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Piratinhas

Piratinhas

Floresta Amazônica: É um dos lugares mais ricos do mundo, mas é onde sobrevive uma população muito pobre, economicamente dizendo. No entanto neste lugar vive também a dignidade em forma de gente. Talvez por isso, nesta região as pessoas sejam tão desprovidas de finanças e tão grandiosas como Seres.

               Nos meandros do Rio Amazonas, tudo fica distante e pequeno, os olhos não identificam e não alcançam a verdadeira imponência da mata.

 Vista ao longe, nas margens do rio a majestosa floresta mais parece pequenos arbustos. Do alto do navio, tudo fica muito pequeno e as cores da mata se misturam ao colorido das casas, barcos e canoas.

Um navio com capacidade para oitocentos passageiros e oitenta tripulantes, o Rondônia, é considerado a maior embarcação dessas águas. Faz o trajeto Belém a Manaus e Manaus Belém.

               Na maior avenida aquática do mundo, o meio de transporte são as diversas e diferentes embarcações. Desde grandes navios a pequenas canoas, cada qual com sua particularidade, cada uma revelando um pouquinho da essência de seus donos.

 Na água, algumas dessas pequenas embarcações parecem compridas lascas de árvores deitadas, que são levadas pela correnteza.

Outras se assemelham a toras com bases arredondadas parecendo deslizar com mais leveza nas águas amazônicas. É necessário que sejam leves, pois os braços mirrados que as conduzem, mais finos que as próprias madeiras remadoras, são tão frágeis que mal conseguem empunhar o remo.

A habilidade demonstrada por crianças que manejam aquelas canoas é tamanha, que bracinhos infantis e remos se fundem em um só, quando estão em ação nas agitadas águas do rio.

               Nestas madeiras movidas a crianças, navegam esperanças e necessidades, fome e coragem. Corpinhos desnudos e olhinhos que não entendem bem o que de fato acontece nessas veias líquidas do universo verde.

São meninos e meninas com idade entre dois e doze anos aproximadamente. É o que aparenta aqueles rostinhos de gente brasileira que vive e sobrevive nas margens da vida nortista. Os menores acompanham a mãe que carrega em seu colo um bebê.

               Foi nesse impressionante cenário aquático que presenciei um acontecimento inimaginável, fruto das poucas formas de subsistência dos viventes daquele lugar.

De longe, o que eu avistava era uma cena que lembrava um ataque indígena. Na frente, há alguns metros da gigante embarcação, várias canoinhas se preparavam para “invadir” o imenso navegante.

Elas se posicionavam lado a lado nas margens direita e esquerda do rio formando uma espécie de seta em direção ao navio. E como um pelotão de soldados em estado de alerta, aguardavam o exato momento de atacar.

 O navio se aproxima e os Piratinhas, simetricamente, iniciam sua movimentação rumo ao seu objetivo. Organizados e disciplinados erguem os magérrimos braços e colocam-se a remar, alcançando uma incrível velocidade em direção ao grande barco.

Os Piratinhas batem na água com tanta intensidade que aquela aparente fragilidade desaparece, dando lugar a experientes timoneiros.

A frente de umas das canoinhas um menininho, usando apenas um shortinho, esboça um gesto que parece um comando para todos os outros, que saem ao mesmo tempo para atracar nas bordas do grandão de metal, atrás o motorzinho humano acelera a pequenina embarcação.

A criança a frente da canoa eleva os bracinhos e abana-os continuamente como se quisesse voar. Parecia que ela queria subir a bordo com o ventilar das mãozinhas.

O que estava atrás, veloz motorzinho humano, continuava a remar habilidosamente, pois já estavam lado a lado do enorme navegador.

               Do convés as pessoas jogavam ao mar sacolas plásticas bem fechadas com todo tipo de conteúdo: roupas, salgadinhos, biscoitos e muitos outros objetos.

Em uma das sacolas foi colocado caixas de lápis de cor. Em outra havia livros usados e até cadernos semi usados. Os passageiros colocavam de tudo nestes pacotes. Quem sabe que ia a mais naqueles saquinhos de esperanças?

Ao cair no rio as crianças que conduziam as lascas de madeiras navegantes, apanhavam cada marca branca de plástico que boiava na seiva sagrada do Rio Amazonas.

Embalagens plásticas que naquele cenário adquiriam significados diversos. Para os passageiros turistas, uma curiosidade fotografada a cada segundo. Para outros, uma chance de ajudar os desprovidos.

Para meninos, meninas e famílias daquelas margens, as sacolas provocavam um furor. Era um tipo de riqueza que eles tinham acesso.

Ali a infância dessas crianças tinha um sabor diferente. A responsabilidade lhes era atribuída como continuidade de vida e nessas circunstâncias, viver não é um direito é um dever que eles têm que aprender muito cedo.

Em um primeiro momento, os pequenos pescadores de sacolas nem abriam os pacotes, apenas atiravam os olhos em direção ao próximo presente que flutuava na superfície.

Nessa olímpiada aquática, os treinadores são as caudalosas águas do maior Rio do mundo, e a medalha é de quem conseguir apanhar o maior número de sacolas.

Em uma das canoinhas, estava uma mulher e, só Deus sabe como, mais seis crianças. Todas muito pequenas. Uma prole que enchia o coxo navegante. A água entrava rapidamente na canoa enquanto uma das crianças, segurando um recipiente que parecia com um daqueles copos de sopa instantânea, devolvia as gotas ao rio o mais veloz que podia.

Teria sido aquele copo um dos muitos objetos doados por meio das sacolas aquáticas ou restos de lixo deixados displicentemente como tantos outros nestas águas? Seja qual for a origem, o importante é que aquele copo se transformara em uma excelente e útil ferramenta para equilibrar o peso da canoa.

A expressão daqueles olhos molhados pelas ondas que os encharcavam eram tão fortes que cada cena que acontecia em frames de segundo, parecia estar em câmera lenta de tão marcante que era.

               A luta para pegar os presentes e manter o barquinho intacto era impressionante. A marola que a grande embarcação produzia chegava a virar algumas das lascas de madeiras navegantes, porém a habilidade na guerra pela vida era tanta que aquele bando de crianças parecia boiar tanto quanto os pacotes de novidades que era atirado das mãos daquele monstro navegador. Naquele ponto do rio a profundidade chegava a quarenta metros.

               Muitos deles conseguiam atracar de forma tão habilidosa que por muitos momentos pareceu sonho ou um filme de ficção. Poucos tinham essa prática, mas os que isso faziam, mostravam uma cena inacreditável.

Utilizando ganchos na extensão das cordas que seguravam, eles se incorporavam ao casco gélido do navio. Com a corda já enganchada erguiam a proa de seu barquinho e mantinham apenas a popa na água. É difícil compreender como não eram tragados para baixo do enorme navegador.

Os barquinhos ficavam ali ancorados, enquanto as crianças adentravam no convés. Ao subir a bordo, levavam consigo imensos pacotes transparentes recheados com polpa de açaí, uma fruta muito importante para a região. Esses pacotes eram vendidos aos turistas pela bagatela de um real o quilo. Esse açaí era massa pura.

Acompanhei de longe a saga dessas crianças e percebi que, os que conseguiam entrar primeiro garantiam os clientes mais interessados e vendiam tudo o que traziam, os que ficavam para trás não vendiam nada ou quase nada. Os rostos dos menos sortudos ficavam pesados, duros, tristes e implacáveis. Alguns se comoviam com a situação e pagavam um ou dois reais a mais.

               O desatracar dos Piratinhas não era menos impressivo. Com a mesma habilidade do ataque, eles se desvencilhavam do gigante de ferro. Desenganchavam e simplesmente ficavam para traz como um objeto que cai na estrada.

               Num dos lugares mais ricos do mundo, há também um mundo pobre e injusto. Um mundo deixado e esquecido pelos governantes que nem mesmo em época de eleição são lembrados.

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