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“As Lágrimas que o Poeta bebeu”

Sebastião era um homem sem teto, sem chão, sem o calor que a humanidade dá sem esperar retorno. Vivia nas ruas na cidade e, agora com mais de sessenta anos, pouco esperava da vida.
Escrevia poemas em papeis que encontrava no chão. Comia quando se lembrava, e bebia sempre que podia. O dinheiro era um ódio de estimação, bem como o capitalismo instaurado na sociedade. Suportava a presença de pessoas, embora preferisse estar só. A bebida aquecia-o, e incitava-o a colocar no papel os seus infortúnios. 
A sua família já era pouca, e a que restava ignorava-o. Ébrio, era poeta. Sóbrio, era um corpo a definhar nas pedras que formavam as arcadas da rua principal. 
Numa noite fria, Sebastião reparou numa jovem que passava na rua. Era uma mulher de olhar triste, com roupas tristes, ainda que caras. Pela velocidade dos seus passos, parecia que os pensamentos, lentos, a atormentavam, acompanhando a música que soava nas colunas da rua. Sebastião chamou-a: 
- Jovem dama! Ó dama de face triste e bonita! Poderia dar-me uma moeda?
A mulher parou e direcionou o olhar para o velho sujo e trapalhão. Sebastião viu uma lágrima escorrer-lhe pela face, enquanto a jovem engolia todas as pragas do mundo. Levou as mãos à sua bolsa, para retirar uma moeda. Sebastião observou, mas o peso do verbo foi mais forte: 
- Agradeço muito a sua generosidade, minha bela jovem.
- Não trago muito dinheiro comigo, peço desculpa… - disse a jovem, de voz tremida, estendendo a mão com uma moeda. 
- Muito grato, mas triste! Por que chora? É Natal! Tempos de alegria, de companhia, de partilha e convívio!
- Peço desculpa – disse a jovem, limpando a face com um lenço branco – o Natal não acaba com os problemas…
- O Natal está para si – atreveu-se Sebastião – como este vinho está para mim! É servida, bela dama? 
- Obrigada, não bebo. O senhor não tem família? Está aqui, no meio da rua, sozinho… nesta época natalícia… faz-me confusão…
- E está preocupada comigo? – perguntou Sebastião, rindo-se – Os seus problemas não serão mais importantes do que eu? Que tormentos tem? Não lhe deve faltar amor, comida, copos a brindarem na sua mesa! 
- Nada me faz falta, a não ser o meu pai.
- Não tem pai? Morreu, acaso?
A jovem já não quis responder, adiantando alguns passos a frente, despedindo-se de Sebastião. Levantou a mão num adeus de quem já não tem força. 
Sebastião pegou num papel e numa caneta, que trazia no bolso, e tomou nota, rapidamente, de algo, e foi atrás da jovem. Pediu-lhe desculpa por ser importuno e deu-lhe o papel, já com pingos de vinho tinto. A jovem nem olhou para Sebastião. Parou mais à frente, para ler o que lhe tinha sido dado. 
Na nota dizia: “Quando quiser, tem, aqui, um pai para aturar. Seja Natal ou não, não lhe ralho nem a louvo. Apenas a ouço. Feliz Natal”.
A jovem sorriu, olhando para atrás. E, ambos, seguiram os seus caminhos. 

Helga Lima
Braga

(Inspirado no escritor Sebastião Alba, o qual tive o prazer de conhecer pessoalmente.)

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