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Como curar uma beleza

Como curar uma beleza

As  tardes de domingo faziam sentido depois que descobri. Quando cheguei, a mangueira já havia se sentado. Seus galhos me permitiram e cumprimentei os homenzinhos que folhavam ao vento; desenho grafitado. O nó principal formava encosto agradável ao alcance do fruto maduro que me presentearam. Em árvores como esta, Betinho gostava de se camuflar à caça do que desse valor à sua vida desgraçada.

            O conheci assoviando no portão, contratado como vigia noturno. Um dia reparei no áudio de canto de pássaros oriundo do aparelho sob o casaco. Concluí o restante quando o vi em uma moita à espreita, aumentando o volume.  Ele rolava um cigarro na boca, impaciente,  de butuca na gaiola. Assim ele passeava aos domingos, munido do cativeiro de maldades e do canivete para o caso de cobra de mau gosto. 

            “Troco trinca-ferro em carro velho, qualquer um, desde que ande.”

            No início me contive, sendo a mais nova do habitat  ⸻ assim chamo porque  traduzia merecimento em vez de uma história triste, onde tínhamos direito a passeios individuais e liberdade desde que estivéssemos prontos ao jantar. Eu não gostava de socializar, apenas em ocasiões importantes.  Quando faltava uma pessoa na mesa de jogo, o vigia era chamado. E eu procurava demovê-lo de seus planos dominicais, deixando-o ganhar. Da origem do meu dinheiro, guardado no fundo falso de um quadro bem chinfrim, ninguém sabia.  Era um grafite inspirado em um bosque que, ao depender do ângulo, se transformava em uma mandala poderosa. Eu gostava de viajar entre as árvores ⸻  como voltar ao passado.

            A  mangueira era meu circo.  O tronco robusto e os galhos cada vez mais altos competiam com meus joelhos alargados de vincos. Eu acostumada a desafios cumpria as acrobacias clássicas para exaltação da arquibancada. E os homenzinhos verdes, com a mesma ansiedade pela apoteose, alongavam-se em famílias ordenadas pela iminente estação. Adorável público. Eles acenavam, farfalhando elétricos, e eu correspondia com reverências.   Naquele dia, ultrapassei a meta. Atleta destemida por toda vida,  voei para a beira da estrada. Sabia que Betinho fez negócio; desde ontem não parava de chafurdar o bolso do casaco, certamente arquitetando. Cumpri minha melhor parábola sobre o automóvel. Não veio com o chamariz, era buzina de grito e freio rasgando o barro. Caiu na ribanceira o desgraçado. Salvei o passarinho de hoje. É sabido que carro velho não tem freio confiável. Amanhã não vão colocar a culpa na louca da Chácara de Saúde; correção, meu nome é Ava: a notável mulher-pássaro.

- Do livro "Cadeiras mancas" de Annalu Braga  (2021/ed.Patuá)

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Annalu Braga
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Jornalista e roteirista carioca, com passagens na Rede Globo e Manchete, Annalu Braga há dez anos se dedica à Literatura. Escreveu cinco livros e recebeu menção honrosa por Olhos de vidro em 2017 . Seu mais recente é Cadeiras mancas (2021/Ed. Patuá)

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