aldeia. Através das missões franciscanas e seus aldeamentos, os portugueses introduziram a criação de gado bovino na região colocando em prática o sistema de pastoreio conhecido como os Currais do São Francisco. 

5: Impactos ambientais da agricultura no processo de desertificação no Nordeste do Brasil, pág. 99.

Autores: Everardo V.S.B. Sampaio;  Maria do Socorro B. Araújo e Yony S. B. Sampaio 

6: Métodos de irrigação - Semagro

Pesquisado em 09/04/2021 às 11:00hs

7: Desertificação ameaça conservação da Caatinga.

Pesquisado em 10/04/2021 às 09:00hs

8: Atividades Predatórias: a máquina mortífera da Caatinga

Pesquisado em 10/04/2021 às 10:00hs

9: Semiárido: Uma visão Holística - Roberto Malvezzi - Confea - Brasília - 2007

Narrativas

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Aparecido José Galindo
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Escritor, Músico e Pesquisador. Nascido em Alagoinha - Pernambuco e radicado em São Paulo desde 2005.

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