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Metamorfose Íntima

Metamorfose Íntima

Metamorfose Intima

 

A pequena lagarta rasteja naquele dia de chuva pelo paraíso das orquídeas azuis, a lama grudenta atrapalhava sua peregrinação entre palhas e agulhas de pinheiros, seus pensamentos mais íntimos era outro caminho que percorria dentro de si mesma. Em um tronco caído cheio de musgos, uma gotícula de chuva parecia adormecer nas paragens térreas de um solo úmido e cheio de odores de folhas envelhecidas, um cheiro suave de perfumes da floresta e algo parecido com em leve odor de enxofre que as pedras davam o ao ambiente daquele lugar, misturam todos os contornos da mata que recebia as chuvas que desciam das escadas celestes, a hierarquia das águas, da evaporação dos mares do nevoeiro, até os átrios navegáveis do céu onde as nuvens deslizam levando as águas para os rincões escondidos entre as montanhas do noroeste.

Olhando o reflexo da sua condição larval, na pequena gota do orvalho das trovoadas, a lagarta deixou germinar dentro de si mesma um sentimento inconformista. Via o cantar dos rouxinóis nas copas das árvores, os sabiás amarelos nas tardes do paraíso, as águas no pico das montanhas azuis, abelhas e besouros pareciam transbordar de néctar de felicidades. Ela também queria voar! Seus sonhos cresceram como os jasmins do campo, e todo o pensamento era uma escalada para as estrelas, queria tocá-las, percorrer o cosmos e pousar no mar da tranqüilidade e tocar o Elysium Mons.

Mas a imagem que a gotícula de chuva apresentava era de um pequeno ser frágil e rastejante, repugnante para os olhos dos monarcas da floresta, a pequenez de um ser pode esconder um coração que transcende o volume da vida biológica, o coração que se abre para o infinito, abraça dentro todas as possibilidades de transformação. A lagarta queria voar, esse desejo estava alojado nas profundidades de seu próprio ser, suas limitações circunstanciais precisava ser rompida, então ela vai subir o seu calvário particular, um pequeno tronco liso, uma subida íngreme, um ramo carregado de folhas. A ali naquela geografia de ponta cabeça, a lagarta constrói o seu monastério pessoal, e o claustro onde será a oficina de seus sonhos. Num mergulho sobre o silêncio, sem deixar de imaginar, a lagarta faz um auto-recolhimento, desliga-se da vida exterior, mas antes, acende todas as lâmpadas do coração, deixa para trás seu próprio vocabulário, despe-se de sua vergonha, e mergulha na intimidade de si mesmo, constrói a esperança em cima de seus monólogos, e num sorriso cerra a porta da arca de seu casulo, para passar por um dilúvio de processos, num universo dissolvido num pulpa verde, cheio de sonhos que o silêncio canta enquanto a harpa do milagre processa um tanger íntimo de milagres e realizações. Todo o oceano cósmico da vida brilha na escuridão, os bramidos da existência rompem-se num manancial de articulações que projetam a sublimidade. O véu da antiga condição se rasga, tão profunda é a tempestade silenciosa que nem mesmo as estrelas mais grandes podem contemplar a metamorfose que ocorre dentro do casulo. Kafka se espantaria se visse os impulsos e os estampidos das células e os pigmentos acesos que são recolhidos dos mistérios da natureza. O romper de uma aurora interior, a vida monástica chega ao fim, o silêncio rompe-se pela agonia de um novo nascimento, e as paredes do casulo se abrem, a lagarta abre os olhos, percebe que tem duas asas, e move-se, contorcendo a própria vida, e num momento de completitude, voa...

...Os monarcas da floresta observam aquela flor alada, um deles corre com um codex e escreve um poema inspirado na beleza daquela borboleta. Ela percorre os jardins, beija a existência com alegria, mesmo que a vida de uma borboleta fosse tão breve, a completitude da satisfação de ser, de tomar uma semente de nenúfar e levar ao ermo dos sedentos, para perpetuar a primavera e pelo deserto peregrinaria e se possível, voaria até o Atacama, e ali derramaria as sementes do açafrão, se com isso, pudesse compartilhar a felicidade com os homens.

Naquele dia, a borboleta repousa sobre a folha de um Delfinio, e ali jaz silenciosamente a gota de um orvalho, e ela olha e vê seu reflexo sobre a gota, ela disputava o reflexo de sua beleza com o sol do entardecer, que disputa, o astro-rei e a borboleta, face a face perante uma gota de orvalho, e a borboleta sai ganhando na disputa, pois bebe do frescor da noite, toca as flores e sabe por si mesmo, que uma transformação interior pode mudar todo o destino de uma vida consagrada a humildade

 

Autor: Clavio J. Jacinto

 

Extraído do Livro : A Transformação Interior

 

 

 

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