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Crianças Arco-Íris

Crianças Arco-Íris

Oi, eu sou a Pinguinho de Gente, moro com minha mãe e minha avó numa casa bem grande perto de uma praia cheia de barquinhos.

Eu tenho 8 anos e vou desenhar e contar coisas aqui, nesse caderno virtual, porque já sei escrever e ler desde os 4 anos de idade.

A minha avó Zuza, mais cedo, me disse que o meu irmão mais velho ontem chorou escondido. Ele falou pra minha mãe que ele voltou pra casa porque tudo deu errado na vida dele. A minha mãe chorou também, eu vi.

Será mesmo que tudo deu errado na vida dele?

A Vó Zuza disse que ele falou muitas coisas feias e que sentia muita pena de si mesmo.  Ele estava chateado por ter brigado com a namorada que disse que ele era bobão demais pra viver junto dela.

Acho que vou tentar ajudar um pouco. De qualquer jeito, em algum momento, mesmo que não queira eu vou fazer um desenho bem colorido e colocar no quarto dele. Vou desenhar o meu irmão e o carro engraçado, de cor amarela, que ele ganhou de aniversário do seu padrinho, Carlão.


Bato o lápis na mesa e minha cabeça pensa que algumas coisas na vida das pessoas adultas afundam como um barquinho de papel que vai embora na correnteza da chuva.
Nas últimas férias perdi um barquinho muito bem feito. Amarelo e azul. Lembro que chorei tanto, tanto porque ele era bem bonito. O pobre foi arrastado, sem chances de salvação, foi puxado pela enxurrada e sumiu num buraco da estrada.


Naquele dia,  do alto da sua paciência de irmão mais velho, ele me disse:  - Tudo bem faremos outro barco e mais outro e quantos mais forem necessários para você brincar. Pinguinho de Gente pare de chorar!

Agora é cedo da manhã e vejo que o meu irmão já levantou e está com os pés descalços na terra, cabelos lavados, roupas leves de Verão.

Ele limpa o teto, as janelas, maçanetas, espelhos, bate os tapetes e assobia a música que toca no carro. Hoje o meu irmão está menos adulto e um pouco mais criança, todo distraido e feliz.

Ele escuta música alta,  fala sorrindo com os vizinhos, brinca com os cachorros. Até parece que já esqueceu as coisas ruins que falou ontem de si mesmo. Ontem fiquei triste. Hoje já estou bem alegre.

Todos os dias de manhã a Vó Zuza senta na varanda, reza, fala com as plantas, com o sol, com o vento  e também toma chimarrão. Às vezes a minha avó faz uma cuia de mate pra mim, com erva e água adoçada de mel. Depois me alcança nas mãos cuia e bomba de bambu pequenina, tudo para eu aprender a matear sozinha.

Hoje a minha avó me chamou pra perto dela e falou baixinho que o meu irmão anda sem ver o chão aonde pisa. Ela acha que algo no corpo dele ainda confia na vida.

A Vó Zuza não tem jeito mesmo. Será que ela pensa que eu sou uma Alma velha como ela e que posso entender tudo o que ela fala? 

Ela diz que nasci após uma aguarada forte e na hora que surgiu um arco-íris no céu eu berrei forte. Ela diz que eu sou uma criança arco-íris que desceu para iluminar toda a Terra. Acho que ela exagera, mas gosto de pensar que ando por aí com um arco-íris no alto da cabeça.

O meu irmão, por sua vez, é um menino solar que brinca e aquece com o seu sorriso a todos que conhece, mas que por hora escondeu a sua luz.

O meu irmão sol diz ser um fracassado na vida, um "titicademerda" que nunca dá certo e não serve pra nada.

Vou perguntar pra minha avó o que é não servir pra nada?

A minha mãe sempre fala que o meu pai ajuda pouco aqui em casa. Que vive no mundo da lua. Ela diz: - Não dá pra imaginar, olhando aqui de fora, a ruína que às vezes habita a cabeça de porongo de um homem já quase velho.  São anos que teima algo que é só uma história de pescadores, sem nada de concreto ou verdade.

Ela fala em voz baixa do meu pai para a minha avó. Ela acha que ele é teimoso demais e que deveria desistir de procurar por coisas perdidas no mar. Ele vive num barco aqui perto e busca um tesouro perdido no fundo das águas, sempre mais lá pra onge. Ele guarda uns mapas, usa macacão de borracha com pés de pato e ele também tem muitas ideias sobre como dar orgulho pra todos nós.

Eu ás vezes tenho medo dele virar um peixe e nunca mais voltar. Mas, logo esqueço e penso nas sereias a brincar de roda bem perto do barco, no fundo mar.

Vou desenhar as sereias, o barco e um tesouro escondido na praia, bem longe do mar. Depois vou desenhar o meu pai com cara de pirata.

Eu sou um Pinguinho de Gente, mas já decidi o que eu vou ser quando crescer. Vou ser uma Guardiã da Natureza e ajudar a transformar o  mundo num lugar igual a casa da minha avó. Um lugar cheio de roseiras e árvores com todo o tipo de frutas para as crianças nunca passarem fome. 

Eu aprendi na escola que há pessoas que cuidam das Florestas e amam a Terra e os Oceanos como amamos a nossa casa com mãe, pai, irmão e avó dentro.

A Vó Zuza diz sempre que entre, o Céu e a Terra, há crianças arco-íris que foram  nascidas para serem o meio do caminho  entre os Humanos e os Anjos. Algumas vieram Almas novas e outras Almas antigas. Eu sou nova e velha ao mesmo tempo.

Hoje na escola fomos na biblioteca imaginar e ouvir histórias encantadas.

Na roda, meninas e meninos e professora. Nós todos, menos o Nino que teve medo, subimos num foguete bem grande e fomos até o espaço admirar a nossa  galáxia cheia de estrelas, que tem nome engraçado de Via- láctea. Isso porque  parecem leite derramado no galpão gigante do céu.

Desenhei a minha roupa de astronauta toda colorida de rosa e azul e o meu capacete era redondo igual a um aquário, então coloquei umas tartarugas e alguns peixinhos de cor prateada.

A Professora disse pra nós algo diferente, bem assim:

- Meus queridos alunos não tenham medo de explorar o universo. Visitem outros mundos sem destruir nada. Sejam curiosos e respeitem a natureza.

Com certeza, crianças eu sinto que vocês serão grandes mesmo sendo agora pequenos. Porque o mais importante é escolher o que faz bem a vocês e aos seus familiares. Cuidem do Planeta Terra como as abelhas e os beija-flores e permitam  a felicidase agora.

Eu logo imaginei que estava feliz e  flutuando de mãos dadas com a minha Mãe e Avó. Nós fomos da Terra até a Lua e de volta a Terra  até o barco do meu pai, em alto mar.

Logo, que cheguei da escola a minha avó Zuza fez um bolo de milho e serviu com um copo de leite de cabra, morno, pra eu tomar tudo e ficar logo grande e forte. 

 Depois desenhei e imaginei que o planeta Terra andava nas costa de uma tartaruga gigante que era minha amiga. Sem demora adormeci e fui passear de novo no espaço, numa cidade de flores aonde mora meu avô e irmãozinho que espera passar o natal para poder escorregar pelo céu de arco-íris e chegar aqui em casa.

 


- 20 anos depois. -

Vou contar para vocês que a minha avó mantem-se jovial e a cada dia parece ficar mais sábia.

Já a minha mãe está morando no barco do meu pai com o meu irmão caçula. Ontem eles foram viajar para o Rio de Janeiro e depois vão sair em cruzeiro para visitar o Haiti e conhecer a Ilha de Tortuga. 

O meu irmão mais velho mora em Madrid, Espanha. Ele é mecânico e piloto de treinos de uma equipe de corridas de carro. Ele é pai de  duas meninas gêmeas e a sua esposa é uma famosa ex- tenista japonesa.

Eu agora sou bióloga e faço parte de um projeto de proteção as tartarugas marinhas e acreditem eu ainda moro com a minha avó na mesma casa grande perto da praia de pescadores.

Eu  gosto de pensar que eu sou uma Guardiã da Terra, pois cuido da natureza e sempre que posso compartilho o meu conhecimento e trabalho com as crianças e professores de escolas públicas e mais todos os populares.

Agora estou na cozinha e daqui escuto a voz da minha avó costurando sabedorias para vestir minha amiga e namorada que às vezes sente muito frio, isso do nada.

- O dia-a-dia é uma missão espiritual e devemos andar por aí, a cada segundo, tentando ajudar primeiro a nós mesmas, depois devemos ajudar os outros.  Porém, a pedreira é grande e o granito é dureza.  - Diz  para a jovem que escuta atenta as verdades da sábia avó. 

-  Em tão pouco tempo já aprendi contigo Vó Zuza, que é preciso ir além das caixas, além dos modismos, além das regras religiosas. Aprendi que devemos filtrar os discursos políticos que muitas vezes tentam pensar por nós. - Diz a minha namorada.

- Na verdade, minha filha a primeira missão é descobrirmos quais pensamentos pensam por nós.

Um pensamento perturbado pode  funcionar como um fantasma gelado, que possui uma voz  triste que nos conduz pelas veredas do medo.

Perceba, logo que nascemos já criamos um pensamento que pode ser fantasmagórico ou não. Se for uma ideia limitadora, em algum momento, vamos tremer de frio, chorar ou sofrer por medos estranhos ou por fome.

Depois, a cada momento, vamos criar outras e mais outras ideias fantasmas até que não tenhamos mais espaço pra nós na casa do corpo, só teias de aranha e aflição.

Escute as vozes internas. Elas poder ser a causa do nosso fracasso ou do nosso sucesso na vida. Então, podemos viver em solidão ou em solitude. Podemos reclamar de nosso fracasso ou agradecer tudo o que temos, desde o corpo físico  até um coração quentinho que sente, que esta vivo e tem compaixão.


Ter compaixão não é ser bonzinho com todos. Também, não é o contrário. A compaixão pede desapego, amor incondicional e uma atitude pessoal ancorada no presente, como um barco na enseada, só esperando a próxima viagem.

Por fim,  busca o teu propósito divino todos os dias. Aqueles que deixam na infância os seus sonhos e esquecem de procurar o seu propósito divino são os que transformam florestas em desertos. 
Nunca esqueça minha neta adotada que um pinguinho de água junto com outro piguinho de água forma uma chuvarada que pode nutrir a terra e alimentar toda a natureza, do Chuí ao Saara.

- Sim, com certeza Vó Zuza. Vejo que uma criança arco-íris ao longo dos anos será uma adolescente arco-íris, uma adulta e uma idosa arco-íris, centrada no propósito divino de cuidar da integridade do planeta Terra.

- Concordo Pinguinho. Em breve teremos muitas gerações de pessoas arco-íris cuidando da evolução do planeta.

Os chamados guerreiros do amanhã estão chegando em ondas coloridas. Então, acredita agora na mudança e invista na educação das crianças. Uma nova era já está aqui. Confia em tuas boas ações. A Mãe Gaya agradece desde já. 

- Nem fim, nem começo. Tudo o que nós, crianças arco- íris, queremos é continuação. Nós desejamos usufruir da Terra pura com equilibrio e compaixão. 

- Certa está. Agora convido para um mate  que o sol, as plantas e o vento nos esperam para um bom bate-papo matinal. 


Fim.


- Que bom que chegaste aqui. Te envio um arco-íris bem colorido e até a próxima conversa. Um abraço desta que vos embala nesta verde história. - 

Autora: Neusa Rocha.

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Eu sou attiz, escritora, terapeuta professora de teatro e estudante de Guia de Turismo no IFRS.

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