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MENOTTI: “POESIA NÃO MORRE!”

MENOTTI: “POESIA NÃO MORRE!”

“Renutrir o mundo da poesia é tirá-lo do cárcere de limitação que impõe o materialismo da hora presente, reabrindo-lhe as portas do seu nativo paraíso e reintegrando a cultura na sua unidade divina”

Estimulado por trechos como este, contidos na mensagem do poeta paulista Menotti Del Picchia endereçada aos poetas do Brasil, o Movimento Poético Nacional, de São Paulo, preparou um manifesto no qual indicou vinte de outubro como o Dia Nacional da Poesia.

Parecia um sonho alto demais; contudo, Menotti, remanescente e cérebro da revolução literária que desaguou na Semana de Arte Moderna de 1922, prometeu contribuição decisiva numa histórica reunião ocorrida em casa do acadêmico em 1976.

Entusiasmado, o Movimento Poético Nacional encampa a sugestão e lança um manifesto amplamente divulgada, fundando um jornal “A Voz da Poesia”, no qual defende a data.

Mocidade, através de seus editores Ivo Santos Cardoso e Almir Fonseca, aproveitaram o pretexto e procuraram o poeta Menotti, em sua residência, em São Paulo, onde vive cercado de lembranças de 85 anos, rodeado de quatros e cabeças admiravelmente esculpidas por ele próprio, curtindo velhas lembranças mas profundamente integrado no presente.

RENUTRIR O MUNDO

“Eu acho que precisamos renutrir o mundo de poesia. É uma coisa essencial”. Faz uma pausa e continua: “E outra coisa: compreender que a poesia não é só os poetas que a fazem. Todos nós a fazemos, num instante”.

Antes de prosseguir, Menotti fez questão de relembrar aspectos de suas experiências culturais, falando com entusiasmo de suas realizações, reconhecidamente consideradas glória da cultura nacional. Menotti, paulista que nas a vinte de março de 1892, aos 25 anos publicou Juca Mulato, obra que lhe rendeu projeção nacional e contribuiu decisivamente para deflagrar a Semana de Arte Moderna.

ALMA DO MUNDO

Menotti acredita que um crepúsculo, uma criança, o amor desinteressado podem desencadear a poesia em qualquer pessoa. Estas são as razões por que afirma que “a poesia é a alma lírica do mundo”, uma frase que ele gosta de repetir e que se encontra em destaque na primeira página do jornalzinho do Movimento Poético Nacional.

Inflamado por natureza, talvez herança de ancestrais italianos, Menotti Del Picchia quase chega a extremos quando defende a idéia de que a poesia não está morrendo, como proclamam alguns intelectuais. Menotti acredita que nem sempre a poesia deve estar dentro de versos.

“Parece-me que é um engano forçar os poetas a escreverem dentro de determinadas formas. Por exemplo, o concretismo. A poesia, quando nasce já traz em si um corpo de comunicação. Versos podem ser feitos à vontade, mas aquela coisa maravilhosa que é a poesia, essa raramente é comunicada”.

RIGOR MATA A POESIA

O poeta acredita que forma rigorosa é uma das causas de prováveis desencantos com a poesia. “Eu digo que essa coisa de fazer forma e obrigar a usá-las produz uma certa prevenção contra a poesia”. Citando a Bíblia (Cântico dos Cânticos) e Dante Alighieri no original Menotti fica extasiado com a espontaneidade da inspiração poética.

Profundamente enraizado na cultura nacional, Menotti volta a falar de Bilac, Vicente de Carvalho, abrindo crédito especial a este último (“ele não era parnasiano. Era puramente lírico”) e se detém em sua própria produção, Juca Mulato, que “cria o corpo verbal de acordo com a expressão. Penso que ali fui poeta de fato”.

A defesa da poesia é comovente neste homem de 85 anos, que parece não ter perdido os mínimos arroubos da juventude. O amor parece emanar do poeta, invadir tudo que ele toca, prendendo o visitante, arrebatando-o para seu mundo particular. “Essa decadência não existe”, afirma. “Os poetas existiram desde tempos imemoriais. Uns morrem, outros nos deixam coisas maravilhosas como Cássia Ricardo, como Vicente de Carvalho, Manuel Bandeira, Drummond e, sobre todos, Cecília \Meireles, a admirável Cecília”.

“NÃO MORRERÁ”

“Aqueles que se querem sujeitar a fórmulas estritas, 0pode ser que encontrem, dentro da fórmula, não uma coisa viva do espírito, mas uma coisa morta, uma maneira de dizer, uma coisa às vezes árida, às vezes até cacete”, continua Menotti. “Vejo tudo isso com absoluta segurança de que a poesia nunca morrerá”.

Sempre citando a pureza da poesia desde tempos remotos (“veja os tempos homéricos nos grandes poemas”), Menotti reconhece que “a poesia vive até na alma do povo”.

Ele gosta de comprovar sua afirmação recitando com voz forte e limpa “uma quadrinha de um caboclo que é uma coisa perfeita de beleza e transcendência: No seio da virgem mãe / Se encarnou divina graça / Entrou e saiu por ela / Como sol pela vidraça”;

“Esta quadrinha contém o milagre da concepção impoluída”, diz. Um filósofo levaria toda a vida para saber como um Deus poderia nascer na forma humana da criação”.

POLÍTICA: UMA INTRUSA

Embora a data de 20 de outubro tenha surgido por sugestão sua, Menotti Del Picchia lamenta não poder participar mais ativamente para divulgar a comemoração. “Preciso descansar. Agora estou terminando as minhas memórias, que são muito importantes. São toda uma vida política”, relembra Menotti, que teve intensa participação na vida pública, sendo deputado por quatro legislaturas, duas na área Estadual e as demais na Federal, além de desempenhar outros cargos relevantes na vida pública.

A referência à política, no entanto, vale apenas como justificação. Menotti não está interessado em falar nela e julga mesmo uma espécie de intrusa no assunto tão elevado da inspiração poética. Ele retoma o fio da meada: “A nossa geração, a de 22, foi uma geração excepcional, extraordinária”. E passa a falar de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida e outros. “Aqui, nesta sala, nasceu nossa conspiração que deu origem à Semana de Arte Moderna, em 1922”.

MOMENTOS DA LITERATURA

Menotti não pode sufocar o crítico literário que também pede passagem e diz que “faria um traçado no caminho abrindo talvez uns três ou quatro momentos em que a poesia brasileira se abrasileirou, ficou nossa e ficou grande”. Pedindo esculpas pela modéstia, faz referência a Juca Mulato. “Acho que Juca Mulato está na raiz da integração do nosso pensamento, da nossa alma, dentro da nossa natureza, liberto de qualquer preocupação de escola. Sai espontâneo”.

Em segundo e terceiro lugares, Menotti coloca Cabra Norato, de Raul Bopp e Macunaíma, de Mário de Andrade. Finalmente, Menotti cita Cabral de Melo Neto com sua obra Vida e Morte Severina. “Tracei esta linha porque me parece que se caracterizou, em certos momentos de integração da poesia, nesses poetas”.

SAUDADE

No meio da discussão literária, Menotti abre um parêntese para falar das esposas, a primeira uma “criatura extraordinária que me deu sete filhos que me honram muito” e a segunda, Antonieta, “a maior pianista do Brasil, que foi para mim musa inspiradora e de quem ainda sinto falta nesta casa a saudade e a tristeza da ausência dela”.

Indagado quanto à admirável saúde, Menotti dá uma explicação: “Não fumo nem bebo”. Na origem de seus hábitos equilibrados, Menotti lembra o pai, “muito generoso, inteligente e bom. Era artista, pintor. E sóbrio”. E explica que fumou por muito tempo, mas “a certa altura deixei de fumar e foi-me um grande bem. Até gostaria de aconselhar a todos que não se envolvessem com o fumo porque essa intoxicação lenta com nicotina dá fatalmente em desastre”.

EDER JOFRE

Entrevista com o bicampeão mundial de boxe

“Ah, o fumo é o único vegetal que eu não consumo!” exclamou Eder Jofre, bicampeão mundial de boxe, categoria dos Penas, hoje afastado dos ringues. A enfática declaração foi feita aos redatores de Mocidade, Ivo Santos Cardoso e Almir Fonseca, no Clube Espéria, em São Paulo, onde o desportista passa boa parte do tempo livre.

AGORA A FAMÍLIA

À vontade, sentado no banco de cimento, junto da esposa, Cidinha, Eder fala de sua decisão de abandonar o boxe e aponta algumas vantagens imediatas. “Agora posso me dedicar mais aos filhos, à minha família. E também desfrutar mais algumas coisas que não me eram possíveis, como o clube, passeios etc.”. A esposa concorda, afirmando que “foi bom que ele parou”.

É o início da entrevista, mas Eder já demonstra preocupação em deixar claro seu modo de vida equilibrada: “Não sou de perder noites, ficar até de madrugada na rua, em boates ou festas. Prefiro uma festa em família”.

NA TV

Não tem sido muito fácil, para Eder, que nos 25 anos de sua carreira pugilística viveu às voltas com viagens, contratos, lutas e compromissos no Brasil e fora dele, lutas e compromissos no Brasil e fora dele, encontrar a tranquilidade que procurou afastando-se do esporte. Recentemente o boxeador resolveu participar de um programa respondendo a perguntas sobre a vida de Cassius Clay (ou Muhammad Ali). As pesquisas sobre a vida do lutador norte-americano e suas constantes viagens ao Rio para as gravações tiraram-lhe muitas noites de sono.

Eder foi impulsionado a participar do programa por motivações que iam além de 800 mil cruzeiros oferecidos a quem chega à etapa final. Ele acredita estar apresentando diante do público luma nova imagem do boxe, menos violenta, diferente da apresentada com freqüência nos filmes. “Quero mostrar que depois de lutar durante 25 anos ainda estou com os reflexos em ordem”.

PARA A ESPOSA, BOXE É PERIGOSO

Apesar de seu esforço para mostrar novos ângulos que atenuem a rudeza do esporte, sempre haverá quem leia as notícias dos prejuízos físicos sofridos nos ringues. E, por ironia, a própria esposa de Eder desabafou dizendo ter ficado contente com o afastamento do esposo pois “o boxe, queiramos ou não, é perigoso”. Por ocasião das lutas de Eder, Cidinha, declara que “ficava sempre muito nervosa”.

Descendente de uma família tradicionalmente devotada ao boxe, Eder acredita que teve sucesso por haver incorporado habilmente todas as orientações de técnicos e familiares entendido no esporte. “Fui captando uma coisa de um e de outro até chegar onde cheguei”. Mas Eder não esquece o povo, pois “muitos na rua me incentivaram a ganhar o título mundial”.

Abominando cigarro e bebidas alcoólicas e também atribuindo à ausência de vícios parte de sua vitória, Eder abriu largo sorriso quando indagado por que não faz propaganda de produtos tóxicos como fumo e bebidas. “Essa é a melhor pergunta que você me fez”, disse, e continuou afirmando que durante toda sua vida tem dado muitas entrevistas mas “pouquíssimos fizeram essa pergunta, se é que alguém a fez”.

“FUMO MATOU MEU PAI”

Éder é categórico contra cigarros e bebidas. Ele acredita que seria muito prejudicado em sua carreira caso fumasse. Com a morte do pai, Eder descobriu mais uma razão para lutar contra o fumo: “Quando meu pai sentiu que estava com câncer no pulmão, largou de fumar, mas infelizmente era tarde. Quando papai morreu o médico disse que a morte dele foi ocasionada pelo fumo, pelo menos em 99%. Ele fumava muito: até três maços de cigarros por dia”.

Emocionado com a lembrança do pai, a quem deve grande parte de sua vitória no esporte, Eder passa a discorrer longamente sobre o fato de o hábito que assassinou seu pai continuar ainda sua obra destruidora. E adverte que “alguns poderão dizer: ‘mas eu não fumo tudo isso’. Calma, infelizmente você talvez chegará, lá, num momento de aflição, de nervosismo, de tédio.

“O QUE É O VÍCIO!”

Eder parece ler avidamente tudo que lhe cai nas mãos sobre fumo e seus prejuízos. Pedindo desculpas “e encurtando a história para não ficar uma entrevista chata, pessimista”, conta a história de um fumante que atacado de câncer na garganta ateve que aprender a falar por meio de um aparelho colocado no pescoço. Horrorizado Eder continuou dizendo que o homem estava tão viciado que passou a fumar “por aquele furinho que tinha na garganta”. E concluiu penalizado: “Veja só o que é o vício!”

Juntamente com frases que demonstram sua repulsa ao fumo, Eder faz uma declaração surpreendente quando diz, sério: “Não vou dizer que não bebo”. Olha para o repórter, e, deliciado com a surpresa, arremata dizendo que “bebo água, suco de fruta, vitaminas”.

Comentaristas esportivos de toda a imprensa brasileira têm observado com surpresa a extraordinária resistência de Eder que se tornou bicampeão mundial numa idade em que a maioria dos boxeadores são considerados velhos demais para sequer lutar. Eder acredita que o segredo de sua resistência deve-se ao fato de não comer carne, alimentando-se com um regime vegetariano equilibrado.

REGIME DE CAMPEÃO

Coalhada, germe de trigo, leite, melado, pão e manteiga estão presentes nas refeições de Eder pela manhã. Al almoço, saladas, verduras, arroz – “recomendo o arroz integral” – ovos fritos ou cozidos podem estar servidos ao almoço. “Gosto de comida diversificada”, diz o campeão. E acrescenta: “E não como muito”.

Eder, que nada come nos intervalos entre as refeições, reafirma que só come carne vegetal. “Quando me perguntam se como peixe, frango, eu respondo: ‘E o que é isso? Não é carne?’ Alimento-e também de ovos e leite, frutas, verduras. Tudo muito equilibrado”.

O DESAFIO DO MOTORISTA

Observando de perto, equilíbrio sempre foi uma das características de Eder Jofre. E este se revela também quando provocado. Há algum tempo um motorista de táxi o desacatou na rua, desconhecendo que seu passageiro poderia causar-lhe consideráveis estragos se utilizasse um de seus poderosos diretos.

Recordando o incidente, a esposa do boxeador declarou que pediu paciência a Eder, que ficasse calmo, pois não valia a pena discutir. E o motorista foi embora. “Nem sequer soube que havia discutido com Eder Jofre”, concluiu Cidinha.

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Ivo Santos Cardoso
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Jornalista, escritor, divulgador da medicina preventiva e modo de vida natural

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