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A pedra (Fabrício Manca)

A pedra
(Fabrício Manca)


I
A pedra que acertaste em minha testa 
É tão fria quanto a mão que a molesta
Tão rígida quanto seu coração sombrio.
Na noite que juraste ferir-me por amor,
Restou-me apenas, espinhos duma flor, 
Que morrera de tristeza, câncer e frio

II
Perdi o caminho de casa naquela noite triste 
Vi as desgraças reunidas, mas tu, tu não viste
Testemunhei a queda humilhante dos vitrais
Vi a agonia divertir-se enquanto esquartejava
Minha alma, tu não vira, à esta hora já estava
Recolhendo os cacos da dor que me ardia mais

III
Meu coração, assim como o fígado de Prometeu
Regenerou-se tão rápido, quanto você o comeu
Para que no dia seguinte, voltasse a devora-lo
E assim dia a dia o meu sofrimento eterno ia, ia...
E quanto maior meu coração, mais você o comia
Eternizando assim a agonia de não poder para-lo

IV
Eu era um desgraçado esmolando flor no paraíso
Oferecendo a eternidade em troca do seu sorriso
Ao som sarcástico das gargalhadas dos cupidos
Que no submundo do Éden traficavam os amores
Arrancando a alma e a dignidade desses senhores 
Em troca de todos os valores não correspondidos

V
E assim no nível mais inferior da minha loucura 
Eu observava tua cria porca com tamanha paúra 
Que em meio à tantas quimeras e abstrações
Era ela a fera mais desorientada, rústica e louca
Que carregava no vermelho quente da sua boca 
O sangue fresco de todos os sôfregos corações 

VI
Como Atlas que carregara o peso do firmamento 
Sobre minhas costas eu tinha todo o sofrimento 
Dos bilhões de amores perdidos naquele segundo
Eu gemia só , aquela dor, com tamanha insanidade 
Que tal era o peso do desespero da humanidade 
Era assim, sobre minhas costas, o peso do mundo

VII
Era a voz da alma que me esgoelava toda tristeza
E na afasia desesperadora da minha língua presa
Eu ruminava restos podres de poesias esquecidas
Eu era como um beato que se entrega ao ateísmo
O poeta desacreditado que se joga nesse abismo   
Onde jazem todas as inspirações desaparecidas

VIII
Não, não me negaram flores, no dia seguinte 
Não me era o natal, era-me sim, por conseguinte 
O dia derradeiro que hoje comemoro a morte
O dia em que os monstros me comeram a psique
Com a beleza de quem monta um piquenique 
Para devorar o fraco que se mostrar mais forte

IX 
E foi de manhã, numa súbita crise de sanidade 
Que me vi dominar o amor com tanta Habilidade
Que ele me parecia no colo, um filhote vulnerável 
E antes que crescesse e me devorasse por inteiro
Fiz com que gritasse e se e escondesse no bueiro
Onde escorre todo sentimento hostil e miserável 

X
A pedra ainda ardia minha testa quando adormeci
E durante o sono em um pesadelo foi que eu vi
Qua amar tanto assim, é que me foi o maior erro
Eu acordei na mais completa e absoluta solidão      
E descobri sob os escombros do meu coração 
Que o amor morreu e eu não fui ao seu enterro
 

Narrativas

INfluxo
Fabrício Manca de Souza
Fabrício Manca de Souza Seguir

Aspirante a músico, poeta e compositor, membro da ALLA (Academia Leopoldinense de Letras e Artes) em Leopoldina - MG, procuro através do meu trabalho compartilhar inspirações e emoções.

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