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Planeta Novo

Planeta Novo

No espaço, em uma galáxia distante, uma nave pousa em sua plataforma, retornando de uma longa viagem. O piloto, jovem e arrojado, desce assobiando, feliz por mais uma de suas aventuras concluídas, aparentemente com sucesso.

─ Por onde andou, cara? Tentei monitorar sua jornada irresponsável até quando pude, mas acabei perdendo conexão.

─ Estava em férias, esqueceu? Fui dar uma voltinha por aí. Não aguentava mais ficar aqui, nessa quarentena que não termina nunca!

O grupo espacial da Ala Norte, região V do Alto Comando Militar Intergaláctico, é uma organização governamental do Universo que monitora à distância a vida em determinados planetas, considerados super-habitados, com riscos de desaparecer e provocar um desequilíbrio populacional universal.

─ Ah, férias? E acha que isso lhe dá o direito de sair por aí, sem autorização, correndo vários riscos, inclusive o de espalhar até não se sabe onde esse vírus com o qual temos batalhado por tanto tempo, sem, no entanto conseguir dizimar por completo?

─ Calma aí. Não sou nenhum irresponsável. Fiz o procedimento completo de descontaminação antes de sair. Sabemos que o vírus N5J38 é resistente, mas pode ser neutralizado. Basta que saibamos onde está alojado. Já conseguimos até reduzir a sua capacidade de multiplicação. Sua dizimação é uma questão de tempo. Essa quarentena já deveria ter sido afrouxada.

─ Isso não é decisão sua. Se a determinação é ficar em quarentena... . Além disso, a desinfecção tem uma margem de erro. Você pode ter levado o N5J38 aos lugares onde passou. Aonde foi? Ah! Nem sei por que ainda perco tempo perguntando. Estou puxando seu diário de bordo. Não acredito que você foi à Terra! Um planeta com tantas dificuldades? Crianças, povos inteiros passando fome, reservas de água potável acabando, poluição, guerras, disputas de poder com ameaça de armas atômicas, violência e você os expõe a mais isso?

─ Ah, tô cansado da viagem. Meu corpo pede algumas horas de sono. Vou pra minha cápsula. Tenho certeza que está tudo normal na Terra e caótico como sempre. Fui!

Horas depois, ao voltar, as notícias não são boas.

─ Você tá encrencado! Foi detectada uma grave infecção por N5J38 na Terra. Milhões de pessoas estão morrendo diariamente e outras sofrendo as consequências desse mal. O acumulado de mortes já passa de um bilhão.

─ Calma. Deve ter um jeito. Não conseguimos eliminá-lo quase que por completo por aqui? Faremos o mesmo por lá.

─ Você fala como se fosse fácil. Sabe quão drástica foi a solução encontrada, não? Tivemos de isolar para sempre todos os contaminados.

─ Sei. Participei do projeto DESCONTAMINA. Por isso digo que consigo. Nosso planeta tinha um número bem menor de infectados, mas eu já tô tendo uma ideia genial! Talvez ganhe o Nobel Intergaláctico.

─ Que ideia maravilhosa é essa que vai confinar para sempre um bilhão de pessoas? Onde vai encontrar um asteroide pra todo esse povo?

─ Já pensei em tudo. Tá lembrado daquele meu projeto em que criei um asteroide com o mesmo formato da terra, em escala 1:12.000.000 ?

O amigo ri como quem tivesse ouvido uma grande piada. Logo depois parece adivinhar os pensamentos do colega e fica apavorado.

─ Não, cara, você não tá pensando em...isso é loucura! Não vai dar certo! Você não pode usar o laser COMPACTJET em humanos! Isso não foi testado.

─ Claro que funciona. Se funcionou com animais, reduzindo-os de tamanho na proporção desejada, conservando suas principais funções vitais, por que não funcionaria com pessoas? Eu conheço uma gata que trabalha lá na sala de controle do laser. Ela tá doida pra sair comigo. Só preciso convencê-la a me deixar lá por uma noite. É só apontar o laser para a direção da terra, programar a captação de humanos infectados pelo vírus N5J38, compactá-los e fazer a teletransferência para o meu asteroide, que já estará em órbita no Sistema Solar. A operação vai ser tão rápida que será imperceptível aos olhos dos terráqueos. Vão sentir falta de alguns, mas jamais descobrirão o que lhes aconteceu.

─ Cara, você é mais doido que eu pensava. Como sei que não vou conseguir tirar essa ideia maluca da sua cabeça, vá em frente. Só me deixa fora dessa.

─ Ok. Só preciso que retarde a divulgação desses relatórios até que tudo esteja resolvido. Depois que o novo “planeta” estiver em órbita, você poderá contar pra eles.

Apesar de inusitado e um tanto inconsequente, o plano do jovem cientista dá certo e ele consegue diminuir o tamanho das pessoas infectadas na Terra e transportá-las para um miniplaneta idêntico.

Na Terra, de um dia para outro, a vida das pessoas se transforma de maneira substancial, mas a luta pela preservação da vida, da saúde física e mental das pessoas e do planeta em sua totalidade continua.

No comando espacial, os dois jovens estão aliviados como sucesso da operação.

─ Não é que você conseguiu? Vou cadastrar seu novo planeta para ser observado pelo comando. Estou curioso para ver como as pessoas estão se saindo por lá. Como devem estar se sentindo habitando um planeta como o antigo, mas com uma população 70% menor? Aliás, como vai se chamar esse novo planeta?

─ Bom, depois de estudar com cuidado o comportamento dos infectados em toda a Terra, vi que a maior característica deles é uma tendência ao extremismo de direita que vinha provocando conflitos entre toda a população mundial. Um clima perigoso de ódio e intolerância havia se espalhado. Eles faziam uso de armamento pesado e de outros tipos de armas menos convencionais, chamadas FakeNews. Devastavam florestas, poluíam o ar, rios, mares e promoviam uma verdadeira caça às minorias, de pobres, negros e LGBTQI+. Desprezavam a Educação, a Saúde, a Tecnologia e a Cultura, tentando a todo custo retroceder em leis e avanços dessas áreas, obtidos ao longo da história. História que negavam e substituíam por versões imaginárias, fruto do delírio que a enfermidade produzia. Inspirado por personagens com maior relevância nesse cenário, se chamará Planeta Bolsotrump.

Narrativas

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FATIMA REGINA GILIOLI
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Escritora e jornalista, autora do livro “Código 303 Uma reportagem sobre o alcoolismo, a doença da negação” e da distopia “#EsseFuturoNão!”. Apaixonada pela vida e pela escrita, aventuro-me na ficção e na poesia, usando as palavras como ferramenta.

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