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De um dia 21 de março que cabe em qualquer dia da pandemia

De um dia 21 de março que cabe em qualquer dia da pandemia

Não tem acontecido tanto quanto antigamente, mas ainda acontece. Hoje, num fim de tarde de um domingo qualquer, sentei no quintal e fiquei reparando no amarelo do céu, admirei a ventania que vinha do horizonte, me encantei com a beleza do caos. Fiquei ali, parada. Coloquei uma música que eu gosto pra tocar, e fiquei esperando o fim do mundo. Mas ele não veio. De novo.

Não é a primeira vez que ele marca mas não vem, e dificilmente vai ser a última. As vezes gosto de sentar pra esperar, mas ele nunca aparece. Enquanto isso, meu próprio mundo particular parece sempre estar a um passo (ou seria uma nuvem?) de chegar. Morre anônimo, morre famoso, morre branco, morre preto, morre homem, morre mulher, morre rico, morre pobre, morre desconhecido, morre conhecido... Morre. Todo dia. Toda hora. Todo minuto. E aí, quando morre gente assim, o mundo acaba.

Esperei o fim do mundo, mas era só chuva. Fiquei ali vendo os ventos do apocalipse soprarem, mas na verdade eram apenas ventanias comuns de um domingo não tão comum assim, já que não é todo dia que morrem 1.259 pessoas (será que não?). Enfim, talvez fosse isso. Não era o fim do mundo, era só o choro acumulado que estravasou. Mas aqui não choveu, então guardei o choro no bolso e fiquei ali. Esperando mais um pouco, e admirando bastante. Quem sabe o fim do mundo não vem numa próxima nuvem?

Ainda esperei a chuva e o apocalipse mais um pouco, mas as previsões acabaram de vez com as expectativas, e a meteorologia resolveu ainda contrarea-las um pouco mais. Não só não choveu, como a lua brilhou alto no céu, e algumas estrelas vieram enfeitar ainda mais o show. Coloquei a cadeira pra dentro de casa. Era isto, eu havia perdido. De dentro, a cachorrinha de casa fazia alguma graça pra minha vó, que soltava uma gargalhada gostosa da piada. Voltei a cadeira e resolvi ficar mais um pouco, e ver o novo fim do mundo em forma de céu estrelado (que depois da pandemia parece um pouco mais cheio e brilhante) Entendi que o mundo era isso, acabava em instantes pra logo depois começar de novo. Um eterno acabar e recomeçar, até que tenha se acabado de vez.

Narrativas

INfluxo
Bárbara A. A. Queiroz
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Jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Escritora por hobbie e consciente por senso (graças a Deus). #FORABOLSONARO

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