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Terminais #7 - ESTAÇÃO FRANCO DA ROCHA

Terminais #7 - ESTAÇÃO FRANCO DA ROCHA

 

                                                                                    I

 

                                                                                                                    (...) um jovem casal se beija

                                                                                                                          confessam segredos que

                                                                                                      até o final da viagem terão o valor

                                                                                                             de um bom dia dito às pressas

                                                                                                                                    - Mikhael O. Simões

 

– ESTAÇÃO FRANCO DA ROCHA. Desembarque pelo lado direito do trem – disse.

Sempre a mesma canção: muitos passageiros descem; sobem ainda mais. Chega a ser tragicômico falar de distanciamento social e outros cuidados quanto à pandemia em um local onde cada metro quadrado é disputado.  

Franco da Rocha é um entreposto comercial das periferias de São Paulo destas bandas, um grande mercado-dormitório onde o que se vende a preços baixíssimos são as horas e a força de trabalho do precariado. A estação parece um porto seco, menos quando alaga. A cidade está encrustada entre o interior e a quebrada, ambos insones. Casas, barracos, esgotos a céu aberto e as gambiarras dos fios elétricos unem-se como se fossem cartões postais que magoam as vistas. Tais realidades repelem os gostos da estúpida classe média, que, alheia, enxerga a si mesma como algo muito distinto dessa condição.

 

A primeira e última grande loucura deste país é a condição humilhante dos pobres e os serviços a eles destinados. Foto In: https://diariodacptm.blogspot.com/2011/04/obras-na-nova-estacao-de-franco-da.html

Franco da Rocha, mais uma das crateras entre mares e morros. Da janela do trem avisto lugares que desconheço, posso ver a geografia, muito embora me escape o que nunca conhecerei por completo: a singularidade de cada ser humano. Vielas irregulares construídas numa arquitetura insalubre. 

Eu nasci longe daqui, num bairro onde o operariado vive sisudo de segunda a sábado para, enfim, descontar tudo o que ressente aos domingos, em lazeres que acabam num instante. Não sou da quebrada, não vim do gueto, levei poucos enquadros, todavia, sei que o subdesenvolvimento da ilha Brasilis – oitava (falsa) economia mundial – é algo que atravessa a mim e a muita gente.

O trem fecha as portas.

A composição engasga, não arranca – imita o país.

Demora um pouco para que o vagão vazado recomece a andar. O trem em transe arrasta-se preguiçoso: crianças estropiadas berram; o reino dos marreteiros está de novo instaurado; e proliferam, tensas, camisetas de times rivais.

Não sei se hoje é dia de jogo, não sei se hoje é dia que valha ser lembrado.

Num desses relances de distração meus olhos esbarram na adolescência à frente: um casal efebo troca carícias, segredam – será que Aquiles e Pátroclo cuidavam assim das feridas um do outro? Os meninos sentem medo, sabem que podem apanhar, sabem que a hostilidade é lei e sabem que ainda hoje serão xingados de viados, de bixinhas, de fresquinhos, mas não retrocedem no carinho. E isso é o que importa.

O trem não sai. O transporte público é uma jaula. Isso sim é aglomeração.

“Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”, gaba-se um dos nossos hinos. Somos herdeiros de uma nação que, há menos de um século atrás, acreditava ser normal encarcerar nas mesmas celas pessoas com transtornos mentais e negros recém-alforriados que vagavam juntos a presos que cometiam crimes hediondos.

Herdamos uma república, cujo Estado é a perfeita máquina de moer gente e onde o único triunfo é o da amnésia social.

Juquery, palavra cujos significados contrastam porque emudecidos foram os povos tupis. Nesta quilometragem, o que a ferrovia também reverbera é a história de mais de cento e vinte anos do asilo de alienados. A Santos-Jundiahy é um legado sombrio.

 

Hospital de Alienados do Juquery da Província de São Paulo; opera desde 1898. Posteriormente esta repartição tornou-se o Quartel do Segundo Batalhão de Guardas. A história da catástrofe humana do nosso país passa por essas dependências. Foto In: .https://pt.wikipedia.org/wiki/Hospital_Psiqui%C3%A1trico_do_Juqueri#/media/Ficheiro:Quartel_do_Segundo_Batalh%C3%A3o_de_Guardas_24.jpg

A ferrovia e o rio atraíram interesses peculiares. O Hospital do Juquery já teve uma porção de nomes, mas o mais adequado seria inferno: maus tratos, abandono, prisões políticas, torturas, estupros, incestos, empalamentos, infanticídios, suicídios, assassinatos, envenenamentos, ingerências, abortos, mutilações, canibalismos, são apenas algumas das palavras que exalam das paredes desse local.

Nesta região Juquery é ainda sinônimo de algo maldito, de um terror duradouro que sequer é sussurrado nos dias de hoje. Capítulos e mais capítulos dessa legenda obscura viraram pó, foram consumidos pelo fogo e pela desmemória.

A história do Brasil é uma escada espiralada com degraus que exibem coisas abjetas, sim, uma escadaria – e, quando se trada dessa antiga colônia, cada degrau é a véspera de algo pior, não importa se é subida ou descida. Juquery, um labirinto de dor e sangue que não estanca: Brasil-sangria.  

– A CPTM informa: Os assentos com indicação são de uso preferencial. Respeite esse direito – disse.

E se os loucos se levantassem contra nós, que nos julgamos gente sã? E se, numa calma manhã, como a de hoje, eles acordassem dispostos a cobrarem vendeta pelo que a humanidade os fez passar?

Uma das especialidades dos porões do Juquery era a prática, quase sempre sem avaliação clínica e cuidados específicos, da eletroconvulsoterapia, mais conhecida pelo nome de eletrochoque. Acredita-se que centenas de milhares de sessões desumanas em que a eletricidade estimulava convulsões ocorreram através dos anos, inclusive como forma de tortura, sadismo e entretenimento macabro. Sobretudo as pessoas que eram diagnosticadas com perturbações alucinatórias – o que viria a ser um dos sintomas da esquizofrenia – sofreram atrocidades.

Não foram somente os sustos com banhos frios, as humilhações próprias a qualquer forma de encarceramento, a subnutrição, os espancamentos ou, ainda, a crueldade do convívio que moldaram a fronteira muito ínfima entre a presumível normalidade e a imagem que se tem da loucura.

As sociedades sempre lidaram de forma violenta contra os seus “malditos”. Prisões, hospícios, manicômios, sanatórios, reformatórios, escolas, monastérios, quartéis, internatos, convênios, orfanatos, casas transitórias, etc. Esses lugares em que a vida é expressa para além dos limites de civilidade são os circos de horrores diante dos quais nós fechamos os olhos. Os vagões também são palcos diários de castigos.

Esse hospital psiquiátrico foi um expiatório de gente viva, houve tempo em que uma das alas das mulheres era habitada somente por lésbicas. Li em um livro que um casal de jovens que se amavam muito foi trazido pra cá com o consentimento das duas famílias – uma da região de Jundiahy, outra proveniente da capital federal à época, Rio de Janeiro, ambas as famílias ricas, que temiam ver seus nomes na cloaca dos escândalos.

As “condenadas” teriam trocado cartas em tons amorosos (contendo pétalas de rosas, girassóis, lótus e lírios); manifestavam certas inclinações para a vida boêmia e trajes masculinos quando estudaram juntas, em São Paulo; e sonhavam criar uma espécie de escola para moças que queriam ser livres e independentes.

Quando chegaram ao Juquery seus pertences foram confiscados, em seguida, tiveram seus cabelos raspados, suas unhas dos pés e das mãos arrancadas à pinça e, uma delas, foi imediatamente medicada, nos meses seguintes teria passado também, sob o consentimento do pai, um grande cardiologista carioca, por dez sessões de eletrochoque, para “curar-se” dos vícios e o amor sexual pelo mesmo sexo.

Os suplícios assemelhavam-se a Auschwitz, Guantánamo ou à Sibéria, mas essas dores não serão recontadas nas telas de cinema, não ocuparão as prateleiras destacadas do século XX, século de calabouços.

No terceiro ano de sua estadia, a moça carioca, que já não possuía dentes, suicidou-se após ter ingerido meia dúzia de molas de uma velha cama que dividia com outras duas internas – isso foi em 1956. Da outra moça nada mais se soube para além dos rumores de que, durante anos, havia sido violentada por três enfermeiros, ela apagou-se no tempo.

Somente em maio de 1990 a palavra homossexualidade nasceu. O termo homossexualismo deixou de ser visto como doença ou transtorno psíquico. Mas os preconceitos continuam.

 

                                                                                              II

                                                                                              (...) não há mais segredos para o casal

                                                                                     eles dormem enquanto os trilhos dançam

                                                                                                                                   e o céu é impossível

-                                                                                                                                     Mikhael O. Simões

 

O trem suburbano acelera em busca da sua exata velocidade, à procura de sua obrigação diária de cavalo férreo, segue entupido de gente, todavia, na promessa de encurtar distâncias. Podem-se ouvir os fios elétricos debatendo-se na tarefa de energizar todo o resto – convulsões e espasmos do nosso mundo frágil.

Há no teto uma ventilação muito ruim, barulhenta, que zumbe nos ouvidos. Aqui não é o trem bala japonês, não é um TGV que singra os vinhedos do centro sul da França, não é sequer uma maria-fumaça ou um idílico trenzinho do caipira que vem trazer algazarras de progresso, mas é o que temos, melhor dizendo; é o que nos resta dessa era de desindustrialização.

E a juventude continua a insinuar-se diante de todo mundo: o jovem casal adormeceu. Um recostado no outro, num quase-amálgama de paz perpétua.

– A CPTM informa: evite acidentes, não sente no piso do trem – disse.

Um sacolejo desperta o seráfico Diadorim que se descola do peito rijo do seu Riobaldo. Ambos notam que enquanto dormiam eram esquadrinhados por olhos de velhotas neopentecostais com cabelos compridos enrolados em coques e saias jeans horríveis. Os meninos notam outro casal, senhor e senhora, muito idosos, que se equilibram próximos à porta do trem.

O trem se despede da atmosfera de mercado marroquino de Franco da Rocha

São voluntariosos os dois garotos, cedem seus lugares, agora vão em pé, adiam um possível beijo de língua, mas seguem firmes e não menos abraçados.

 

 

INfluxo
Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino
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Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino, é escritor, poeta e professor de filosofia. Acredita, sem demagogia, que a literatura tem como função humanizar as pessoas.

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