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Vida e Morte do Artista

Vida e Morte do Artista

Um famoso escritor do século dezenove, em dado momento de sua existência, vê-se assombrado pela mesma angústia de um personagem seu, que numa obra escrita anos antes, confronta-se com duas questões primordiais: achar uma explicação para a vida ou matar-se. Se esta atribulação já existia há muito tempo no autor, e o personagem fora o primeiro vestígio de um sentimento que o tomaria efetivamente mais tarde, isso pouco importa. A questão é que, não obstante a nobreza que trazia no sangue, a vida financeira sossegada, a harmonia familiar, a consagração como um dos maiores escritores de seu país, ele compreendera que já não conseguia enxergar propósito para dar prosseguimento tanto para a sua obra quanto para a sua própria existência. De repente, tudo se torna enfastiante, estranho e indiferente. O desgosto da vida se apodera dele. Contudo, fecha no armário o fuzil de caça e decide empreender uma busca angustiosa por um sentido mais profundo para tudo.
          Felipe Tavares, no ano de 2003, residente de uma pequena cidade da Região Metropolitana do Recife, já não encontra substância ou forças em si para tal. Mais preciso e imediato, delibera por um caminho mais cômodo e menos angustiante que a procura por qualquer sentido que pudesse existir da vida. Numa manhã, quando acordou, uma ideia, como um relâmpago, iluminou-lhe o cérebro.
Felipe Tavares nunca conseguira ser um grande esteta. E\ com o passar dos anos, percebia que a poucos era dado o recobrir-se desta laje sepulcral da glória extemporânea. Compreendia que iam se esgotando, inclusive, as possibilidades de sua criatividade perante uma existência que se mostrava maior e incontida no seu desejo de consagração imediata e a obtenção de uma vida plena. E assim se pegou tomado de paixão não mais pela arte, como a dos grandes homens, e sim pelo absurdo da vida como algo vivo e urgente.
        Pelo absurdo da vida, que numa manhã de domingo lhe assomou na imagem de uma mulher. Que se vestia comportadamente, mas que guardava nos olhos o brilho intenso da sua adolescência perdida. E possivelmente fosse algo também para aplacar o desejo anterior de realização literária, e que se apresentava então em outra espécie de sentimento. Chegou a pensar que tudo em sua vida fora para moldá-lo, não para outra coisa grandiosa ou póstuma, mas para ela tão somente. E que tudo se resumia a duas ou três palavras, já tão desgastadas pelo tempo, mas que conferia à sua existência um valor inestimável. E ditas assim, ao ouvido dela, teve um efeito bem mais devastador que tudo que já tivera escrito e louvado em outrem.
          Em pouco tempo, casaram-se. O Felipe Tavares tinha uma pressa lancinante por tudo. E, mesmo depois, tão pouco tempo depois, de ainda compreender que aquela existência então era tudo que ele poderia desejar, entendeu que algo de fato lhe faltava. E foi o que começou o afligir. Substancialmente quando acordava na madrugada e se pegava a presenciar a Flávia em sono tranquilo. O desejo de expressar-se literariamente o assaltou mais uma vez. Entretanto, já não conseguia colocar em palavras o que lhe acometia; aquela energia incomum, que outros tão bem transformaram em diamante linguístico, era algo que só lhe causava inquietação.
          Algo divino, no entanto, lhe reservava a vida.
       Numa manhã de sábado, sua esposa veio despertar-lhe com o anúncio da gravidez. Sem palavras, ele compreendeu que já não lhe cabia ceder nada à vida, e sim receber dela. Sorriu com esta conclusão e voltou a dormir.
         No sétimo mês de gestação, porém, a Flávia faleceria em razão de complicações no parto. Dera à luz, contudo, a uma bela menina que também pouca chance tinha de sobrevida.
          A Jaqueline, entretanto, cresceu tão meiga e bela como fora a sua mãe. O Felipe Tavares, muitas vezes, confessava não conseguir disfarçar, em dados momentos, a felicidade ao ver aquele anjinho em seus braços, depois de quase aceitar o fato de que também já estaria morta. Isso também matizado com um pouco de angústia, ao enxergar naquele rostinho a parte da criatura que antes mais amara na vida.
          A experiência da perda fez-lhe criar a Jaqueline como se prende entre as mãos uma pequena borboleta preste a fugir. Queria apertar-lhe em seus braços, mas temia esmagar o seu frágil corpinho de asas e sua mãozinha de uma tepidez translúcida, que a fazia não parte dele. Embora a trouxesse sempre presa numa de suas mãos, a outra, livre, desenhava formas abstratas no ar.
         Aos seis anos de idade, efetivamente, vítima de uma doença congênita, ela faleceria. Deixando apenas a lembrança, suas pequenas coisas materiais, suas roupas, sua letra confusa - tão semelhante à dele - a caixa de música, que parecia guardar, mais que qualquer coisa, a essência anímica dela. 
              Por longos seis meses, ele viveu como numa espécie de letargia.
Numa outra manhã de domingo, como iluminado por uma ideia, levantou-se precípite. Saiu para rever alguns amigos. Procurou sorrir com eles, do que sempre achara risível. Encontrar algum tipo de interesse na conversa com uma garota que ele conhecera então. Mas nem mesmo o contato daquelas longas e roliças pernas, por baixo da mesa, o fazia sentir não mais que um débil desejo de satisfação sexual. 
Sem preliminares, tudo aconteceu. 
Ao retornar para os amigos, apenas para despedir-se, encontrou-os suficiente bêbados para não compreenderem a maneira diferente de abraçá-los. 
           Caminhando de volta, decidiu que já estava tudo consumado.
Resolvera então compor algumas cartas para amigos e familiares. 
Terminando tudo já perto do amanhecer, cansado, decidira dormir.
         Ficou surpreso ao acordar, já quase à hora do almoço, a facilidade impetuosa com que conseguira cair no sono, encontrar-se ainda vivo e irredutível na decisão tomada anteriormente. Observou as cartas ainda por selar, pois considerara razoável enviá-las pelo serviço postal em vez de deixá-las simplesmente junto ao seu corpo, sobre a escrivaninha. Levantou-se, tomou um gole de café e saiu. 
Selou as cartas e depositou-as numa caixa dos correios. 
Numa mercearia comprou três metros de corda, um vidrinho de raticida e uma pequena navalha. 
No caminho ainda encontrou o seu pai. Este, aliás, queria falar-lhe. O Felipe Tavares afirmou estar cansado, precisava dar um cochilo, que à noite estaria recomposto. Abraçou o pai, como se até lá fosse transcorrer toda uma eternidade, toda uma vida, ou não fosse restar muito dela.
          Uma grande dúvida, que angustiou alguns dos grandes homens, era descobrir uma maneira de manter-se vivo por séculos e séculos. A imortalidade, desejada por tantos e alcançada por poucos. O Felipe Tavares, chegando em casa, a única dúvida que ainda proporcionou a vida foi uma forma eficiente de livrar-se dela. A resposta veio-lhe quando observou o grosso barrote que facilmente suportaria o peso de seu corpo. Preparou tudo, subiu sobre uma cadeira, deu um longo suspiro, aquele que decidira ser o último suspiro de sua vida. Contudo, nesse mesmo instante, alguém bateu à sua porta.
         Sofregamente livrou-se da corda no pescoço. E ainda com as mãos trêmulas, abriu a porta.
        Surpreso, talvez decepcionado, observou uma garota, de aproximadamente treze anos de idade, malvestida e um pouco suja, pedindo esmolas. Pensou na sua filha mais uma vez. E, de repente, um estranho sentimento o dominou. Pediu que a garota o esperasse. Entrou, sentou à mesa e passou a redigir uma última carta. 
Sentia-se inspirado naquele instante. Desejaria que aquela inspiração o tivesse tomado por toda a vida. Em pouco mais de meia hora encheu uma dezena de páginas. Tivera a impressão de que aquilo que compusera seria o seu “De Profundis”. Muito embora, naquele instante possuir tanta certeza disso, ele sabia que lhe faltava o julgo do tempo do qual ele não participaria. Colocou as folhas num envelope, não selou, apenas colou ligeiramente.
        A garota, impaciente, encontrava-se já a certa distância quando ele a chamou. Ao entregar-lhe a carta, ela estranhou, já que a princípio imaginou que no envelope contivesse alguma soma em dinheiro. Ele explicou tudo, a carta era para ser entregue a outra pessoa. Feliz com a promessa que de alguma maneira seria recompensada, ela pôs o envelope dentro de sua surrada bolsa e retirou-se.
Aos 83 anos de idade, o grande escritor russo, então amargurado, desiste de tudo, de sua missão entre os homens, abandonando a casa e deixando o rasto luminoso de uma obra imensurável. Alencar, ao entrar, subiu em uma cadeira, ainda na posição abaixo da corda, e enforcou-se, deixando escritas doze cartas e um longo escrito de pouco mais de dez páginas. Que, ademais, foram atiradas numa poça de água imunda, nada mais restando do artista.

 

(do volume de contos "O Mecanismo das Horas")

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