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APENAS UM NÚMERO

APENAS UM NÚMERO

            No coração da cidade, em uma das madrugadas frias de inverno do mês de julho, um certo alguém caminhava pelas calçadas. Um cesto de lixo aqui, outro acolá e, assim, em uma marmitex amassada, conseguiu reunir restos de iguarias amanhecidas de uns dois dias para compor seu jantar; na verdade, um banquete... uma garrafa pet de coca cola de 600 ml com água que pegou na torneira de um posto de gasolina e um copo descartável com uma pequena dose de pinga que havia comprado com as moedas que lhe restavam.

            Sentou-se embaixo de uma frondosa árvore um tanto desfolhada e, para sua surpresa, avistou perto do tronco uma metade de cigarro ainda acesa e um chiclete de cor verde clara ainda com um restinho de sabor de hortelã. Não perdeu a oportunidade de dar alguns tragos antes que a fraca brasa consumisse o pouco que restava.

Tudo estava perfeito, seu jantar agora podia ser saboreado, ¼ de hambúrguer, dois ossos de sobrecoxa com resíduos de carne, couro e gordura de sobra de torresmo, ponta de linguiça mordida, pequena porção de arroz e feijão preto, o cheiro não estava aquelas coisas, mas quem ligaria para isso?

Degustou cada pedaço das sobras encontradas, tomou alguns goles de água, depois olhava para o céu na tentativa de encontrar uma estrela talvez, mas sua tentativa foi inútil, pois as nuvens cobriam todos os corpos celestes prenunciando mais uma daquelas madrugadas em que a sensação térmica parece beirar o negativo e você sente o gelo penetrar seus ossos.

            O que será que se passava naquela cabeça? Quem se importaria com os seus pensamentos? Aliás, será que sua presença havia sido notada? Creio que não, afinal, na cidade que nunca para ninguém tem tempo de notar os transeuntes e principalmente se este for mais um daqueles rostos escondidos por trás de barbas, bigodes e cabelos emaranhados. Mas ele existia, estava ali para quem quisesse notar.

Depois de degustar seu banquete e observar o céu, mastigou um pedaço do chiclete por alguns minutos, levantou da calçada, olhou de um lado para o outro, urinou na terra ao lado do tronco da árvore. Pegou seu colchão fino e marrom, feito de um papelão dos bons, aqueles de caixas de geladeira, depois pegou partes de um jornal que serviriam de lençol, mas antes ainda teve tempo de ler as notícias estampadas. Não dava para saber se eram recentes ou de semanas, mas ele estava interessado, pois leu cerca de uns quinze minutos.

Em seguida, cobriu o papelão com o jornal, pegou o copo descartável, bebeu a dose de pinga, se enrolou em um daqueles cobertores feitos de meias recicladas, fechou seus olhos e parecia dormir o sono dos justos. Justos?

Mal fechou os olhos e o movimento matinal recomeçava, passos vão, passos vêm, pessoas andando aceleradamente para não perderem o horário do ônibus, trem, metrô e chegarem aos seus trabalhos.

Aquele certo alguém talvez nem seria notado se não fosse uma senhora tropeçar em seus pés e cair feito jaca ao chão, sorte da velhinha ter caído em cima dele, pois amenizou o impacto e machucou apenas os braços que se arranharam no tronco da árvore.

Ao se dar conta em cima de quem ela havia caído, começou a chorar desesperadamente e pedir por ajuda, sua voz era fraca, porém desesperada, a senhorinha chorava tanto que mal conseguia falar. Algumas pessoas se aproximaram para ajudar, mas ela chorava tanto que parecia sentir uma dor insuportável. As pessoas não compreenderam seu desespero, pois ela conseguiu se levantar sozinha e apesar dos dois braços estarem ralados superficialmente, não estavam sangrando, por essa razão não compreenderam seu desespero.

Um dos transeuntes ligou para o SAMU, que prontamente chegou ao local. O homem e a mulher que pararam para ajudar tomaram seus rumos. Um enfermeiro desceu da ambulância juntamente com o paramédico, pegaram a maca, colocaram a velhinha dentro da ambulância e começaram a examiná-la.

O enfermeiro após os primeiros socorros disse:

__ A senhora teve sorte, pois nessa idade levar um tombo e sair praticamente ilesa é puro milagre!

A velhinha nada dizia, apenas chorava, sendo assim o enfermeiro perguntou:

__ A senhora está sentindo dores aonde?

__ Em nenhum lugar meu filho?

__ Mas porque a senhora chora tão desesperada? Está com medo ou assustada com o tombo? Não fica nervosa ão, seus braços estão um pouco arranhados, mas a dor vai passar.

A velhinha chorando disse:

__ Eu estou bem moço, mas o homem que segurou todo o impacto da minha queda é que não está bem!

O enfermeiro olhou para a calçada, tocou com um certo receio no corpo daquele homem, colocou a mão no pescoço e ao tentar balançar seu corpo percebeu que estava completamente duro e congelado pelo frio da madrugada. Passados 20 minutos o carro do IML chegou e retirou o corpo daquele local.

Sem nome, sem documentos e provavelmente com um monte de histórias que levou consigo, agora é apenas mais um que morreu na madrugada fria do inverno de julho e fará parte das estatísticas.

Pessoa, gente, homem, cidadão, ser humano, indigente?

Quem era aquele homem?

No coração da cidade que não para, mais um coração deixa de bater ...

In: ANONYMOUS: contos e crônicas da cidade que não dorme.

Narrativas

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Vana Miletto
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Poeta e escritora. Membro da academia Internacional de Literatura Brasileira, cadeira 36; Membro da Academia Itapetiningana de Letras, Academia Luminescência Brasileira e Academia Literária do Clube da Poesia Nordestina. Autora de diversas obras.

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