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Um conto sobre homens ... Samanduco

Um conto sobre homens ... Samanduco

 

Ione Morais

Ele nem sabia por cuja causa tinha esse apelido. Na verdade, seu nome era Benjamin Divino Flores III, mas desde que se conhecera por gente, o chamavam de Samanduco.

“Apelido mais ridículo”. Pensava ele, toda vez que alguém o pronunciava.

Viúvo e solitário, vivia em uma cabana no meio de uma planície banhada por um rio bastante caudaloso, que descambava em uma cascata reluzente perto de sua plantação de bananas, onde ele passava a maior parte do dia limpando, colhendo e encaixotando as frutas que vendia na feira da cidade.

Nos finais de semana, arrumava a matuta em um embornal, iscas e a varas de anzóis no ombro e lá ia ele para a parte mais densa do rio pescar umas trutas. Consigo, também carregava a foto de sua bela esposa e do filho recém-nascido, que nem chegou a ver crescer. Os dois, mãe e filho, desapareceram quinze dias depois do parto, e foram encontrados sem vida após três dias de buscas, no mesmo lugar em que o velho Samanduca gostava de pescar.

Na época, enfrentou suspeitas, acusações, interrogatórios, pois todos acreditavam que ele tinha assassinado a mulher e o filho. O que o salvara, fora uma carta endereçada ao padre da paróquia que ela frequentava, quando ainda era uma garota. Na carta, pedia perdão para o que estava prestes a fazer, pois não aguentava a dor e a solidão de ter que cuidar de um serzinho tão pequeno e que chorava muito. Falava também do imenso amor que nutria pelo marido e que sentia muito em ter que deixá-lo sozinho nesta vida.

As correspondências que chegavam à igreja, não eram lidas, apenas abençoadas com o toque das mãos e orações feitas pelo clérigo e depois guardadas numa arca de madeira até certo tempo. Por isso, Samanduco ficara preso por quase um ano. Ele não se importava muito com a prisão, pois considerava a tragédia que tinha se abatido sobre sua família, era muito mais martirizante do que a cela fria e úmida em que se encontrava.

O caso, bastante conhecido na cidade, finalmente ia ser julgado, quando um menino, abriu passagem pelo meio do povo que se aglomerava na porta e nas janelas do fórum como um furacão, adentrando pelo salão até o juiz, entregou-lhe o envelope enviado pelo pároco.

– Julgamento suspenso até segunda ordem. Disse o magistrado batendo o martelo, e levantando-se bruscamente dando as costas ao público, saiu pela porta lateral sem dizer mais nada.

Dias depois, o jornal da cidade noticiava que Samanduco tinha sido julgado inocente e solto.  Pela prova material contundente,  dava conta de que sua esposa tinha cometido um ato de insanidade contra sua própria vida e a de seu bebê.

Passaram-se os anos, Samanduco, não quis se casar novamente. Em seu íntimo, levava uma pesada culpa por não ter sido capaz de impedir o ocorrido. Conservava o mesmo amor pela esposa, como no dia em que se apaixonaram num baile, quando eram bem jovens.

Certa manhã de domingo, como de costume, ele arrumou-se para ir à pesca. Caminhou pelas trilhas no meio do mato e chegando à beira do rio, sentou-se na raiz de uma árvore. Tirou os biscoitos que levara consigo, comeu-os, bebeu vinho na boca da garrafa e adormeceu.

“Benjamim Divino... Benjamin Divino Flores III!” A voz suave o despertara  de seu sono. Era Olívia, sua doce e amada esposa chamando-o pelo nome de batismo. Somente ela o chamava assim, porque dizia que ele tinha nome de príncipe.

O sol inclinava-se para dar lugar à cheia lua que impacientemente aguardava sua vez de brilhar no céu, quando Samanduco caminhou lentamente e submergiu para sempre nas águas profundas, onde seus maiores amores jazeram.                                                                        

Imagem de Dean Moriarty por Pixabay 

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