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A gravidade, o som e a letra

A gravidade, o som e a letra

Eu era pequena e morava perto do Correio Central, um prédio-caixa, imenso, que só revelava seu interior depois de deglutir os corpos por um carrossel de vidro.  Uma vez lá dentro, que cena: o chão cinza brilhante parecia uma pista de patinação, o pé direito tendia às alturas. Quando entrava luz por alguma janela lá de cima, as partículas de pó formavam uma linha reta e iam desafiando a gravidade, devagarzinho, até o chão. Dezenas de guichês espalhados davam conta dos serviços e, portanto, raras eram as filas.  Eu escrevia cartas para minhas amigas  e era aquela gente, vestida de branco atrás do guichê, a responsável por tudo dar certo. Os anjos mensageiros.   Consigo lembrar de resquícios da minha inocência quando me vejo lá.  O olhar fresco, sempre surpreendido, vendo pilhas de cartas e imaginando. Para onde? Para quem?  O tempo de hoje é outro, as mensagens também.  Talvez pela facilidade, o destinatário contemporâneo nem sempre recebe novidades, amor e saudades, mas ódio, ressentimento e acusação. Às vezes de um remetente que nem conhece.  Os demônios estão à solta, os fios e as ondas, por onde as palavras passam,  deixaram as letras mais soltas e revoltas, sem o aconchego do papel.  Ficaram mas ríspidas. Aliás, falta aconchego em tudo. Nas ruas, nas praias, nas florestas (bichos queimados, imagine!), nos rios que secaram e mandaram seus povos um pouco mais para lá. Tá feia, a coisa. Dada a gravidade do caso, me transporto para aquele momento, menina pequena no Correio Central, e busco aquela letra cursiva, cambaleante, assimétrica, para escrever uma carta para minha amiga de infância, de adolescência, de vida adulta, de velhice, para aquela que vai me receber em suas entranhas em um dia de sol (assim espero). Desafio o tempo, o espaço e volto àquele lugar, gritando com uma voz infantil para fazer eco no recinto amplo, se espalhando para outros locais também. Não. Pensando bem, se eu estivesse naquele tempo eu chamaria meus amigos para fazer um coral, pois criança sabe que pertence ao todo, sabe que sua identidade não se dissolve no bando, muito pelo contrário.  Então a gente ia começar a cantar baixinho, com aquele jeito infantil de olhar para os lados, vendo se o amigo está indo na mesma toada, depois a gente iria se encontrando na afinação, nos diferentes tons e depois, ah, depois aquele vão livre ia se encher de uma voz tremenda e íamos soar a música com todo o coração. Íamos falar de saudades, de esperança, de natureza, de tudo aquilo que as canções infantis permitem e que as canções adultas julgam impossíveis e ridículas  e portanto nem mencionam. Até o boi da cara preta, que é real, poderíamos invocar, mas dessa vez, para estar no nosso time, levando os caretas embora. A música se amplificaria cada vez mais e as crianças de todos os bairros, vestidas de todos os jeitos, chegariam. As dores de algumas sendo misturadas às dores das outras,  formando um terceiro elemento, menos denso, mais respirável. Os anjos atrás dos guichês iam ficar em paz, as pilhas de cartas sairiam para entrega já imantadas por aquela intenção, as paredes de cimento cinza guardariam nos poros o canto límpido, para se sutilizarem também.  Os pequenos pulmões incansáveis, em dado momento precisariam de ar fresco e soprariam juntos para deslocar o teto, ou melhor, para fazê-lo abrir como uma caixa de música.  Desafio à gravidade. Algumas crianças, com outros talentos, iam preferir se espalhar pelo chão e desenhar árvores, rios, montanhas e até mesmo um robô sementeiro, um carrinho movido à luz solar.  Outras criariam novas letras para as canções. Outras tocariam, violão, atabaque, um chocalho cheio de penas. Talvez os adultos, encorajados pela música, como flautistas de Hamelin às avessas, dessa vez se esquecessem dos ratos e decidissem seguir os pequenos, adentrando o local. Ninguém ia ficar de fora porque a essa altura as paredes já teriam virado pó, tamanha a força do som. Assumiríamos, enfim, o papel de remetente, enviando a carta para a Terra. E Ela, sempre pronta, sempre impávida, sempre prestes a acolher as mensagens e a dar em troca exatamente aquilo que recebeu... daria, sim, a sua resposta. 

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Adriana Calabró Orabona
Adriana Calabró Orabona Seguir

Sou escritora, roteirista, jornalista e desejo um mundo mais consciente e colaborativo.

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