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Reflexões sobre o livro: Manual de limpeza de um monge budista de Matsumoto Shoukei

Reflexões sobre o livro: Manual de limpeza de um monge budista de Matsumoto Shoukei
Celso J.
fev. 10 - 5 min de leitura
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Uma vida simples permite voltar-se para dentro de si e concentrar todas as energias em cada instante.

Existe uma tendência velada que coloca o ser humano moderno em um fluxo em direção ao consumo e acúmulo de objetos, cuja finalidade é impedir a visão dos verdadeiros motivos causadores do temido vazio existencial. Esta sensação, que acompanha toda pessoa desde os primórdios dos tempos, sempre foi causadora de dois tipos de atitudes: ou a pessoa enfrenta o vazio e tenta compreender ou, pelo menos, aceitar a inexistência de uma resposta; ou a pessoa gera distrações para poder fingir que a questão não existe.

Por isso, é tão difícil para algumas pessoas viverem com poucas coisas – falo sobre aquelas que teriam a possibilidade de fazê-lo, diferindo para aqueles que nunca tiveram, de toda forma, a sensação de ter, seja algo material ou algo mais subjetivo, como a segurança de uma relação, é o opioide mais eficaz contra a visão verdadeira de nossa fragilidade.

Quem tem coragem de viver com simplicidade, mesmo tendo a possibilidade de esbanjar, está a um passo de iniciar o caminho rumo a uma compreensão mais profunda da vida. Com poucos pesos, sobra energia para ver e viver.

Limpar não é somente o antônimo de sujar, é uma prática que conduz ao aperfeiçoamento espiritual.

Quando limpamos o mundo de fora, separamos as coisas que não servem mais, olhamos os cantos ocultos da casa, vemos os insetos e lembramos que nossa casa não é somente nossa, também limpamos o mundo de dentro. No meio deste processo, o espírito consegue entrar de uma forma mais fluida no estado de limpeza interior, trazendo com isso a possibilidade de transmutação de energias estagnadas e a limpeza de poeiras astrais. A problemática do sujeito ocidental é que o ato de limpar foi colocado em uma posição de trabalho inferior, sendo uma função sem nobreza que cabe à mulher ou ao escravo. O fato é que todo aquele que está em uma posição de limpar os restos de alguém, nunca o faz com estado de presença e alegria, em realidade realiza a ação esperando o momento de terminar e que um dia possa progredir em sua vida e possa ter alguém que limpe sua sujeira. Nos casos das mulheres, até mesmo essa esperança lhes é tirada. Por isso, se faz necessário aprendermos mais sobre humildade e absolver os conhecimentos de nossos irmãos orientais, principalmente os japoneses, que possuem uma grande sabedoria ancestral com relação à arte de limpar.

O conceito japonês de“ desperdício” não está relacionado apenas com a preservação das coisas, mas também com a gratidão por sua existência.

O conjunto social vive uma dinâmica de destruição do planeta, que acredito ser fruto da forma como lidamos com nossos resíduos. Desde que começamos a ter lixo em aterros distantes de nossas casas, criamos uma ilusão de que tudo o que consumimos desaparece magicamente. Embora, de um ponto de vista racional, todos saibam o que acontece com o lixo, somos seres guiados principalmente por conceitos gerados em nosso subconsciente. Ao ouvir relatos de pessoas que largaram tudo e foram viver no mar em veleiros, é comum ouvir a ressignificação dessas pessoas em relação à sujeira, pois veem em seu dia a dia o reflexo da dinâmica humana transformada em armadilhas para tartarugas e golfinhos. Temos um problema grande demais, que talvez tenha ido longe demais. O que nos resta é “fazer a nossa parte”, tendo o hábito de arrumar as coisas e usá-las o máximo possível, cuidando com seu descarte e, principalmente, amor e carinho por tudo o que o objeto lhe forneceu. Sejamos conscientes para que a atitude de cada um seja uma faísca que pode trazer uma profunda transformação ambiental.

O poder da vassoura

Diz-se que houve um Buda que se iluminou enquanto varria o templo. Eu mesmo, sendo alguém que busca estar atualizado com as novidades tecnológicas e que usa redes sociais por gosto e trabalho, reconheço a ansiedade que esse mar de informações gera. O cérebro se acostuma com as doses de dopamina que recebemos quando encontramos algo que nos agrada, sem esforço nenhum. Isso gera resistência quando precisamos fazer algo que consideramos tedioso. Porém, sendo sincero, encontrei na limpeza consciente uma arma que consegue aliviar muitas inquietudes que, de outras formas, não foram curadas. Não me tornei o louco da faxina e nem é essa a ideia. Seguindo a filosofia do Kaizen, de passo a passo, podemos dar a volta ao mundo. Acho válido nos esforçarmos para trazer a balança para o outro lado, especialmente quando temos um mundo inteiro nos bombardeando com informações inúteis que, como disse no início, só servem para nos cegar da verdadeira realidade. Por isso, boa limpeza e que possamos ter uma mente tranquila e calma para desfrutar desta vida e sair dela com um fardo positivo de aprendizados e bons legados.



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