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O VENDEDOR DE LENÇOS

O VENDEDOR DE LENÇOS

Você leria esse Artigo de muito bom grado desde que conhecesse o seu autor. Mas como se trata de um desconhecido, você simplesmente muda de tela, de site, de ideia e continua a sua busca pela internet. Mas o que você busca? Acaso seria um espelho que refletisse exatamente a sua imagem projetada no mundo? Não se esqueça que reflexos são apenas isso: reflexos. Mas você não quer falar disso, ao menos que o autor da mensagem seja alguém com Autoridade sobre o assunto. Essa Autoridade é bastante variada e você aceitaria até mesmo um coach com milhões de seguidores em mídias sociais e alguns best sellers. Mas nunca um desconhecido, o que vem a ser o meu caso.

Eis que chegamos ao âmago de nossa questão e você já abandonou o Artigo e foi dar uma olhada se alguém curtiu a foto da sua lasanha no Instagram. Você sabe que dependendo de quantas visualizações e interações que a sua foto obtiver, pode-se abrir uma oportunidade de você se tornar um influencer. Sendo um influencer você se transformará em uma Autoridade, mesmo que seja em hábitos alimentares nada saudáveis. Mesmo assim, sendo uma Autoridade, você não irá correr o risco de escrever um Artigo em que as pessoas não o leem por se tratar de um autor desconhecido.

Como Autoridade em massas e afins, você irá lançar mão de um discurso apoiado em seu público conquistado a duras penas com massa a base de trigo, molho e queijo. Afinal, existe algum mérito em alguém que torna ainda mais popular aquilo que já é conhecido de todos. E esse mérito é todo seu, ninguém pode roubar isso de você. Mérito! Essa é a palavra mágica que você irá usar para separar indivíduos de qualidades excepcionais da grande massa de ineptos que infesta a terra. Foi ou não foi você quem teve a ideia de tirar a foto da lasanha da sua mãe, avó ou tia e postar nas mídias sociais? Sim, você usou da esperteza e disse que o prato era seu. Mas essa é a face obscura do Mérito: a esperteza. 

Sei que você não é daquelas pessoas que se importam com os detalhes e acredita que os fins justificam os meios. Talvez por causa disso o seu mundo seja dividido entre espertos e não espertos. Ainda prega que isso pode ser ensinado e logo, aprendido por qualquer pessoa que seja, lógico, esperta. Então o que você chama de Mérito na verdade é a Arte de enganar os outros, desde que eles não dominem as ferramentas que você está disposto a ensinar. 

Ainda bem que você deixou esse texto logo no primeiro parágrafo, esperto como você é, procurando uma forma eficaz de enganar os outros e se revestir de uma Autoridade, baseada no Mérito, sabia que um desconhecido seria incapaz de lhe ensinar algo que o deixa-se mais esperto do que os outros ao ponto de explorá-los. Eu sei que você é adepto da máxima de que “Enquanto eles choram, eu vendo lenços.” sem nunca ter percebido o quanto essa frase é desumana e cruel. Fazendo um exercício de lógica é fácil chegar a conclusão de que, em uma situação em que todos choram, o que mais se precisa é de alguém que ajude as pessoas. Quem você desejaria ter próximo aos seus em meio a um desastre natural ou uma epidemia: médicos, bombeiros, ou um vendedor de lenços?

Alguém pode argumentar que o “vendedor de lenços” é importante e que sem ele, a sociedade como a conhecemos não existiria. Devo concordar em um ponto com essa afirmação: sem o vendedor de lenços, nossa sociedade seria muito diferente. E a importância “do vendedor” de lenços reside exatamente nisso. Sendo lenços objetos de uso supérfluo “não conheço registro de vidas perdidas por seu não uso” para quê então precisaríamos de tais vendedores? Na figura do “vendedor de lenços” se encontra as mais diversas formas de se explorar os medos, angústias, incertezas e fraquezas humanas em favor do interesse de terceiros.

Eles podem ser vistos sob a pele de religiosos, políticos, empresários e até mesmo de pseudo artistas. Onde houver soluções simplistas para problemas complexos, aspirações ditatoriais e preconceitos de todas as formas, ali estão os "vendedores de lenços” ávidos por tirarem proveito financeiro e pessoal de toda e qualquer situação. Afinal eles não pensaram duas vezes ao venderem bombas nucleares e holocaustos, gases venenosos e o Agente Laranja, porque, segundo a máxima, enquanto alguns choram, deve-se vender lenços.

É provável que não te convenci de que não há mérito nenhum quando tratamos os outros com demérito. São os “vendedores de lenços” que colocam o nome na história. Não importando que ele seja escrito com sangue e lágrimas de civilizações inteiras. Tudo bem, no final da vida os "vendedores de lenço” criam organizações filantrópicas com recursos públicos para caçar as minas terrestres que eles mesmo enterraram. Mas isso nem vem ao caso, você abandonou esse Artigo parágrafos atrás por não acreditar em pessoas desconhecidas, sem Autoridade, sem Méritos...

Narrativas

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Aparecido José Galindo
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Escritor, Músico e Pesquisador. Nascido em Alagoinha - Pernambuco e radicado em São Paulo desde 2005.

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