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Uma crônica sobre mulheres - Délia

Uma crônica sobre mulheres - Délia

                                                                                                Ione Morais

      Estava tudo preparado para o casamento da moça mais desejada da cidade, bem na véspera do aniversário de nascimento do Salvador, data em que Rubinho, a mãe, uma fervorosa católica escolhera para o casamento de seu rebento mais precioso.    Uma cidade qualquer, bem lá do interior do Brasil, nos   idos anos setenta, quando os pais já não podiam mais conter de alegria por casar a única moça da família. Tinham esperado tempo demais, pensavam eles. Como a menina, chegado quase aos quarenta, sem haver se interessado por ninguém a ponto de querer ter o seu próprio ninho?  Ainda mais ela, que irradiava beleza, desde os pés até os fios de cabelos negros e encaracolados que lhe caíam pelo meio das costas. Era só ela passar que os olhares dos rapazes se perdiam até a próxima curva. Mas a jovem   borbulhante, nunca quis saber de nenhum deles, achava-os tolos e sem graça.

      Em seu coração reinava a certeza de que seu príncipe encantado ainda chegaria. E chegou. Não montado em um cavalo alado, mas a bordo de um moderníssimo Ford maverick azul.   Aportou na pensão de seus pais, procurando um lugar para dormir.   O galante rapaz, com traços dos povos rom, a fez estremecer por inteira. 

     Os dias foram passando, o forasteiro decidiu que ia ficar por ali mesmo, naquela cidadezinha nada atrativa e   entre um convite e outro para ir ao cinema, Délia   se viu perdidamente apaixonada e com vontade de casar.  Não demorou muito para que o escolhido do seu coração lhe pedisse a mão.  A mãe e o pai ficaram meio ressabiados com   aquilo, no entanto, o que interessava era casar a filha que já ia ficando pra titia, como diziam os mexeriqueiros de plantão.

    A cidade ficou em polvorosa.  Os rapazes, que já não eram tão jovens assim, se sentiram traídos, mesmo os que já tinham constituído família. Não achavam justo, vir um estranho   e arrebatar a garota dos sonhos de todos eles. As mulheres, que competiam idade com ela, e que também já tinham seus broncos maridos, a invejavam. “Como podia ter tanta sorte?”  Indagava   umas às outras.

     Enfim, o tão sonhado dia chegou.  Délia, com um chiquérrimo vestido vindo da capital, entra na igreja toda ornamentada pelas próprias mulheres da família. Estava linda e sorridente, olha para o menino Jesus numa manjedoura que fazia parte da decoração, como que para pedir-lhe uma benção especial.  O pai, todo orgulhoso, conduz e entrega a filha ao viçoso cigano que chegara assim, sem dizer de onde vinha, e nem pra onde ia. A mãe, enxuga as lágrimas e tenta sorrir.

     Depois das bênçãos do padre e de cumprimentar os convidados na festa,  recém-casados entram no carro enfeitado com penduricalhos natalinos, seguem para a fazenda da família. Uma casa grande e rústica adornada com luzes coloridas e enfeites próprios que a época mais charmosa do ano requeria, e ficava bem no meio de árvores, riachos   e pássaros cantarolando ao raiar da manhã, era o lugar perfeito para a romântica lua de mel. 

O noivo com seus braços fortes a carrega porta adentro, como se fosse uma pluma. A noite de núpcias tinha sido tão especial, que ela   adormecera profundamente, para então acordar no outro dia com o barulho que vinha da cozinha. 

      O amado esposo, estaria preparando o desjejum, pensou, sorriu por uns segundos, cobre a cabeça na tentativa de adormecer novamente. Sua mente fervilhava, decerto ele viria cobri-la de beijos para despertá-la, como faziam os amantes dos contos que ela devorava nos finais de semana.  Porém, as horas passam, e nada dele aparecer.  

      De camisola apenas, sai do quarto e vê a porta   da sala entreaberta. Corre para espiar fora da casa para ver o carro, mas ele também não estava lá.  O maverick azul e o seu misterioso dono tinham sumido, assim, do nada.   Délia espera por horas a fio sentindo seu coração sangrar. Porém, no mais profundo do seu ser, amargava a certeza de que ele não voltaria jamais, uma vez que, nunca tinha lhe dito sussurrada mente: “Eu te amo!”

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