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O FRANGO MORTO

O FRANGO MORTO

Juliana tinha hábitos comuns a todas as meninas de sua idade e outros que lhe foram incutidos por sua família, além de um senso apurado de justiça que superava e muito o que geralmente as pessoas têm com tão poucos anos de vida.  Seu pai era funcionário da Mineradora e sua mãe empregada doméstica. A Mineradora era um Deus de caráter ambíguo para os moradores da pequena vila de pouco mais de seiscentos habitantes. Ao mesmo tempo em que algumas pessoas, como o pai de Juliana, tiravam o seu sustento nas atividades como a extração de minério, de alguma forma ajudavam a alimentar um fantasma que a quatro décadas tirava o sono dos moradores da Vila: as barragens de rejeito de minério.

Quando estava com o pai, um operador de máquinas, Juliana desejava saber tudo sobre a Mineradora. Mas esses momentos eram raros por que na maior parte do tempo o pai de Juliana estava trabalhando e a sua mãe lhe pedia:

- Deixe seu pai descansar Juliana! O marido, com aquela calma de quem passa horas a fios realizando trabalhos repetitivos, intervinha:

- A curiosidade de Juliana, amor, parece a terra que a gente vai tirando das minas, não tem fim!

E Juliana perguntava: queria saber de onde se retirava o ferro, o que se fazia com o que sobrava e por que as barragens de lama da região eram tão grandes e assustadoras? O pai mastigava uma colher de comida e respondia o que sabia. E o que sabia era muito pouco. Na verdade, tirando a parte de funcionamento e manutenção de sua máquina, todo o resto do processo de mineração era por ele ignorado. Aquilo eram coisas de engenheiro. Encostava a cabeça no braço do sofá e dormia, sonhava com buracos imensos, terra vermelha, lama e a voz de Juliana ia lhe embalando naquela viagem terra adentro, escavando, escavando.

A Vila onde Juliana morava era dividida em duas partes, uma que ficava no vale e outra que avançava sobre uma pequena colina. A menina e os seus pais viviam na parte mais alta e todos os dias quando Juliana ia para a escola ela descia até o vale, porque era lá, próximo ao rio que ela estudava. Acima da escola, á uns cinco quilômetros de distância ficavam as barragens de rejeitos de minério, um lugar onde só os funcionários da Mineradora tinham autorização para entrar. Mas, uma vez por ano, a Mineradora permitia que os funcionário levassem a família para uma confraternização em seu lugar de trabalho. Foi em uma dessas visitas que Juliana conheceu as barragens de lama, das quais só conseguia ver as paredes da Vila onde morava.

Para começar as barragens eram grandes, imensas e de um aspecto assustador. Elas não tinham água, não aquela água a qual Juliana estava acostumada. Era um líquido da cor de ferrugem e tinha o cheiro de coisa apodrecida. Um estagiário levou as crianças para conhecerem a Mineradora e só falava em números, como se os pequenos conseguissem saber o que significava uma barragem com cinquenta milhões de metros cúbicos ou que essa quantidade desse para encher cinquenta mil piscinas olímpicas!

Era o mês de novembro e tinha chegado o período em que o pai de Juliana mais tinha medo de ir trabalhar da Mineradora: a época das chuvas. Dizia que as barragens estavam muito cheias e que uma chuva forte poderia elevar o risco de toda aquela lama vir morro abaixo e soterrar a Vila. Juliana se lembrava da visita à Mineradora e do estagiário que cheio de entusiasmo falava em milhões de metros cúbicos de lama como se aquilo fosse algo admirável e cheio de beleza.

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Naquele dia Juliana foi acordada mais cedo, tinha que ajudar a mãe com as tarefas da casa antes de ir para a escola. E a professora avisou com uma semana de antecedência que no dia cinco, um engenheiro da Mineradora viria dar uma palestra sobre Educação Ambiental e Sustentabilidade. Um engenheiro…. Era o que Juliana precisava para saber mais sobre as barragens de lama que tiravam o sono de seu pai e de boa parte da Vila. A mãe estranhou a rapidez com que ela saiu da cama, ajudou com o trabalho da casa e se arrumou para a escola. Ao perguntar o por que de tanta pressa, escutou da filha que, um engenheiro daria aula na sua escola, naquele dia!

Foi a primeira a chegar na escola e nenhum de seus amigos entendiam o por que de tanto interesse na palestra do homem da Mineradora. É um engenheiro! Dizia ela aos colegas de sala. Sim, a gente sabe! Respondiam, eles. Por fim, após uma hora de espera, um carro encostou na frente da escola e duas portas se abriram: por uma delas saiu um homem negro e por outra, um branco. Juliana tinha quase certeza de que o homem branco é que era o engenheiro. Porque todas as pessoas que conhecia e que tinham algum tipo de poder ou influência na Vila e na cidade eram brancas: o chefe de seu pai, o estagiário dos milhões, o prefeito, o juiz. Era os mesmos rostos brancos, barbeados, olhos claros de cabelos fracos e quebradiços..

A professora pediu que todos voltassem às suas carteiras, aquilo lhe dava vergonha, o engenheiro da Mineradora ia pensar que as crianças nunca tinham visto um carro. Como aquele, talvez não, uma SUV importada que era capaz de cruzar todas aquelas estradas de terra sem que o ocupante se desse por isso. Primeiro entrou o homem negro, conversou com a professora: seria ele o engenheiro?

- Meninas e meninos, atenção! Daqui a pouco vai entrar uma pessoa aqui muito importante! Vamos ficar de pé para receber o engenheiro da Mineradora!

O homem negro abriu a porta e o engenheiro finalmente entrou. Um sujeito branco, de cabelo grisalho e óculos. Sua pele era tão branca que a luz que entrava pelas janelas da escola deixava a vista de todos as veias de seu rosto. Era de um branco que se parecia com os frangos congelados que o pai de Juliana comprava no mercadinho da Vila.

- Bom dia crianças! Eu sou o engenheiro da Mineradora! E hoje quero falar com vocês sobre o Meio Ambiente! E sobre o belíssimo trabalho que a Mineradora vem realizando aqui na região! A Mineradora tem um robusto Sistema de Gestão Ambiental que visa minimizar os impactos de nossas operações e otimizar os processos relacionados à gestão hídrica, de resíduos, barragens, emissões e eficiência energética!

O engenheiro falava com desenvoltura e facilidade, mas nem Juliana nem os seus colegas entendiam o que ele queria dizer. A professora, também não conseguia interpretar aquelas informações e depois que o sujeito branco falou por alguns minutos coisas que para as crianças não tinham o menor sentido, abriu para que as crianças fizessem perguntas. Era o momento que Juliana tanto esperava:

- E as barragens de lama?

A menina que fez a pergunta estava a poucos metros do engenheiro. Era, na verdade, a primeira da fila de carteiras. Era negra, magrinha e tinha um olhar penetrante. O tipo de gente sobre a qual o Relações Públicas da Mineradora advertiu o engenheiro para que tivesse cuidado. Lama, que lama? Ela devia estar se referindo às barragens de rejeito.

- Bom dia, menina linda! Que bom que você perguntou sobre as Barragens de Rejeitos. O que você quer saber sobre elas?

- Elas são seguras?

- Claro que sim! Essa mesma que fica próxima da Vila, tem mais de quatro décadas de operação e nunca deu nenhum problema!

- Meu pai falou que a chuva pode encher as barragens!

- Quem é seu pai, menina?

- Ele trabalha lá.

- Não sei de onde ele tirou essa informação, mas vou lhe fazer uma pergunta: todo ano chove?

- Sim!

- Muito ou pouco?

- Muito!

- Alguma vez houve perigo de rompimento da barragem?

- Não!

- Então, a sua pergunta já está respondida!

Juliana não sabia por que, mas o engenheiro perdeu todo o seu interesse na palestra depois que ela fez essas perguntas. Não demorou para informar que deveria partir, uma vez que a Mineradora estaria precisando dos seus serviços naquele exato momento. Em nome da turma, a professora agradeceu ao engenheiro que entrou no carro e com o homem negro na direção, saiu o mais rápido que pode da Vila. A professora liberou as crianças mais cedo e cada uma foi para sua casa. Ao subir a colina, Juliana se encontrou com o pai, que naquele dia tinha trabalhado no turno da manhã e passaria a tarde com a família. Ele trazia em uma das mãos, em um saco transparente, um frango morto que seria preparado para o almoço. O animal já estava sem penas e Juliana lembrou no mesmo instante do engenheiro das palavras vazias. 

Depois do almoço, ela acabou pegando no sono enquanto assistia televisão. Foi acordada pelos gritos de sua mãe. Correu até a janela do quarto para ver o que acontecia. Uma enchente de lama com um barulho ensurdecedor arrastava tudo o que encontrava pela frente e quem vivia na parte baixa da Vila, buscava salvação nos lugares mais altos. Juliana não conseguia entender o que estava acontecendo, enquanto seus pais acolhiam os vizinhos que buscavam refúgio em sua casa. Vendo a lama invadir a Vila, ela lembrou do engenheiro que tinha pele de frango morto. Seu aspecto lhe pareceu ainda mais branco e sem vida. Igual às palavras ditas por ele há poucas horas, quando a escola da Vila ainda não tinha sido soterrada por toda aquela lama. 

Narrativas

INfluxo
Aparecido José Galindo
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Escritor, Músico e Pesquisador. Nascido em Alagoinha - Pernambuco e radicado em São Paulo desde 2005.

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