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O Filho Do Zelador Desapareceu

O Filho Do Zelador Desapareceu

O filho do zelador desapareceu. E por uma semana só se falava nisso.

Eram quatro prédios cercados por uma cerca enferrujada de arame. No mesmo bairro, os jovens do condomínio freqüentavam uma praça todas as tardes, para jogar futebol na quadra e conversar. Eu ia me dirigindo para lá e pensando sobre o desaparecimento.

Há dez anos, o filho do zelador convidou-nos, eu e meu irmão caçula, para escalarmos uma árvore. O primeiro que chegasse ao topo, venceria a brincadeira. Corremos e saltamos. Quando descemos da árvore, o garoto aproximou-se de meu irmão e cuspiu no seu rosto. Não fiz nada a respeito.

Esse acontecimento ficou comigo, porque eu fui um covarde.

Na praça, encontrei a galera de sempre. Alguns jogavam futebol e outros estavam nos bancos, assistindo e bebendo umas cervejas. Aproximei-me e perguntei se alguém teve notícias. Ninguém sabia de nada. Abri uma latinha e dei uns goles. O dia de trabalho foi cansativo. Uma gatinha do prédio 3 fez umas perguntas, não lembro sobre o quê. Alguém respondeu. Perguntei se ela tinha um troco. Ela disse que meus olhos estavam injetados e que eu tinha a expressão de um maluco. Mandei ela me chupar. A gatinha me disse algo sobre sua vida. Entornei a cerveja no estômago, sentindo o corpo relaxar. Fiz umas perguntas pra ela, sem saber muito bem o que continuar dizendo. Uma amiga dela puxou-lhe o braço para irem embora. Pedi o número do celular. Ela apenas sorriu e se foi. Abri outra latinha e continuei a beber. “Você está me devendo duas cervejas, filho-da-p***”, disse alguém que nunca teve o que eu lhe devia. Despedi-me de todos e fui para casa, pensando na gatinha, no trabalho e no desaparecido.

Na frente do prédio 1, o irmão do Chimpanzé estava jogando baralho com outros vagabundos. Chamei-o e perguntei se não queria comprar um boné. Falamos sobre uma festa do ano anterior, em que conseguimos levar duas garotas e transamos com elas no apartamento da tia dele. Nessa mesma festa, o filho do síndico arrebentou um rapaz por algum motivo. “FALANDO NISSO! Nem sabe quem o meu irmão está pegando...”. Pensei no Chimpanzé e sua cara toda amassada, feio como o diabo. “Quem?”. A rapaziada ao lado sorriu maliciosamente. “A esposa do zelador...”.

Em casa, minha avó me esperava com a janta na mesa. Meu irmão estava no quarto engraxando o coturno. Ele era soldado em um regimento da zona Leste. Jantei, tomei uma ducha e fui dormir.

 

Na manhã seguinte, tive de limpar as geladeiras da padaria. O melhor de trabalhar lá era a proximidade de casa. Era só cruzar a rua e caminhar um pouco. Estava louco para terminar o dia e dar o fora. Durante o meu turno no caixa, uma mulher apareceu.

 Era ela. A esposa do zelador. Vestida de vermelho, maquiada e sedutora. Ela tinha uns quarenta e poucos anos. Seus olhos pareciam acesos. “São esses pacotes? Algo mais?”, disse-lhe com embaraço. Ela puxou conversa. Eu não sabia como lidar com aquilo. Ela conhecia a minha avó. Fiz umas perguntas que estavam comigo há tempos. Conversamos sobre o seu filho. “Vocês eram amigos?”. O rosto dela se enrugou falando do desaparecido. Ela esperava o pior. Perguntou se eu sabia de algo por terceiros. “Ninguém soube de nada lá na praça, senhora...”. Ela falou mais um pouco, parecendo mais tímida agora, vendo-me como um amigo de seu filho. Antes seus olhos estavam acesos, como em um tipo de flerte. Sua presença mudou completamente. A angústia maternal se insinuava em todos os seus gestos. Senti-me estranho. Entreguei os pacotes com um sorriso forçado. Ela foi embora, meio cabisbaixa.

Lembrei do filho dela em outra ocasião. Ele namorava uma garota do meu prédio. Via-o seguidamente por lá. Ele a visitava quando o apartamento estava livre. Uma vez trocamos olhares na saída. “Qual vai ser?”, disse ele me encarando. Segui meu caminho, absorto nisso - louco para rachar ele na porrada uma hora, quando soubesse que não haveria perigo.Depois de uns dias eu continuei a minha vida em paz.

Depois do trabalho, encontrei o irmão do Chimpanzé jogando futebol na praça. Sentei nos bancos pra trocar umas idéias com a rapaziada. Ele saiu do jogo e me chamou:

“Vamos beber uma cachaça com o meu irmão logo mais?”

 

No apartamento da tia deles, um cheiro de maconha preenchia a sala. Encontramos o Chimpanzé deitado no sofá assistindo televisão, com os olhos frestados. Na mesa ao lado, tinha um “Bong” de vidro, cor de azaléia. Peguei uma cadeira. “E aí vagabundos! Demoraram hein! Apresento a vocês o veneninho!”. Era uma cachaça de canela.Cada um pegou uma caneca. O gosto era bom, mas cada gole descia queimando. Fui ficando sedado em segundos.

Chimpanzé era um tipo de lenda urbana. Ganhava dinheiro vendendo jogos pirateados. Passava o dia inteiro no apartamento, fumando maconha e assistindo televisão. Já estava chegando aos quarenta anos de idade, vestido como um garoto de quinze. Todos o chamavam assim porque  uma vez saltou do terceiro andar de skate. Fraturou a perna e costurou a metade do rosto. Analisando bem, ele parecia mesmo um chimpanzé. Demorava pra entender o que dizia, porque sua mandíbula era torta e tinha problemas de dicção. O mais incrível é que ele tinha outra fama. Sempre estava de rolo com alguma garota.

“Há boatos de que você tem dormido com a mãe daquele maluco desaparecido...”

“Todos os dias ela me visita”

“Falando nisso: Você tem notícias dele?”

“Parece que o esquartejaram no matagal perto do arroio. Ele vivia falando besteira, mexendo com quem estava quieto... Mataram e picaram. Acho que sei quem fez isso. Enfim, não me meto mais nesse assunto”, disse Chimpanzé

Minha avó achou estranha a minha cara enquanto jantávamos. “Está preocupado com o quê?”. Eu ainda pensava no que Chimpanzé tinha dito há umas horas atrás. Imaginei o filho do zelador sendo mutilado e espalhado no capim. Depois lembrei a impressão que a mãe dele me deixou no trabalho.

“Empresta-me a navalha pra eu me barbear?”, falou o meu irmão do nada. Chamei-o pra conversar. Contei tudo o que aconteceu. “Você lembra-se dele?”. Ficamos em silêncio pensando. Meu irmão parecia não ter guardado nenhum rancor pelo cuspe há dez anos. “Essas coisas são assim meu velho. Deixa pra lá”.

Na manhã seguinte, Sábado, a campainha tocou. Minha avó atendeu. Entrou no apartamento o zelador com uma caixa de ferramentas. Minha avó disse que o tinha chamado para consertar a torneira do banheiro. Vê-lo entrar, com um sorriso bonachão, fez- me refletir.

“Não é difícil arrumar isso. Vou mostrar pra vocês...”. Ele ficou lá falando e gesticulando. Meu irmão prestava a atenção. Eu olhava e pensava na sua desgraça. O homem não fazia idéia de como deveria ser infeliz, mas estava ali, como em qualquer dia de trabalho, explicando algo com o seu jeito meio acanhado, ignorando a verdade. O seu filho, naquele momento, estava desmembrado, putrefato ao Sol. A sua esposa, em algumas horas, iria provavelmente se deitar com um malandro desprezível, um imprestável que não se importava com nada. E eu, no fundo, ainda que tivesse pena dele, não deixava de me sentir bem pela morte do seu filho. Sabendo que isso era errado, mas não conseguindo mudar o meu sentimento. Aquela cena ficou na minha cabeça. Eu queria fazer algo por ele, mesmo que não tivesse nada a ver com sua situação. Na saída, apertei a sua mão e disse: “Vai ficar tudo bem. Meus pêsames pelo seu filho”. Ele disse para eu não me preocupar e que ainda era cedo e o seu filho poderia reaparecer um dia qualquer.

 Dois meses depois ele se enforcou. E por uns dias só se falava nisso. Até que todos mudaram de assunto. Concluí que isso acontecia toda hora e em todos os lugares. Nada havia de novo.

 

 

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Pedro Gohlke
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