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Terminais #3 - ESTAÇÃO CAMPO LIMPO PAULISTA

Terminais #3 - ESTAÇÃO CAMPO LIMPO PAULISTA

                                                                                                                                                                    “(...) É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo,   embriaguem-se! Sem cessar, embriaguem-se! De vinho, poesia ou virtude, a escolha é sua”.

– Baudelaire

 

– A CPTM informa: é proibido o consumo de bebidas alcoólicas nas dependências das estações e no interior dos trens – disse.

O mais estranho da linha 7-Rubi da CPTM é que todas as pessoas parecem conhecidas entre si, são compadres e comadres. Todos os rostos se igualam no mesmo cansaço, numa espécie de condenação à espera. Um purgatório precarizado de desconforto, barulhos e ansiedades, regidos por relógios sem ponteiros. Ser um indivíduo; uma persona que desponta; ou diluir-se nas massas, eu não sei bem o que isso significa, não agora. Os vagões sempre cheiram a coisa azeda, parece que fraudas de uma criança sem afeto foram esquecidas aqui.

Os casebres de tintas descascadas de sempre surgem para mim: tímidos, numa paisagem conturbada. Mais próximo à vista está o pátio das fábricas que geraram esses municípios natimortos, depois há uma garagem com a frota de ônibus acabados. Todo mundo daqui e das redondezas sabe: a Rápido Luxo Campinas, máfia-empresa de viação, não é rápida, não é luxuosa e nem mesmo é campineira. E ano após ano aumentam as tarifas, sempre as mesmas facadas contra bolsos pobres.

 

O trem velho da CPTM que vive abarrotado, tudo exala descaso e pobreza. Foto In: https://www.flickr.com/photos/gttsu/5763531901/

 

Tenho ainda a recordação de amigos e amigas de Campola City; a maioria debandou e quem permaneceu já não aguarda tanto as minhas promessas de visitas sempre adiadas. Nos primeiros anos do novo século que se amontoavam entre as dobras de dois milênios, tudo o que a gente queria era não estar onde havíamos nascido: Jundiahy, Várzea Paulista, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Cajamar, Itu, Campo Limpo Paulista, Louveira, Cabreúva, essas terras e nomes nos repeliam por conta da tremenda apatia, por conta da ausência de outras formas de vida, enfim: por conta da caretice das ruas.

Mas São Paulo, a capital, não repercutia assim. Sempre foi mais atraente para nós que duelávamos contra nossos bairros periféricos. Um flerte, uma possível insinuação de amor-sujo com a megalópole infinita. Vagabundear, beber, usar drogas, apartar da mente os problemas, roubar livros dos sebos, dar uns beijos, encontrar outras amizades, sonhar com a vaga naquela universidade, sair na porrada, rir enquanto uma calçada larga era devassada pelos nossos pés eufóricos, ver um cineminha alternativo, shows fodas e gratuitos, amores e putarias diversas; tudo isso compunha a brisa emitida pela Babilônia Cinza, que muitos chamam de Sampa.

As nossas senhas para sumir do interior sempre foram: rolê com a Paula, curtir a Paula, beber & foder com Paula. Qualquer canto de São Paulo sempre foi mais foda que as noites de sábado em nossas avenidas e pracinhas de adolescentes bêbados. A 9 de julho, em minha cidade, é igual a tantas: sempre há desfiles de carros dos ricos sobrenomes.

– A CPTM informa: é proibido o consumo de bebidas alcoólicas nas dependências das estações e no interior dos trens – disse.

Para nós, filhos e filhas de operários, que morávamos afastados de qualquer centro, o melhor era essa espécie de exílio torto, uma rebelião a favor dos excessos. Alguns momentos que sentíssemos viver um eco das vidas dos rockstars que nos deseducaram.

Nossos pais e mães vestiam pijamas recorrentes: do-trabalho-pra-casa & da-casa-pro-trabalho e nós jurávamos que não seríamos assim, mas todo juramento dá brechas à traição.

Sempre que possível, íamos, sós ou em bandos, encarar as horas dentro do trem, com garrafas enrustidas, por lazer, por uma necessidade devoradora que é própria da juventude. O desembarque já bêbado nas baldeações do metrô era a marca da transgressão, de certo tipo de vida mais espraiada, livre da rotina tosca da cidadezinha.

Enfim; dar rolê com a Paula.

Não duas, nem três, nem quatro vezes varei madrugadas esperando o primeiro trem que me levasse de volta ao interior. Aquela sensação amarga de destilados fermentados no estômago vazio não incomodava, mas hoje pesa, muito.

É claro que vi, com todo fascínio que foi possível, o mundo nascer somente quando longe do meu lar.

A CPTM informa: é proibido o consumo de bebidas alcoólicas nas dependências das estações e no interior dos trens. – disse.

E o Magrão? Sim, meu camarada Magrão. Nesse passado achegado que vivemos ele foi uma espécie de condutor das insanidades, conhecido em todo canto, suas mãos ainda hoje dividem a tarefa de tocar violão ou guitarra em bares e, entre uma música e outra, manusearem cigarros e copos americanos de suco de macaco. Muito antes de ser para nós um flautista doido-varrido de Hamelin, Felippe Astolfine, experimentou a ausência dos pais alcoólatras, já aos três anos de idade ele e o irmão mais novo eram criados pelos tios, que trocavam murros e também viriam a falecer de cirrose. Magrão, sempre indo de galho em galho, sempre um sem-lar, sempre trançando as pernas, uma força inquieta com a mochila-casa nas costas, um apátrida dos carinhos, um dos párias do nosso interior. Magrão, sim o Magrão, quanta amizade emana dos seus olhos míopes. Ele e eu fazemos aniversário na mesma semana e para ambos o trem significou por muito tempo a possibilidade de afastar-se das angústias que moraram em nossas casas.

A pequena estação tem o piso todo lascado e a duração de um único sorriso. Campo Limpo Paulista e não Paulistano, aqui tudo é longe, aqui a memória tremula minha nostalgia exagerada. Magrão, sim, o Magrão. É mais um dos amigos com quem não converso há anos. Quanto mais o trem e o tempo avançam mais percebo que minhas amizades esparramadas por aí mereceriam um nosso abraço. Mas isso não mais será possível.

 

INfluxo
Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino
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Hildon Vital de Melo, o Camaleão Albino, é escritor, poeta e professor de filosofia. Acredita, sem demagogia, que a literatura tem como função humanizar as pessoas.

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