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Entrevista com Orlando Vilas Boas

Entrevista com Orlando Vilas Boas

“Índios dão lição para o civilizado em todas as linhas”

O quadro pendurado na parede do pequeno escritório já está meio amarelado, mas são perfeitamente visíveis as letras negras que o encimam: Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – Fundado em 12 de novembro de 1904. O quadro, que se encontra no posto de compras para o Parque Nacional do Xingu, foi dedicado aos irmãos Vilas Boas – Orlando, Cláudio e Leonardo – em 1957 e é a manifestação de reconhecimento por aquele instituto do “trabalho patriótico e desinteressado, desbravando e abrindo novas rotas de progresso de nossa pátria”.

Dezesseis anos depois da homenagem, a imprensa continua noticiando o trabalho dos Vilas Boas na tarefa ingrata e perigosa de contatar novas tribos. Sempre “abrindo novas rotas do progresso", já atraíram a mantêm contacto com 16 tribos.

Atualmente Orlando é diretor do Parque Nacional do Xingu e tem sob sua direta responsabilidade a proteção de parte dos 180 mil índios que vivem no Brasil. Em entrevista exclusiva para Mocidade, Orlando fala de seu trabalho entre os indígenas, seus costumes e valores e defende a tese indigenista da preservação da cultura indígena no seu próprio meio.

Há quanto tempo se dedica ao trabalho com os índios?

Orlando: Faz mais ou menos 32 anos que Cláudio, Leonardo (já falecido) e eu saímos para o interior do Brasil em direção do Oeste, rumo ao Araguaia, no Xingu e participamos da expedição Roncador-Xingu. Quando estávamos na área encontramos índios no Brasil Central, na área do Xingu, e passamos então a trabalhar com eles.

Qual a razão que os levou a ficarem trabalhando com eles?

Orlando: Se você atravessa uma área e encontra povos que estão necessitando de assistência por causa de males que você mesmo, ou seja, a civilização levou, é natural que você dedique atenção a essa gente, pelo menos para minorar um pouco o sofrimento.

E quais são esses males?

Orlando: São todos esses que temos numa cidade grande, coqueluche, gripe, infecções pulmonares e todos os males, especialmente infecciosos desconhecidos aos índios. (Orlando aponta para uma índia doente, trazida dias antes). Essa índia é uma prova disso. Tudo são males da civilização para os quais o índio não tem defesa alguma para enfrentar.

De que lugar ela é?

Orlando: É uma índia calapalo do grupo linguístico caribe. Ela veio com os médicos da Escola Paulista de Medicina que vão periodicamente à área do Parque Nacional do Xingu não só para proceder à vacinação como também prestar assistência.

FLECHAS E ESCARAMUÇAS

Houve alguém que vocês possam considerar como influenciador no trabalho com os índios?

Orlando: Não existe propriamente um elemento X. Conhecíamos toda a obra do marechal Rondon. Já havíamos lido obras de grandes exploradores que andaram pelo interior do Brasil, como Couto de Magalhães, Amílcar Botelho de Magalhães e também a série de trabalhos contidos dentro das conferências do marechal Rondon, fazendo referências à Comissão Rondon. Todo esse acervo imenso de nossa história da penetração talvez tenha motivado nossa permanência dentro da área.

Quantas tribos já contataram?

Orlando: Estamos em contato permanente com 16 aldeias. Todas reagiram de uma ou de outra forma ao nosso contato, algumas correndo, outras flechando, outras ainda fazendo escaramuças, mas todas elas reagindo ao contato Mesmo esta aqui (voltando-se para a índia) era uma menina de uns dois ou três anos quando chegamos à aldeia. Os calapalos fugiram para a mata e foi com muito trabalho que regressaram à aldeia onde estávamos.

Que tribos ou aldeias deram maior trabalho?

Orlando: Sem dúvida os índios enquadrados dentro da família lingüística Ge. Os índios da família Ge são de índole agressiva e deram maior trabalho. Inclusive, os últimos que contatamos, os cranhacores, esses que a imprensa chamou de índios gigantes, também pertencem à família Ge. Foi um trabalho intenso, insano, a atração desses índios.

Você disse: “Que a imprensa chamou de gigantes”. Eles não são gigantes?

Orlando: Não. A notícia de que eram gigantes surgiu porque quando fizemos a atração dos txucarramãe, encontramos entre eles um prisioneiro que media 2,05 metros de altura. Naquela época mandamos a notícia para a imprensa e a imprensa começou a tratá-los de índios gigantes. Isso foi divulgado. Agora que fizemos a atração desses índios, e que já apareceram mulheres e crianças no contato, a imprensa continua a chamá-los de índios gigantes, mas vimos que são de estatura normal. Os índios da família Ge têm estatura pouco mais elevada do que os índios das demais famílias. Entre os cranhacores encontramos, com bastante frequência, índios com 1,80 e 1,85 metros. Excepcionalmente encontramos índios com 1,90 a 1,95 metros.

O MAIOR PERIGO

Qual o maior perigo que vocês têm enfrentado nesse trabalho de aproximação?

Orlando: O maior perigo é o sertão. Através dos surtos de malária da coisa terrível e incômoda que é o pium, o borrachudo, os mosquitos, os pernilongos. São essas que coisas que atormentam o indivíduo no sertão.

E as flechas?

Orlando: As flechas ficam em segundo lugar e muito distantes. É preferível você enfrentar um índio bravo do que enfrentar uma região infestada como a do rio Peixoto de Azevedo, infestada de tal modo que você nunca poderá imaginar o que vem a ser...

Vocês usaram armas alguma vez para defesa pessoal?

Orlando: Não, nunca usamos armas. Tivemos que correr algumas vezes, outras vezes soltamos rojões para manter os índios à distância enquanto fugíamos do local.

OS ÍNDIOS GIGANTES

Quando começou o contato com os cranhacores?

Orlando: A primeira vez que vimos os cranhacores foi em 1950 e então eles desapareceram e aí surgiam em 1968, Eles tentaram uma aproximação com o destacamento da FAB na Serra do Cachimbo, mas essa aproximação não foi compreendida pelo pessoal do destacamento e eles tirotearam os índios com metralhadoras e uma série de coisas...

Realmente eles não têm obrigação nenhuma de fazer contato com os índios e até foi muito bom que não fizessem, pois os índios estariam numa situação pior ainda. É pior para o índio fazer contato com uma frente indiscriminada, sem nenhum preparo nem disposição para uma aproximação dessa natureza do que permanecer na mata bruta, agressivo.

Por uma solicitação da Aeronáutica ao Ministério do Interior, fomos levados à atração desses índios no fim de 1968. Por falta de recursos, em 1970 foi abandonada a pacificação cranhacore. A aproximação foi reiniciada recentemente com a reabertura da rodovia Cuiabá-Santarém, que passou por dentro de uma das aldeias cranhacore. O trabalho de atração foi intensificado.

O Cláudio ficou encarregado dessa frente do Cachimbo com 25 homens, partiu para o rio Peixoto de Azevedo acompanhado do serviço de topografia do batalhão encarregado dessa abertura, que é o 9º Batalhão de Engenharia. Tivemos muita sorte de haver na direção desse batalhão um oficial de alto nível, arejado e que deu apoio à nossa frente que sempre a mais difícil.

Feito isso, o traçado de topografia cruzou a área e descemos com nossa frente em direção da aldeia dos índios e fizemos um posto de atração distante dez quilômetros das aldeias principais. Foi ali que se deu todo o contato com os cranhacores.

Há algumas características especiais dos cranhacores com relação às demais tribos?

Orlando: Não. Alguns dos parentes dos cranhacores têm costumes especiais como aquele botoque de madeira incrustado no lábio inferior. O cranhacore é o tipo de Ge sem o botoque. Mas tem os mesmos hábitos de seus irmãos com o botoque. As casas são muito rústicas, não têm uma agricultura pesada, é uma cultura média, só de batatas e bananas. É uma agricultura fácil, daqueles que o índio, quando tem fome, tira e come. Não existe nada que escravize o agricultor. Ele vive num semi-nomadismo. É o processo comum a todos os índios que são mais coletores e caçadores do que agricultores.

MACHADO DE PEDRA

Em que estágio da civilização se encontram os cranhacores?

Orlando: Encontram-se no estágio do machado de pedra. Trabalham com o machado de pedra derrubando árvores com ele. Assim, o objeto que eles mais apreciaram com a nossa chegada foi o machado de ferro. Uma árvores que eles levavam três ou quatro dias para derrubar derrubam agora em dez, quinze minutos.

Há estudos em andamento para a interpretação da língua dos cranhacores ou ela já é conhecida?

Orlando: Não, a língua ainda é totalmente diferente. São índios Ge, sem dúvida alguma, pelo artesanato, pelos artefatos, pela moradia, pelo tipo de gesto pela postura. Agora, quanto ao idioma, percebemos que a língua é Ge, mas devem falar um cruzamento dessa língua qualquer que poderá ser a tupi ou a de índios cruzados com eles ou pelo menos que tenham mantido grande período de influência. Foi identificada como Ge, mas não tem nada com ela. Colhemos um vocabulário que pode dar a um linguista a certeza de estar diante de um grupo Ge.

CATEQUESE: BOA QUANDO OPORTUNA

Como encara o trabalho de missionários religiosos entre os indígenas?

Orlando: Em princípio acho que o propósito de todo e qualquer missionário é sempre bom, principalmente quando deseja ajudar o índio, no aspecto assistencial, não no aspecto de uma catequese religiosa que destrua todos os valores que constituem quase que a força de sua cultura e de sua razão de viver. Isso põe em perigo a estrutura cultural dessa gente.

Isso tanto é verdade que no Concílio Nacional dos Bispos do Brasil, esse processo de catequese já não é mais aconselhado. Eles aconselham que o índio deva manter-se dentro de sua própria cultura, com todos os seus valores vivos, sem a preocupação de substituir esses valores, pois isso é impossível. Acho que a preocupação de dar a Bíblia aos índios deve ter o seu lugar depois. Precisa-se primeiro curar o índio. Livrar o índio das áreas onde há tuberculose e males muitos mais sérios.

É O QUE PRESTA

As missões adventistas que tenho visto em contato com os índios são as que melhor têm tratado o índio. A catequese religiosa vem depois. Primeiro vem a assistência. As missões adventistas são realmente muito boas com relação ao índio. Acho que essa preocupação com a catequese religiosa devia ser para mais tarde. Vamos nos empenhar primeiro na catequese religiosa do sertanejo. Se você soubesse... Quando vamos contratar trabalhadores no sertão, os que forem adventistas são os preferidos. Sabe por quê? Olhe temos experiência própria disso... Somos no Brasil talvez os últimos a trabalhar com grupos sertanejos por um tempo tão grande. Tivemos uma expedição que duraram 18 anos. Nessa expedição transitaram mais ou menos umas oitenta criaturas. Os adventistas não têm vícios, não têm malandragens... Tem aquele negócio de não trabalhar no sábado, mas isso não tem a menor importância. É preferível você parar aos sábados tendo certeza de que trabalha com gente que não se embriaga, que não cria problemas de ordem moral. Isso é muito importante. É uma ressalva que faço.

Xavantina, um lugarejo quase fundado por nós, era um lugar muito tumultuado. Todo mundo que fugiu para esse lugarejo – que é a base da Fundação Brasil Central, antigamente uma entidade federal – todo mundo que bandeava para lá era foragido de garimpo ou perseguido pela polícia. Chegavam lá, e por falta de braços eram contratados. No fim tornou-se uma verdadeira miscelânea, luma coisa brutal; eram brigas, facadas, o negócio mais desordenado possível.

Um dia chegou um missionário adventista e começou a fazer pregação. Já tínhamos igreja, tínhamos um padre com cinquenta anos de batina e oitenta de vida, mas chegou um adventista e começou sua doutrinação. Conseguiu conquistar um terço de Xavantina. E esse terço é o que ainda presta no lugar. É o que presta.

TAUARRU

Soubemos que vocês trouxeram um menino para São Paulo, Tauarru. Foi o único?

Orlando: Tauarru é um menino que o Cláudio trouxe. Eu criei o pai dele e o Cláudio criou a mãe. Fizemos os dois se casarem e o primogênito, que é o Tauarru, é mais agarrado ao Cláudio do que aos próprios pais. Ele mora com o Cláudio desde que nasceu. Está no primeiro ano do ginásio, é muito estudioso e vai muito bem. Estava no Instituto Luzwell, onde terminou o primário. Creio que saiu de lá por questão de distância. Lá todos gostavam dele e ele se dava muito bem no Instituto. Se Tauarru tivesse que ir para outro colégio teria ido para o Instituto Adventista, lá perto de Itapecerica. Seria uma educação excelente para ele. Só não foi porque no lugar onde está morando o colégio é muito perto, a meio quarteirão de distância.

Além desse índio, outros têm vindo a São Paulo?

Orlando: Têm vindo e ficado aqui dois, três meses. Houve um que ficou até um ano. Quando voltou, integrou-se imediatamente. Na porta do avião já se despiu e no dia seguinte estava todo pintado, participando de todas as atividades de sua comunidade.

Inicialmente a gente poderia pensar que a cultura do índio é muito frágil, que se dilui facilmente em contato com outras culturas. Mas não é. A cultura do índio é muito forte. Ele reage. Tanto assim que os missionários salesianos, que estão em contato com os bororos há sessenta anos conseguiram reduzir os cinco mil índios para 45... Desses, cinco já rezam missa em latim... Pagaram um tributo muito pesado, não é?

SÓ TEMOS A APRENDER COM ELES

O que você diz da moralidade e valores dos indígenas?

Orlando: Dão lição para o civilizado em todas as linhas. Em compostura, em comportamento, em atitude, em conversa, em tudo. Nesse particular, na questão ética, na questão moral, no comportamento do índio dentro de sua comunidade, dentro de seu grupo familiar, só temos a aprender com eles. Mas estamos distantes deles de uma distância como daqui à Lua... Ensinam em tudo. É impossível você ver um índio dizer um palavrão, fazer um gesto obsceno.

Em 32 anos de contato com índios nunca vimos algum deles fazer um gesto indecoroso ou dizer uma a um outro índio que não merecesse respeito. Trabalhando como trabalhamos com uma grande faixa quase marginalizada de nossa sociedade – o pobre do nosso sertanejo, desamparado completamente – o que é que você vê? É esta gente que entra em contato com o índio.

Qual deve ser a linha geral a seguir por quem se dedique a trabalhar com os indígenas?

Orlando: Quando à sua formação, é necessário amor ao tipo de trabalho que se quer executar. Um trabalho feito com boa vontade e interesse real já é um grande prêmio. Um grande prêmio que o índio recebe.

Em segundo lugar, é preciso firmar a conceituação da política indigenista. Defender sempre a tese de que infelizmente, não existe lugar para o índio em nossa sociedade. Os valores são totalmente outros. Não podemos nem mais chamar os índios de povos de cultura primitiva. São povos de cultura paralela. O índio só sobrevive dentro de sua própria cultura.

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Ivo Santos Cardoso
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Jornalista, escritor, divulgador da medicina preventiva e modo de vida natural

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