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Mundo Cão

Mundo Cão

Você está confortável? Tem um teto sobre sua cabeça, uma cama para deitar e dormir tranquilo? Não, você não tem! Você está na rua, deitado no chão, o concreto não te deixa achar uma posição confortável. Você comeu bem hoje? Também não. Sua última refeição foi o que pôde achar enquanto revirava o lixo mais próximo. Você não conhece sua mãe, nem seu pai. Se você precisa de ajuda, os outros te desprezam. Essa é sua vida agora, uma vida suja, faminta e perigosa. Muitos dos que já viveram com você não vivem mais nesta situação. Eles se foram, disso você pode ter certeza.

Você acorda com a chuva e o frio, eles são incômodos, mas não mais do que a fome. Não muito longe do seu pequeno canto protegido, você consegue ver a “raça superior”, e eles riem, comem e bebem, são mais fortes e maiores do que você, mas isso não importa. Sua última refeição já não te sustenta mais. Eles parecem felizes com toda aquela comida, você espera que eles possam dividí-la com você, e apenas com essa esperança em sua cabeça, você toma coragem e vai até eles. Chegando lá, você pede de forma simples, mas totalmente compreensível para quem quer enxergar, um pouco de comida, mas você é sujo, fedido, maltrapilho. Eles não gostam de você, não te entendem, e então te chutam, batem e cospem, até que o maior deles se aproxima. Dele emana um cheiro de carne e ele vem até você devagar, sua felicidade ignora qualquer maltrato recebido. O homem te segura. Tarde demais. Você percebe o que ele esconde na outra mão, e como gado, você é marcado. O ferro quente te machuca, queima sua pele, você consegue escapar e corre, nunca mais vai querer vê-los novamente.

Os dias passam, as costelas já aparecem e é difícil se manter em pé. Não muito longe você encontra outro que foi abandonado pela vida, este muito pior do que qualquer outro, chegando perto dele é possível ver as marcas, os machucados. Ele é cego de um olho, um dos homens que te maltratou certamente fez isso. Qual o motivo? Simplesmente eles podem, sua superioridade criada e mantida por eles mesmos  sobre você e seu recém-conhecido são tudo o que eles precisam. E agora seu companheiro das ruas, cego e incapacitado, não tem mais esperança pro futuro, ele apenas espera o destino. Você sabe que não quer acabar como ele, então precisa continuar a fugir, mas não agora. A noite chegou mais uma vez, e para que não morra de frio é necessário que encontre um canto adequado.
Após andar muito pela região não há mais o que fazer, você se recolhe perto de uma parede e deita. O frio que faz é o pior dos últimos anos, pelo menos essa é a sensação toda vez. Tudo bem, pode tremer, você não conseguiria disfarçar mesmo. Seu corpo tenta achar uma resposta para aquela situação, mas a noite apenas começou, ficar deitado naquele local se torna cada vez mais angustiante. O que você pretende fazer se levantando? É melhor ficar parado pra conseguir dormir um pouco! Ah, não consegue dormir não é? Vai começar a vagar sem rumo.
Passado algum tempo você encontra um local mais confortável para passar a noite. Um canto onde se juntam mais de seus companheiros das ruas. Todos estão juntos, formando um ninho, o objetivo é se manterem aquecidos, algo muito acolhedor e bem vindo no momento, e você se junta. A noite não te incomoda mais, o pensamento é focado apenas no calor, o calor de todos os corpos juntos naquele momento, e também da urina que toca seu corpo, provavelmente de algum daqueles seres que não têm a coragem de se levantar no frio para poder fazer suas necessidades em um local mais adequado.

Já é de manhã, é melhor acordar logo. Um círculo é feito ao redor de um dos companheiros desta noite, mas se dispersa rápido, nenhuma novidade aqui. A maioria volta a andar sem rumo, você não age diferente. Olhe pra trás. Você não quer saber o que aconteceu? Talvez você já saiba, então podemos deixá-lo descansando, finalmente.

Nos vemos aqui de novo, você revirando o lixo, procurando comida, mas você percebe um homem se aproximando, ele está carregando algo como um saco, o sorriso maligno estampado no rosto não pode te enganar. Faça alguma coisa, reaja! Você o ameaça, ele recua, mas você está encurralado. Lentamente ele tenta se aproximar. Cada vez mais desesperado, não tem como ganhar essa luta, o único ato que você pode fazer para se livrar do monstro que te ataca é algo arriscado. Nada passa em sua cabeça, nada realmente importa agora, você avança contra ele, o sangue escorrendo pelas mãos do homem é algo que deixaria qualquer um em choque. Ele grita e recua, agora está com medo de você, e deveria, você é uma besta, foi tratado como uma, testemunhou a decadência e a morte, e sabe que sobreviver não significa aceitar e sofrer sem lutar. Mas a sua raiva e medo não são suficientes agora. Você não deveria… Mais homens estão chegando. Eu sinto muito. O que vem a seguir você não sabe dizer nem por onde ou quando começou.

Suas pernas estão quebradas, não tem como se levantar, você agora entende seus antigos colegas, pois não há como pensar em higiene quando não é possível se movimentar. Sua sepultura foi criada, a menos digna possível. Você quer mesmo continuar? Isso é você agora, e tudo o que te resume é destruição. Tudo bem, vamos continuar.

Ao longe você percebe que uma pessoa se aproxima. Imediatamente a memória se volta para seus agressores, os olhos se fecham para esperar o fim daquele sofrimento, e quando você acorda, está em um lugar diferente, não está mais no concreto, suas pernas não causam mais a dor lancinante de antes, a fome ainda existe, mas a fraqueza se foi. Abrindo os olhos você vê ao longe duas pessoas conversando, quando olham para você eles sorriem, a visão fica embaçada, o desejo de dormir surge de repente, você não luta contra ele, e dorme. Ainda confuso com o que aconteceu, você acorda novamente, e de novo não reconhece o lugar onde acorda. Tudo que se pode ver no local são dormitórios, eles são divididos em cubículos, tudo aquilo é muito estranho, outros como você aparecem, alguns muito velhos, outros parecem mais mortos do que vivos, outros estão completamente nus, com todo o corpo queimado, alguns sem algum membro, pernas, orelha, parte da pele. Você está deitado em uma caixa de papelão com um cobertor, nada mais está disponível no seu cubículo, mas ao observar, muitos não possuem nem o cobertor, isso causa tensão com outros moradores do local. Um sino toca e o som preenche todo o local, ao mesmo tempo todos saem correndo, descontrolados, eles atropelam uns aos outros, gritos estão por todo o lugar, e quando você sai de seu canto, todo aquele local muda de perspectiva, quando você vê que os cubículos se estendem para até onde você não consegue ver o final e atingem o horizonte e além. Alguns estão embaixo de tendas montadas de forma rústica, outros ao ar livre. É possível ver que existe um sítio inteiro, com mais de 400 cubículos ocupados pelos mais variados coitados e incapazes, e você está entre eles.

Não tendo muito mais o que fazer, você segue a multidão e chegando ao final da confusão você consegue entender o motivo pela correria, era comida. Ela era servida em uma bandeja que se estendia por muitos metros, e todos aqueles coitados brigavam para poder comer um pouco mais.
A hora do almoço acaba, você verifica se sobrou algo para comer, mas é em vão, nenhuma migalha sobrou. Voltando ao seu aposento você se deita, e dorme de novo.

Você acorda com barulho e confusão, muitos estão correndo de um lado para o outro, parecem estar felizes, você continua deitado, mas não por muito tempo, sua visão escurece, em um momento você estava livre dentro de sua cama, no outro o espaço ao seu redor já não é vasto, você não se mexe, as pernas estão presas, não consegue levantar a cabeça para olhar em volta, a respiração pesa, você sente o ar ficando quente, não tem como se debater, cada vez que você tenta mexer uma parte do seu corpo o espaço te aperta mais. Tudo acontece rápido demais, você estava na luz do sol e sem aviso foi transportado para a completa escuridão, e novamente você se vê em outro local totalmente diferente. A luz que atinge seu olho machuca, o chão é gelado, você percebe que não está sozinho, ao tentar dar alguns passos para frente vê que está preso, uma grade te impede de continuar seguindo seu caminho.

Após o momento de estresse e confusão passar, você analisa onde está, perto de você algumas crianças estão brincando de forma inocente, não aparentam estar incomodadas com a mudança do local. Passado o tempo em que você apenas observou tudo ao redor o inesperado acontece novamente, mais dos seres superiores entram no lugar. O que você acha disso? Está com medo, não está?! Acha que vão te machucar de novo?  É isto, você se vê na armadilha que foi posta para que eles terminem o trabalho. É isso que parece, em um primeiro momento. Eles chegam perto de todos, analisando e apontando, seus sorrisos maliciosos enganam os mais jovens, que se divertem ao ver que estão recebendo atenção de pessoas tão importantes, mas você reconhece a farsa, precisa arranjar um jeito de sair daquela situação, você precisa aproveitar que todos estão voltados apenas para os pequeninos. Ficando parado em um canto, totalmente recluso você presta mais atenção nos homens superiores, seus rostos são semelhantes a de todos aqueles que te maltrataram, dois olhos, um nariz e uma boca, mas ao mesmo tempo são diferentes. Dois deles se aproximam de você, sorrindo, você não entende qual a intenção dos dois, e eles estendem a mão. Você quer dar essa chance? Não importa, você precisa disso, precisa da esperança de que tudo vai melhorar, e é mais forte do que você. Por isso, você se aproxima, com cautela. Você dá uma chance, e eles te tocam, o toque macio da mão dos dois é diferente de tudo aquilo que você já sentiu, e é bom. O portão que dividia vocês, é aberto, e você vai até eles. Como forma de agradecimento eles te abraçam. Agora, que você chegou no final dessa jornada difícil, você para pra pensar em tudo o que viveu? Todo o sofrimento e angústia, eram necessários? Mesmo não querendo, você continuou, e por ter continuado chegou aqui. Você possui um lar, comida, uma cama, pessoas que se importam com você. Você aguentou até o final dessa jornada por esse mundo cão. Parabéns!

Narrativas

INfluxo
Pedro de Mendonça Improta
Pedro de Mendonça Improta Seguir

Falar sobre mim nunca é algo constante, já que estou sempre me questionando, observando como convivo com o mundo e deixando diferentes facetas predominarem. Posso dizer que sempre tive prazer em me comunicar, mas principalmente escutar e aprender.

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