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QUEM AINDA FAZ XIXI NA CAMA?

QUEM AINDA FAZ XIXI NA CAMA?

Quem nunca fez xixi na cama quando brincou com fogo? E aquele sonho de que você está no banheiro, levanta a tampa do vaso e, de repente, você sente uma sensação de alívio, mas acorda com uma água quente que vai subindo pelas costas?

Coisas de crianças do meu tempo. Não escuto mais falar sobre criança que faz xixi na cama, mas eu fui uma dessas. Todos sábados, meus tios e pais saíam à noite para se divertirem. Meus primos e eu, cinco crianças entre sete e dez anos, íamos dormir na casa da nossa avó, ou melhor, da vó. Numa dessas noites, pedimos para dormirmos juntos na sala. A vó fez uma dessas camas gigantescas no chão, usando muitos cobertores. Dormir no chão gelado dava “friagem”, segundo ela. No dicionário da minha avó, “friagem” era ficar com os pés e nariz gelados durante o sono. Isso bastava para acordar com dor de garganta.

Só situando: não havia smartphone; nossas redes sociais eram brincadeiras, brigas e implicâncias, e tudo mediado pela vó.

  A vó nos deixava brincar na rua, mas sempre havia um que se machucava, ou outro que quebrava as plantas com a bola, ou o vizinho que reclamava da gritaria da brincadeira. O jeito mais fácil era liberar a televisão. Pois é, já teve tempo que acessar à televisão tinha duas condições: uma era não ter um adulto por perto, porque senão era ele quem escolhia o canal; a outra era aceitar que não existia controle remoto.

Nessa noite, pré-anunciado, passaria um filme proibido para crianças, pelo menos para os netos da minha vó. Determinado que na hora do filme, trocaríamos de canal, após acabar a novela, ela foi se deitar.

Plano: desobedecer. Se a vó acordasse, bastava fingir que estávamos todos dormindo; se nossos pais voltassem, com o barulho do portão, daria tempo de desligar, fingindo dormir quando eles entrassem. Empolgados por fazer algo proibido, não nos atentamos ao filme em si. O filme começou e qualquer barulho começou a assustar. Era filme de terror; havia uma árvore que se alimentava de crianças. Os clichês permitiam cobrir a cabeça ou fechar os olhos. Os mais velhos assustavam os mais novos. Com o medo instalado, eu pedi para a minha prima ir comigo até o banheiro. Ela foi até o corredor e saiu correndo de volta à sala, então eu desisti e resolvi não ir mais.

Havia uma árvore em frente da janela do banheiro da casa da minha vó. Se eu já tinha medo do “homem do saco” que levava as crianças que desobedeciam aos pais, imagine uma árvore que comia qualquer criança que dela se aproximasse! Lá pelas cinco da madrugada, meu primo levantou assustado e perguntou: vocês estão sentindo isso? E todos foram percebendo o que tinha acontecido. Alguém tinha feito xixi na cama. Foi tanto xixi que tivemos que acordar a vó para resolver o problema. Não haviam mais cobertores, amanheceu, e ficamos no sofá.

Eu acabara de virar, naquela noite, a mijona da família!

Não fui mais ao banheiro sozinha à noite por um bom tempo. A vó tinha que me levar fazer xixi durante a madrugada. Meus primos não podiam me chamar de mijona, pelo menos na frente dela, mas entre nós, brincando na rua, eles gritavam “mijona” e eu saía correndo atrás deles para pegá-los. Fiquei traumatizada com o filme de terror, tinha medo de tudo, mas quando estávamos juntos, não me incomodava em ser chamada de mijona.

Eu me lembro que tinha xixi até no pescoço do meu primo. Eu fazia xixi na cama a partir dos sete anos, minha prima tinha pesadelos e dormiu na cama da mãe até os doze. Hoje, toda vez que um dos nossos filhos quer assistir a um filme de terror, esta história vem à tona. Tem funcionado, as crianças não fazem xixi na cama, não pelo trauma das cenas que esses filmes possam causar, mas porque ninguém quer ser chamado de mijão ou mijona. Nossa rede social era limitada. Aprendíamos a nos defender ao vivo e a cores. Hoje imagino que essa história renderia "memes" nos grupos da família, críticas, piadas e até tratamentos psicológicos. A gente resolvia correndo na rua.

Autora: Renata Maximiano

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Amante da poesia marginal, pintora de mulheres, formada em Literatura, professora, mãe e apaixonada pela vida. 40 anos de idade, Botucatuense.

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