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Eu preciso respirar!

Eu preciso respirar!

Tenho asma desde criança. De ver minha mãe entrando no carro correndo comigo, de madrugada, em direção ao pronto socorro, porque não tínhamos o aparelho de nebulização em casa. Sem o aparelho, não conseguia respirar. Quem tem asma, sabe. Na crise, é impossível respirar sem ajuda.  

Aliás, sabe qual é a sensação de puxar o ar e ele não vir? Bom, você já foi à praia e tomou um caldo atrás do outro, do mar? Aí começou a engolir água, a engolir água... Você tenta sair do mar e não consegue, e volta a engolir água? Então. Ficar sem ar é isso. É se debater engolindo água. É ter a sensação de que vai se afogar. 

Assistir aos pacientes internados nos hospitais em Manaus lutando pela vida, lutando contra a Covid-19, e, agora, também contra a falta de oxigênio, me fez sentir novamente a sensação de que estava me afogando. A cada notícia, me debato engolindo água. A cada pedido de ajuda das famílias, em desespero na porta dos hospitais, me sinto afogando em direção ao fundo. A paralisia de quem comanda a crise me tira o ar. O Brasil está me sufocando. A sensação da morte eminente me faz gritar por ajuda. Estou parando de respirar! Eu preciso de ar!  

Mãe, eu preciso respirar! 

Mas a Pátria com camisa verde-amarela é uma mãe malvada, que não se importa se o filho está morrendo ou não, porque deve estar em algum salão fazendo as unhas, postando bobagem no Twitter ou foto de alguma festa no Instagram. Uma mãe que deixa você agonizando em casa, sem se enfiar correndo dentro do carro para te levar a um pronto socorro e buscar ajuda, porque a saúde do filho é sua prioridade máxima, não é mãe. Aliás, nem ser humano é, na verdade. 

Pode ser duro, mas se minha mãe não cuida de mim, preciso aniquilar qualquer semelhança que tenho com ela e assumir outros valores que possam me desancorar desse mar mortífero. Porque o mal quer isso: que você se torne imagem e semelhança dele, para poder te capturar e neutralizar. Mas meu grito de liberdade é esse: EU ME RECUSO A SER IMAGEM E SEMELHANÇA DO MAL! 

Eu me recuso a ser a maldade.

Me recuso a ser o ódio.

Me recuso a ser a violência.

Me recuso a ser essa lama que soterra o povo, agonizando dentro do hospital, dentro de casa, gritando sem ar. 

Eu não sou essa lama! Porque se eu for como Ele, tudo estará perdido. Por isso, minha resposta ao mal precisa ser oposta: se Ele for ódio, que eu seja amor. Se Ele for imobilidade, que eu seja ação. Se Ele for egoísta e mesquinho, que eu seja solidária e colaborativa. E por aí vai. Contra a morte, a decisão absoluta pela vida, porque a sombra sempre vai odiar a luz.

Agora é hora de respirar fundo para ser livre. 



 

 


 

Narrativas

INfluxo
Mariana Mello
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Atriz e jornalista interessada em Butoh, Pina Bausch e psicanálise.

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