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A menina e o louva-deus

A menina e o louva-deus

 

... e um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz.”

Guimarães Rosa

 

Era uma vez...

Porque as histórias começam assim, se quer saber, eu não sei, talvez não conheça outra forma de começá-las, talvez sim, mas pode ser que essa história não seja como as outras.

...uma garotinha chamada Celeste. Por rotos caminhos e tortuosas passagens, Celeste andou, conheceu o medo e a desesperança, a algoz companhia dos andarilhos que jamais param nem perdem o olhar às paragens vazias, áridas, esquecidas, como a da fotografia:

São meus pais. Respondeu Celeste ao louva-deus. Meu pai era mineiro e minha mãe arrumadeira, (Pausa de semibreve no Nocturne em Dó Menor de Chopin, tict, tict, tict, a fagulha do isqueiro inflamando o amargo Camel) uma vida inútil! Se quer saber, eles morreram... (A agulha risca novamente o vinil. O som é abafado, ruidoso, perfeito! Se quiser ouvir:

Ei, tá escutando? Não, não é um grilo, o zumbido é diferente. Você ouviu? Hã?! Psiu! Cala a boca! Desliga isso!(...) Não responde não... Não vai lá! Pode ser o zangão. O seu nome é... O seu nome... Eu não me lembro senhor louva-deus! Eu não me lembro...

A vida de Celeste foi assim, aos doze anos sua casa pegou fogo num grande incêndio na floresta. Várias pessoas perderam suas casas, tudo era seco, sem cor, tiveram que partir e voltar para cidade. Celeste preferiu ficar. Ela esperou, sentada às cinzas da varanda de sua casa, por sua família. E esperou, e esperou... Até que sopraram as nuvens, gélido minuano, e varreram as cinzas, lavou os olhos. Celeste levantou a cabeça e lançando o olhar ao horizonte decidiu-se,

À fenda escura estou a espreitar, quão bela ventura me aguarda o porvir, que logo possa fácil encontrar quando essa escura floresta se abrir. O medo e as decepções não existem ali, embora digam: Privação passará! Sei muito bem cuidar de mim.

E foi-se floresta adentro pela trilha escondida cantando a velha canção peregrina.

 

Acendida a lamparina no quarto 21

Entre Celeste, seja bem vinda! Calma, vou dá um jeito nessa negridão! Pode ficar o tempo que quiser minha filha, veja só esse quarto, não é enorme? Está desocupado (traz logo o pirilampo Maria!) e será todinho seu. Era a vespa Marivalda que a Celeste acolheu ao perambular por outros lados, perigoso, breu! Vá logo se ajeitar, pois essa noite teremos, hi,hi,hi, nobres visitas.

E foi assim que Celeste conheceu o amor, quando entraram em seu quarto, rasgaram suas roupas e desfloraram seu pudor. Celeste sofria. Noite após noite a menininha que morria tinha o corpo tão marcado que sua alma em retalhos mal conseguia chorar.

Pode entrar Zé Doninha, ela o espera já prontinha no quarto 21, convidou Marivalda seu ilustre visitante. O Zé não ia sempre ao bordel, como as vespas-operárias, lá passava quando dava, ou quando vinha novidade, ou se encontrasse outras doninhas que como ele sempre dizia, ô lugarzinho bão pra passar o tédio!

Celeste tinha apenas quatorze anos e já sabia o que era o medo, mas ela fingia num canto escuro de seu quarto, enquanto Zé Doninha entrava, tirando as roupas, lançando gracejos.

Meu Deus, mas você é só uma criança! Assustou-se Zé Doninha. E ela lhe contou sobre sua família e sobre as cinzas de sua casa e seus olhos se encheram de lágrimas. Zé Doninha então, lhe prometeu ajudar: Vou tirar você daqui! Disse que a levaria para casa e como filha trataria. Celeste então sorriu, pela primeira vez, sorriu. Tenho medo do Edgar. O gafanhoto Edgar se apaixonou por Celeste, disse que ela era tudo para ele e que precisava dela, mas Celeste bem sabia no esconderijo pensamento que Edgar queria só um corpo, uma puta, um objeto. E toda a noite venderia por alguma bagatela, o seu dote de menina, maculando a alma bela.

Celeste abriu a janela e se lembrou das palavras da vespa Marivalda que num dia de chica recusou-se copular, trabalhar: Sua putinha imunda, agora vi a tua fama! Vem coitadinha pra eu ajudar e agora come, deita, usurpa e se recusa a trabalhar! Venha Celeste, deixe tudo e vamos embora, disse logo Zé Doninha, lá fora tudo é diferente, o mundo gira que nem pião matreiro, um dia tu é palhaço sem circo, no outro, um sapo-rei, valente. E Celeste capou o gato disse à vespa a Maria e fugiu, caiu no mato, à sua frente Zé Doninha.

 

Sangue e lágrimas na Casa do Mel

Em sua aventura pela floresta enquanto descia à casa de Zé Doninha, Celeste sentindo o vento acariciar os cabelos tisnados, imaginou, há um lugar do outro lado do rio, onde dizem viver um grande sábio, era Ari, o grilo, que nunca dizia futilidades. Celeste ouvira a história de Adelaide, sua pulga amiga, vizinha, e enquanto ali andava, descalça, floresta escura, imaginava o dia em que três perguntas faria ao sábio Ari, famoso grilo.

Zé Doninha tomou conta de Celeste. Em sua casa sobre o brejo logo deu jeito de engordar a pobre menina. Ei Celeste venha ver, comprei-lhe um vestido de cetim tal cor anil do azul do céu!

E numa tarde sem sol, bateu à porta seu Jacinto. Entra na história de Celeste, velho zangão, embrutecido, recitando o cordel que vivia repetindo,

De uma colmeia pequena fui criado, hoje vivo solto no mundo, zangão alado! E ai dos que cruzam à minha frente, com as mãos vazias, todo invocado, como não sou nenhum crente, arranco as tripas do bastardo! E ria-se de sua pobre rima.

E foi assim que apareceu Jacinto, usurpador da lei sagrada, um zangão cabra da peste, que fez promessas a Celeste, casa, comida, roupa lavada, e sem cobrar nenhum vintém. Venha comigo princesinha e a seus pés terá, formigas, pulgas, cupins e grilos, lá na Casa do Mel, onde cristais de açúcar nunca cessam o reluzir! E escute ainda Zé Doninha, continuou seu Jacinto, por essa rameira, aquela dívida perdoei, mas não se acomode viu! Que ainda resta alguns vinténs.

Enquanto em seu quarto estava às malas a arrumar, Celeste de novo imaginava, numa Casa de Mel vou morar, e não ouvira a conversa de seu Jacinto, que por cinquenta mangos perdoou o Zé Doninha, de uma cara e velha dívida pelo dote da menina.

Ela sabe dançar, disse a formiga a seu Jacinto, traga outra em seu lugar, comigo essa aqui não fica! Celeste não sabia dançar, dentro dela havia apenas histórias que Joana sua tia passava as noites a contar, lá pertinho do manguezal, onde os caranguejos sonhadores cantavam suas próprias canções sob estrelas despencando e nesse baile aluado Celeste apoiava suas lembranças.

Eu não sei dançar, dizia ela à formiga, tira logo a roupa menina, já que diz que num sabe, ao menos dê o que mostrar! E num descambe a chorar, vai dançar peladinha que o seu Jacinto tá de olho e se for boa lá no cano, terá seu prato todo dia, mas se ficar assim, poltrinha, casca fora Celestinha! A formiga terminou, melhor é não ter abrigo que viver sempre cativa à moral que vem nascida em nossa mente de menina.

Celeste engoliu o choro, não tinha mais pra onde ir e ao cair da noite fria, suas roupas então tirou balbuciando bem baixinho uma cantiga cheia de dor,

Que amarga sina, meu Senhor, vida sofrida, sem amor! Carrego sim, pesada cruz, mas não tenho medo, esse é meu canto!

Abriram-se as cortinas

Essa é Celeste, vem de fora a gostosinha, olhem só o rebolado, aprendeu mesmo a dançar. Quem deseja carne fresca, pague o preço no balcão, de onde vem contam os causos que a bichinha mui fogosa, nunca deu devolução!

E era assim que se divertiam os insetos na floresta, rindo a noite inteirinha e cobiçando a pobre Celeste.

 

Em lugares altos

Passados cinco anos, Celeste queria voar, conhecera uma borboleta que ainda presa em seu casulo, de seu galho a arrancou, e guardou-a bem consigo, num balaio que ganhara da tão querida avó. O casulo lá ficou, ouvindo a noite inteirinha a canção não esquecida dos errantes peregrinos:

Ah minha borboletinha querida, voarei em tuas asinhas pra onde o vento nos levar...

Até que um dia bem cedinho o casulo se rachou e lá saiu cambaleando a borboleta que dizia, pra onde o vento nos levar, pra onde o vento nos levar...

Celeste riu de novo, o rostinho a corar, e agora aos dezoito, cultivou um só desejo, borboletinha, minha amiga, em tuas asas vou voar, riscar o céu com giz de cera, ver o mar, viajar...

A borboleta então cresceu e cresceu, e em suas asas Celeste voou, para longe voou. Vou matar a desgraçada, batia no peito Edgar. Ela nem sabia dançar, conformou-se a formiga. Eu vou atrás da ordinária! Seu Jacinto prometeu, antes que morra o dia quero vê minha Celestinha!

Sou como você Celeste, sou sozinha neste mundo, mas não precisa se afligir, para o alto voaremos sempre que quiser fugir, dizia sempre a borboleta, fraseando uma canção.

E por vários meses, Celeste voou, adentrou floresta escura, rente aos rios passeou. A montanha conheceu e bons insetos pra conversar e quando havia algum problema, para o alto vou fugir, pensava assim até escutar:

Não pode fugir para sempre Celeste. Onde fica sua casa? Diz que te levo, pois preciso achar um lar. Disse a nobre borboleta. Mas Celeste jamais contou, desceu das asas da amiga, e sem olhar para trás, a borboleta abandonou.

Com tristeza, mui pesar, desceu a trilha tortuosa, pois bem sabia o que queria – era o sábio grilo encontrar!

 

Meditações do sábio Ari, o grilo, sob o pé de Jurema Encantado

Se achegue mais minha frutinha! Tá com a cuca nas estrelas? E quem é que num tá?! Humm! Caiu do pau de arara Celestinha? Tu anda vendo o sete estrelo no maio minha filha? Querendo bater a caçuleta, ver dona morte, a bandida?!

O sábio Ari tinha fama de falar bem arredio, uns juravam ser profeta, ou marreteiro, bicho-grilo.

Eu logo já sabia... Vem do baixo da égua perturbar o sábio grilo. Escute só marmotinha, sente aqui, dá um gole na garapa é de caju em caju que logo percebemos que nem sempre é verdade o que com nossos olhos vemos.

Às vezes o sábio Ari tirava da boca seu enorme narguilé pra poder respirar, enquanto o coração de Celeste se dispunha a esquadrinhar. Ela lhe revelou todos os seus medos, e ele a decifrou como quem desnuda uma pêra.

Tem medo da solidão minha joaninha? Deve ter vivido mêimundo. Passa cá essa meiota, que eu tô com sede. Já deu de cara com o Papangú? Nunca viu o abestado?! Mainha me embalava o sono sempre contando, dorme logo menino senão o Papangú vem te comer. Tu tem medo da loucura minha flor? Mas o que é a loucura sobre os cumes ventosos? Olhe à sua volta Celeste, o que vê? A floresta se perde em sua vastidão. Olhe as árvores tortas, desalinhadas! Há maiores, menores, nunca exatas! Não existe simetria nesse macromundo, apenas nas pequenas coisas. A linha traça a mão, desenha o lírio, o suave contorno de uma manga, as linhas que as pedras pintam ao tocar o oceano, silenciosa vibração...

E entre uma baforada e outra o sábio cuspia suas divagações,

Pergunta-me sobre o vazio, pois lhe digo um dedo a mais, há um mundo aparente, como a casca da cigarra, pregada ao galho de um sombreiro, confundida com semente. O seu mundo é uma casca, vida aparente. A liberdade dos sentidos só é vivida plenamente ao quebrar o espaço-tempo, essa é a velha relatividade!

Esquerda, direita; pra trás, pra frente; para cima, para baixo. Por que o mundo se perdeu dentro de três dimensões? Não há santo que me obrigue a viver nesse cubículo. O espaço desalinho, não tem altura, nem foi medido. Não tem largura, espessura, dimensão, profundidade! Mas existe preso ao tempo, e pra simplificar esse conceito, nosso tempo é mal usado. Tempo é a quarta dimensão, tudo é relativizado!

A gravidade é uma lei, não sobre as mentes que levitam, mas sobre corpos que declinam presos aos movimentos. Todos os movimentos são relativos. A temporalidade é observada pela mente, que está presa ao espaço-tempo dentro de uma garrafa de jurubeba! E gargalhava o sábio grilo em seu halo enfumaçado, e você me diz: Do que sou feita? Celeste, não percebe que sua dor é aparente?! Um vazio, ilusão de amor, tudo é obra de sua mente!

E Celeste adormeceu sob o pé de Jurema, ouvindo as palavras de Ari, que pela manhã logo partiu para a outros ensinar.

Sumiu! Sumiu! Não está mais aqui! Celeste virava o pescoço, não mexia o seu corpo, o grilo bem que lhe avisou, não enche a cara de Jurema!

E lá Celeste ficou por muitos pores-do-sol, até que o pé de Jurema morreu e a alegria se escondeu, lá no fundo com a tristeza e só aí ela rezou: Meu Senhor, Meu Senhor! Mas os deuses são histórias que um pobre tolo inventou, dizia sempre Marivalda, lembra a vespa mal amada? E à meia-luz taciturna, sob estrelas crepitantes, Celeste logo adormeceu. Sonhou com a varanda de sua casa, observando os girassóis, e sua mãe cantarolando,

...a primavera vai abrir o alecrim e a margarida, canta, canta sabiá, deixa logo essa dor lá no pé de cerejeira, pra virar botão de flor, levar embora essa tristeza...

E Celeste ali ficou, construindo sua casa, com tijolos coloridos. Um lugar para hospedar seus medos sob paredes revestidas com velhos sonhos carcomidos. O teto de barro arqueado, guardado por sete cavalos-marinhos, tecido com belas continhas de ouro seu lado escuro, escondido.

 

                                                                                     .  .  .

 

Pelo jardim enlouquecido de Nossa Senhora de Fátima - Juazeiro, 2004

 

*“O hospital psiquiátrico Nossa Senhora de Fátima é o único existente num raio de 300 km, embora não tenha alcançado a excelência, procura se aproximar da nova política de tratamento psiquiátrico, recomendada pelo Ministério da Saúde. E sobre o Programa Nacional de Avaliação que considerou o sanatório como um dos cinco piores do país, esta notícia foi uma surpresa para nós da direção do hospital, que já chegou a incomodar a vizinhança, mas hoje percebemos que o atendimento humanizou. O paciente não foge como antigamente, pois é constantemente vigiado por servidores da casa”, agora, tudo está sob controle, disse o louva-deus ao repórter.

 

E como muitas histórias por aqui, sem um final feliz Celeste ficou. Alienada em frente ao jardim com nome de santa cristã.

Pendia sempre a cabeça pra ouvir o que os insetos lhe falavam e respondia bem baixinho ao perguntarem se era louca, essa é a sina, meu destino num mundo só, tolo e vazio, mas não me vendo, nem me troco, tenho ainda compaixão, aqui me guardo dos insetos que só trouxeram-me aflição.

 

                                                                                        .  .  .

 

Mas, as estórias não podem acabar sem um final feliz, não é?

Foi aí que numa manhã de primavera, bem cedinho uma borboleta amarela no avistou Celeste avistou. Com suas asas radiantes pelo sol ela desceu, num rasante até onde Celeste se encontrava. A garotinha tapou os olhos e quando abriu de novo não estava mais no chão. O jardim ficou lá embaixo, pequenininho enquanto Celeste voou e voou sempre para o alto e não precisou que a borboleta lhe dissesse nada, pois sabia que era sua amiga de muito tempo e que como lhe prometera, jamais a abandonara e um dia voltaria para estarem juntas pra sempre.

 

*A afirmação acima verídica é do diretor do sanatório, o médico Robério Dewilson dada em 2004 aos técnicos do Ministério da Saúde na última inspeção ao hospital.


Autor: Samuel Peregrino

PRÊMIO JEP DE MELHOR CONTO DE 2008 - Oficina Literária Virtual

 

 

 

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Samuel Peregrino.Casado com Suzana Marinho, pai de Heitor e Gabriel Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás - UEG, com especialização em Cinema e a Linguagem Audiovisual pela Faculdade Alfa América-SP

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