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O autor e o texto

O autor e o texto

A quarentena mudou os hábitos. Difícil imaginar alguém que não tenha se “reinventado” com a pandemia. Clausura virou necessidade, questão de consciência. Em meio ao caos, fomos obrigados a prosseguir. Resiliência, sanidade, superação – palavras que se tornaram predominantes em dois mil e vinte. E que, provavelmente, serão bastante utilizadas em dois mil e vinte e um. Porque nada muda, de uma hora para outra.

Neste processo de sobrepujamento ao vírus, vivendo em nossos “retiros forçados”, muitos editais de incentivo à produção surgiram. Aos profissionais que atuam no meio artístico-cultural, têm sido um estímulo. Atento às oportunidades, participei de festivais literários, e incômoda indagação surgiu: por que escrever? Outras questões também me abalroaram: para que escrever? Para quem? Por que se dedicar tanto, a algo tão complexo, se a pessoas leem de mal a pior, e cada vez menos? Livros? Para que publicar livros? Em papel? Coisa ancestral! Hoje tudo está na internet, todas as informações e respostas estão no Google. Para que serve a literatura? Respostas? Ah, pois é, as respostas.

Outro dia mesmo – em novembro, para ser mais exato –, um amigo de infância me mandou mensagem pelo Whatsapp. Dizia: “vou ser bem sincero: nunca gostei de leitura”. Divulgava um livro que escrevi, o ofereci a ele, e recebi esta notificação. Evidentemente, apenas retruquei com um educado “beleza, tudo bem”.

Escrever está longe de ser fácil. Sobretudo porque “o tempo não para”, como cantava Cazuza. Todo autor, que não sobrevive exclusivamente da pena, precisa dividir seus afazeres laborais e familiares com a escrita. O processo, óbvio, costuma ser caótico. Mesmo que você se obrigue a escrever todos os dias, no mesmo horário, o rendimento nunca será o mesmo. Há dias em que a inspiração demora. Ou vem fragmentada. Ou nasce preguiçosa. Talvez, a “graça” do ofício esteja exatamente nisso.

Escrever um romance é como escalar uma montanha – o Everest, o K2.

Está bem, vá lá, exagerei. Estando em sua casa, o escritor não corre risco de morte, como montanhistas que se embrenham em jornadas verticais radicalíssimas. A analogia se faz no tocante ao desafio de criar vertiginosamente palavra por palavra, frase por frase, parágrafo por parágrafo, capítulo por capítulo. Sempre ao alto, segurando firme, uma ação após a outra, olhando para “cima”. O montanhista também olha para baixo, precisa olhar. O autor olha para trás. Coisa mais comum é escrever algo e ser obrigado a voltar alguns capítulos, para reajustar o texto, a partir de algo que surge e pede passagem. Mas o foco é sempre adiante. “Escrever é o ato de reescrever”, já dizia o filósofo.

Tenho pensado nisso. Afinal, o “contato” comigo mesmo aumentou. Inspirado no filósofo romano Sêneca (4 a.C. – 65), inventei um termo: clausura que transforma. Sobre isso, ainda tecerei ensaio.

Mas, opa, escrevi estas bem traçadas e não respondi às indagações do início. Se bem que desconfio que sim – as respostas se fizeram, ainda que de maneira indireta. Porque escrever é isso: é vida. Memória, registro. É crítica, construção, reflexão. É história, ciência, filosofia. É humano, faz crescer, olhar adiante. É resistência. “A literatura é sempre uma expedição à verdade”, afirmava Kafka.

Conversando com amigas e amigos, percebi o quanto livros, filmes e músicas foram (estão sendo) necessários durante a quarentena. Os caminhos seguem incertos. O “novo normal” há de surgir. Hoje, mais que nunca, sei da importância destas e de todas as linhas, e frases, e parágrafos, e textos, e pensamentos produzidos, durante este conturbado período histórico. Que sigamos pensando e trabalhando por mundo melhor.  

Narrativas

INfluxo
Cláudio Costa Val
Cláudio Costa Val Seguir

Alguém em movimento, que acredita na cultura, antes de tudo. Com arte, educação e união dos povos.

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