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O minuto de não se ter mais nada

O minuto de não se ter mais nada

In Illo tempore.

 

Um lenço branco esvoaça pela janela veneziana, aberta de par em par.

O silêncio do quarto é quebrado por murros na porta, que apesar da bruta força mantém-se fechada.  Sons de uma guitarra florentina podem ser ouvidos ao longe. A luz do fim da tarde ilumina fracamente a quietude do aposento. No interior do cômodo podemos entrever a cama de lençóis núbios que geme e sufoca o soluço da enamorada que antevê as horas mais difíceis, as horas mais cruéis, àquelas antes do minuto exato de não se ter mais nada.

Senhoras e Senhores quero vos dizer que andamos por aí sem saber se vamos matar ou  morrer primeiro de amor. Acreditem ou não, já teve a sua beleza morrer-se de amor.  Porém, na rota das barcas da civilização buscamos o avesso dos cadafalsos e todos os santos dias queremos banir as incertezas e apaziguar as fogueiras. (Pausa)  

A jovem  levanta-se trêmula e vai até a janela. Ela olha a cidade que tanto ama molhada pela maré alta e diz algo que não compreendo bem. Seguro mais forte a sua mão e sem poder fazer quase nada começo a orar por ela. (Pausa)

- Olha lá! Tem um novo navio mercante atracado ao pier- Diz a jovem Senhora apontando para o cais das gôndolas. - Não, vês!?  Eu vejo e dá-me uma vontade de fazer-me marinheiro só e sair por aí com os homens livres. Mas, também,  posso fingir-me daquelas mulheres libertárias que fumam piteiras, falam de política e fazem festas e mascaradas sem fim.  Ou então, posso ser um poeta bardo a cantar sob a varanda indigesta dos amantes ocultos. Não me olhe assim- sorri fraco e diz. - Veja bem, agora ainda consigo imaginar e posso sorrir e chorar e fingir que não temo o cruel momento que se aproxima de mim. Na verdade, eu já senti  temor várias vezes, mas o pior mesmo é o tempo estendido da dor, dos ciúmes sem sentido, das brigas e os olhares de desconfiança. Isso machuca. Confesso a vós que sinto horror a peçonha do falso amigo, o verdadeiro fornecedor de dúvidas e traições. o carrasco que hoje me sentencia ao cadafalso. - Respira minha fiel protetora. - Agora só tenho a ti e minha Alma que ora por mim enquanto o caminho se estreita e tinge-se de carmim. Nada poderás fazer para defender-me dessa sina.  Ele nunca me amou acima de qualquer coisa e de minha parte, fui marcada pelo nascimento. (Pausa) - Ela fica de costas para a janela e com passos tortos retorna ao leito.

Olho todo aquele cenário e só vejo a ironia maltrapilha que nos escarnece a face de suores mendicantes.Vou até a janela. Nada posso fazer senão gritar por ela. Atrás da porta ruge um peito que vibra doente, um tambor vociferante, erótico, inimigo íntimo do fim.  Nenhuma súplica  o demove. Os seus ouvidos estão  cheios de fogo e razão.

- Nobre Senhora, se eu sair com vida daqui, contarei a todos que és inocente e que ele é um monstro transfigurado em gente!. - Diz a Ama, muito nervosa. 

- Tenha calma, a ti ele não fará nada. É a mim que ele quer ferir. - Diz com voz terna e consoladora.

- Eu vos juro, minha senhora. Eu apontarei para sempre o miserável, que açoitado por suas descrenças chuta fácil a careca da sorte que lhe trouxe o amor verdadeiro. Ajudem! - Grita a Ama pela janela.

- Penso que já acreditei nesse amor, mas hoje vejo que tudo não passa de uma mentira inventada com letras bonitas, enfeitadas de ontem, repletas de nada. 

O homem esbraveja do outro lado da porta, não teme ninguém, não esconde sua má índole, porque segundo ele está no seu direito. Perde-se cada vez mais no labirinto que criou para si mesmo. (Pausa) Como se pode acreditar nas conversas de amigos alcoviteiros, nas mentiras dos jornais de poucos níqueis, nas injúrias desse reino de mercadores? Fácil é lançar âncora nos escombros dos naufrágios e ouvir a cantilena repetitiva dos invejosos. Mais fácil ainda é  amarrar-se aqueles que fingem poder criar felicidade, que vendem descaradamente lotes no Paraíso.

Pronto. Meu deus do céu mais um estrondo faz-nos estremecer.  A Ama coloca metade do corpo para fora da janela e grita por socorro. Ela grita bem alto, grita pelo pai, pelo filho, pelo irmão, pelos vizinhos. Ninguém responde. Será que ninguém quer saber de seus gritos?  Ninguém escuta?!

 - Por favor, qualquer um! Pelo amor da Virgem Mãe, ajudem-nos! - Implora a mulher pendurada no parapeito da janela, que de tão alta parece mais próxima do céu que da terra.

Um novo estrodo. A madeira lasca, as dobradiças entortam e aos poucos cedem ao peso da fúria. A porta abre violentamente. O grito emudece. O corpo fera lança-se sobre a cama, corre os dedos, mão e punhal pelo corpo frágil da jovem mulher. A lâmina sem aviso ou dúvida moral afunda no corpete de fitas douradas. Ela solta um único e breve suspiro que sela a má estrela de seu nascimento. Ele em delírio resfria a lâmina quente no ar gelado. Ele olha sem ver e grita sem ouvir, até que aproxima o rosto áspero da face macia e pálida da esposa. Chama por seu nome, sacode o corpo inerte e pede desesperado ajuda aos deuses. O louco na corda bamba acordou de seu transe fatal. Contudo, ela já não pode responder mais nada, nem mesmo dizer uma única palavra em sua defesa. (Pausa)

 - Ai, meu deus, porque fizeste isso desnaturado?! Sentes dor? Já não há mais o que temer na dor, porque ela  já morreu e tu a mataste sem penas, nem gemidos ou arrependimentos. Ficaste a sós, apenas com a tua vil grandeza. Tu que és um ingrato, servo da perfídia!  - Diz a pobre Ama, que em lágrimas corre para fora do quarto que foi  invadido pelas sombras da noite. (Pausa)

No momento seguinte, à saída da Ama chegam esbaforidos junto à destroçada porta do quarto nupcial, exatamente nesta ordem:  O pai, o irmão, o primo, o amigo, o tio, o vizinho, os guardas da rua e todos os soldados da redondeza. Porém, já é tarde demais. Quem sabe na próxima vez. Quem sabe eles chegam a tempo de salvar uma mãe, filha, irmã, prima, tia, amiga ou qualquer outra desconhecida que precise ser salva Agora.  

 

Meus amigos, nesta hora fria só nos resta secar as lágrimas, engolir o soluço e levantar a cabeça. Convido-os para seguir a vida, em frente, sem desculpas, sempre em frente, de maneira ávida e urgente. 

 

Grata por sua curiosidade literária. Abraço.

 Neusa Rocha


Texto para Leitura Dramática.

*Baseado na tragédia  Otelo, de William Shakespeare escrita por volta do ano de 1603 (418 anos in illo tempore). A tragédia com nuances melodramáticas envolve quatro personagens principais. São eles: Desdêmona, Otelo, Cássio e Iago.

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Eu sou attiz, escritora, terapeuta professora de teatro e estudante de Guia de Turismo no IFRS.

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