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BAGAGEM

BAGAGEM

 

Parou na estação e nem pediu licença para ficar. Tomei fôlego e embarquei pois não sabia se ele iria voltar. Confesso que senti um pouco de medo, não tinha planos em onde desembarcar. A paisagem muito bela, muitas flores observava pela janela, o vento em meu rosto, suavemente batia, coração pulsava forte, era um misto de medo e alegria, mas eu precisava arriscar. O mundo parecia pequeno e meus braços desejavam ele abraçar.

Nem tempo tive de me despedir! Estava ávida, curiosa, era o meu momento de então agora partir. Minha mala era pequena pouca bagagem levei, Algumas peças de roupas e três livros foi o que na mala carreguei. A Bíblia não tinha como deixar, Fernando de Azevedo também não, Nietzsche com cuidado quis carregar, apertei-o em junto ao meu coração, meu filósofo predileto para traz não ia ficar.

Sei que muitos podem achar estranho porque somente os três livros levar, é que sou uma alma inquieta, dentre centenas de livros, 3 tinha que selecionar. A Bíblia é um livro histórico e importante, além do fato de ser milenar contem registros interessantes, faz com que das raízes eu não venha me afastar. Fernando de Azevedo! Ah, Fernadinho! Esse não vendo, não troco e nem empresto. Se me esquecer de algum detalhe,  a história do meu país, ele me  faz relembrar. E Nietzsche esse eu não posso esquecer, a cada leitura dele que faço meu espirito livre consegue ficar. Não tive dúvidas, foi o primeiro livro que olhei e foi o primeiro a pegar.

A viagem então segue seu curso, porém, o trem para e  surge uma dúvida: Em qual estação devo eu desembarcar? Os passageiros descem e sobem,  mas o trem e o maquinista parecem querer descansar. Será descanso ou preguiça? Talvez nem um e nem o outro, acho que é para dar tempo de cada passageiro pensar em qual estação descer e qual a nova história começar.

As opções não eram tantas,  das que tinham, olhei par elas e me pus a pensar, na verdade eram poucas, com os dedos de uma só mão dava para contar e dedos ainda iam sobrar! Parecia ser fácil então escolher, tola fui eu em assim então pensar. Ao me deparar com as estações, minha mente não conseguia por nenhuma delas decidir. Difícil escolha!

Estação da Luz, onde tudo reluzia, estação da sombra, cheio de recantos de descanso e finalmente estação das trevas, tudo escuro, alguns pontos acinzentados. Parece fácil e lógica a escolha, mas demorei. refleti, pensei  e por fim, então filosofei: Poderia escolher a sombra, embaixo de uma árvore descansaria, no silencio até repousaria! Entretanto, de viver e descansar certamente eu me cansaria! O que se há de fazer no sossego? De fato, o ócio me aborreceria.

Decidi analisar a estação Luz, que maravilha, tudo iluminado, tudo tão claro... A sonhar maravilhado então me pus, que delicia, tudo claro todos os dias sempre e sempre! Porém, sou uma alma inquieta, será mesmo que aguentaria? Tudo belo, tudo claro, sempre a mesma calmaria! Ah, acho que não... luz, para que tanta luz? Mais uma vez refleti e pude perceber que isso também me enfadaria.

Restou apenas a última. Óh céus, será que nas trevas então eu desembarcaria? Escuridão, sem poder nada enxergar? Sim, foi exatamente essa a escolha que fiz! Combina mais comigo, pois então é essa que meus braços irão abraçar!

Nas trevas posso até nada enxergar, mas com esse coração inquieto, meu pensamento iria divagar, divagar e divagar... Do tédio então sairia; meu cérebro que borbulha intensamente iria descobrir, a fórmula perfeita de tudo então iluminar e no momento oportuno, a chave portanto desligar para controlar onde eu quero escurecer e onde desejo clarear.

As trevas jamais deixariam o meu pensamento se desligar! Estaria em estado perene de reflexão, ter a capacidade de novas coisas descobrir e a felicidade em velhas coisas poder transformar!

Poesia adaptada para prosa e  Classificada em 2º lugar no XXIV  Concurso Literário de Poesia e Prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista/2015

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Vana Miletto
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Poeta e escritora. Membro da academia Internacional de Literatura Brasileira, cadeira 36; Membro da Academia Itapetiningana de Letras, Academia Luminescência Brasileira e Academia Literária do Clube da Poesia Nordestina. Autora de diversas obras.

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