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O rio Ganges e a filha do Vento

O rio Ganges e a filha do Vento

Por saber-se que era fruto dele, assim a chamavam: a Filha do Vento. Tinha nome, mas até hoje não se descobriu como pronunciá-lo.

Diziam que tinha sido batizada por algum índio, por isso o nome difícil. Estranho batismo cristão, como nome índio em terra de ninguém.

Banalizavam.

Por ser filha dele, não tinha parada. Um nome impronunciável, ao cair em ouvidos errados, só poderia ser ridicularizado. Como tudo que não é compreensível, que não é comum, que não é...

Nem audível.

Outros diziam, que era possível ouvir seu nome. Sim, claro que se ouvia! Só não era possível decifrar.

Era um sussurro.

Um susto.

Era alheia às fronteiras.

Não sabia dos nomes, de quem se dizia dono de que pedaço, dos protocolos, convenções e muito menos das línguas.

Pulava corda com as outras crianças. Mas não significava que estivesse ali com elas.

As mãozinhas movimentavam a corda que despertavam o Vento para brincar com a menina do ar. Dele vinha o afago que fazia o mundo dançar e com o carinho que só ela conhecia.

Ia de um extremo ao outro.

Os cachos não eram de menina índia.

Alguns diziam que nada sabia.

O que ela sabia, dizem que era coisa "deles", por isso suponho que sabia um pouco mais.

Quando fez dezessete anos, passou a andar pelos telhados. O lugar em que morava, já não era de terra batida, não tinha nenhum chão vermelho para correr com seu pai aos seus pés.

O chão era cinza e mal acabado e a única forma de estar perto dele era sentindo o calor que protegia os que tinham medo.

De cima.

E assim como fizeram com seu nome, seu ato também foi vulgarizado. Não era mais nenhuma menina, o balançar de seus cachos já não era visto com inocência e não havia quem tivesse teto seguro para suportar o caminhar da Filha do Vento.

A leveza da vida que queria levar era um fardo pesado demais.

Um dia amanheceu como qualquer outro e ela amanheceu caída no chão. O sangue explodia do peito e se consumiu com a mesma intensidade com que pulsava lá dentro. Não queria e nem podia circular por outro caminho.

O Vento parou de soprar por um minuto.

A TV, driblou da velocidade do Vento, quis chegar lá antes dele. Mas ao contrário do canal mais importante do pais, ele não precisava saber nem esmiuçar os detalhes da vida de quem a matou.

O Vento, assim como o Tempo, que antes parecia ter parado, desistiu da trégua que era como um luto temporário e passou a soprar a favor do furor que é estar diante da juventude interrompida. Não havia quem se atrevesse a tocar na Filha. Lhe deram essa última permissão de liberdade. E o desejo secreto da menina, que sonhava com um rio largo e sagrado enquanto saltava entre as casas, ganhou força.

Depois da ventarola, desabou um céu de chuva de muitos dias. Seu corpo chegou com o mesmo ímpeto com que corria, agora impulsionada pela força das águas, até um rio, sagrado para uns, sujo para outros. O mesmo tipo de dualidade entre os que se ocupavam de julgar das origens da menina. Assim que seu corpo ganhou enfim a tranquilidade do leito do rio, o Vento ofereceu sua filha às águas do Rio Ganges, em favor do ciclo que não pode ajudar a cumprir.

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