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Uma moldura para vovó

Já fazia três meses que anunciaram estado de calamidade pública, eu comecei a trabalhar em home Office, como mexia com artesanatos não tinha problema em mudar da loja para casa que era onde guardava muitos dos materiais.

Eu recebia diversas encomendas variadas, e quando saia de casa sempre seguia as regras sanitárias impostas, ninguém na minha família tinha ficado doente o que era um alivio, infelizmente outros não tem tanta sorte, a cada dia os números subiam, porém não estava preocupada, pois parecia surreal pensava sempre de modo positivo.

Até que no quarto mês uma cliente antiga me liga pedindo uma encomenda de um porta-retratos com cristais coloridos pela moldura. Era uma senhora muito simpática que sempre ia à loja comprar algum bordado e eu apreciava sua companhia, como ela não especificou um prazo apenas disse que quando ficasse pronto era só ligar que ela viria buscar, então trabalhei com tranquilidade já que cristais tão pequenos precisavam de toda paciência para serem posicionados, além de como eu sabia que ela tinha netos pequenos também precisaria me garantir que não soltariam e as crianças acabassem pegando e colocando na boca.

Depois de uma semana, com a moldura já pronta resolvi ligar para avisar que podia buscar, eu encontraria com ela na calçada para entregar o pacote. Mas ela não estava atendendo, como ela era uma idosa resolvi ir até lá pessoalmente, estava de tarde e ela morava alguns quarteirões abaixo, então coloquei minha máscara e desci a rua tranquilamente, o lugar estava deserto assim como naqueles filmes de zumbis, o silêncio quase dava medo.

Assim que cheguei bati palma no portão, fiquei esperando e quase estava indo embora quando a filha da minha cliente abre a porta de casa e grita de lá.

 – Posso ajudar?
– Eu tenho uma encomenda para dona Clarisse. – Nessa hora a moça fez uma cara de choro.
– Um minuto! – Então ela entra em casa e alguns segundos depois sai usando uma máscara também, segurando uma carteira e um lenço, ela se aproxima o suficiente apenas para esticar o braço. – Desculpe, eu não sabia que ela tinha encomendado algo, foi tão de repente...
– Como?
– Minha mãe faleceu há dois dias, devido a esse novo vírus.
– Eu não sabia... Meus sentimentos. – Eu também estava com vontade de chorar.
– Também não sabíamos, sabe ela não gostava de nos preocupar e não nos falávamos muito. – Ela dá um riso fraco enquanto limpava discretamente uma lágrima com o lenço. – Quanto é?
– Não precisa se incomodar, moça. – Eu tentei argumentar, mas a moça insistiu então acabei aceitando o dinheiro. Ela abriu o pacote e elogia a moldura, se despede de mim e volta para casa, antes que pudesse fechar a porta eu pude ouvir uma criança dizer;
– Podemos colocar uma foto da vovó nela, já que não nos deixaram vê-la.

Eu me sentia entorpecida enquanto subia a rua para casa, até aquele momento eu não tinha tido contato com ninguém que tivesse passado por aquilo, eu havia esquecido que não estava tendo funerais, nem visitas ou despedidas. Tinha ouvido apenas nas noticias quando me dava o trabalho de ligar a televisão, sempre olhava para tudo com positividade porque não tinha pensado em como isso está afetando os outros.

Ao chegar em casa lavo as mãos, e pego meu celular estava tão ocupada trabalhando que não tive tempo de ligar para minha mãe, enquanto o telefone chamava minha ansiedade crescia com medo de que alguém atendesse no lugar dela e me desse más noticias. Mas para meu alivio ela atendeu, ela estava tão feliz que liguei que quase chorei, fazia muito tempo que não nos víamos ou conversávamos.

Então contamos uma para outra tudo o que fizemos nesses últimos meses dentro de casa, enquanto conversávamos decidi que não fazia mal eu tirar alguns minutos do meu dia para ligar para alguém próximo para ter certeza que as coisas estão bem, afinal nunca se sabe o dia de amanhã.

INfluxo
Anne Souza
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Escritora e artista iniciante...

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