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Quando não pude mais viajar, escrevi.

Quando não pude mais viajar, escrevi.

 

Nessa pandemia fiquei acuada, então resolvi escrever minhas viagens pelos Estados Unidos - Parques da Disney; África do Sul  - Joanesburgo e Cape Town; Índia;  viajar  e morar na Europa, tudo com pouca grana. E nasceu a série de quatro livros "Por onde andei".

ESSA VIAJANTE!

Minha saída do Rio de Janeiro se deu quando fui visitar um amigo, ele trabalhava na REDUC - Refinaria de Duque de Caxias e foi transferido para REPLAN - Refinaria de Paulínia; em minha estadia no interior de São Paulo - Paulínia.

Candidatei-me a uma vaga de trabalho que vi na publicação do jornal local: “Bibliotecária com experiência em organização de arquivo”; sendo formada em arquivologia pela Uni-Rio participei da seleção, por essa razão mudei para São Paulo, tendo como moradia a cidade de Cosmópolis, próximo a Paulínia e trabalhando na cidade vizinha, Campinas.

Tornou-se rotina eu cruzar a Dutra ou a ponte aérea São Paulo-Rio, por não querer ficar ausente da cidade maravilhosa, toda minha família estava lá. Quando chegava ao Rio era uma festa ou tormento, devido minha chatice em interferir nos costumes e na rotina familiar.

Após dois anos de trabalho no interior de São Paulo, e término da criação do Centro de Documentação, a empresa me concedeu uma bolsa de estudo para um curso de pós-graduação, com duração de dois anos, o valor era o preço de um carro popular no Brasil. As aulas aconteciam duas vezes por semana na Capital a 180 Km de Mogi Mirim, cidade que eu morava na época. Nos dias de curso eu chegava em casa quase uma hora da manhã e levantava às cinco para trabalhar. Que cansativo!

A solução que encontrei foi arrumar um emprego na Capital, por fim, consegui trabalhar em uma consultoria de organização de arquivo, uma furada, salvo pela absorção da empresa para a qual eu prestava serviço.

Era uma distribuidora de livros, sob direção de uma família de cristãos novos, refiro-me à religião judaica, até para não citar nomes, tenho muita gratidão a eles, foram dez anos de convívio e muitas brigas.

Era semana da Rosh Hashaná , ano novo judeu, final de setembro, decidira estudar nos Estados Unidos com o propósito de fazer intercâmbio para melhorar o inglês, a solução financeira era o valor da rescisão no pedido de demissão, então fui até a sala do lobo.

Meu patrão me disse: "...negra, classe média baixa, boa cultura, sem vínculo empregatício, você é tudo que um americano não quer no país deles".

Continuei sentada a olhá-lo e repliquei: “Posso tentar?”

E, naquela mesma noite, inesperadamente, ele me ofereceu 4 mil dólares, com a condição de que depois de trinta dias eu retornaria e continuaria a trabalhar na empresa. Esse foi financiador dos meus estudos, terminou de pagar minha pós-graduação e o intercâmbio em Chicago.

Pensando bem, sempre fui patrocinada nessa área: colégio público, meu pai; no cursinho pré-vestibular – um presente para o porteiro foi meu passaporte de entrada para os meses que não conseguia pagar – olha a corrupção aí em todos os níveis; fiz universidade pública; e, nas empresas nas quais trabalhei, pagaram cursos de acordo com seus interesses.

No curso de pós-graduação, um professor pediu meu currículo e o encaminhou para um serviço free lance na ABIN . Após ser convocada, fiquei trinta dias em Brasília fazendo curso de analista de informação. Não se tratava de um trabalho de espionagem, mas de conhecer as empresas de tecnologia de ponta e fazer relatórios, minha área de atuação foi o Polo Tecnológico de Campinas - Rodovia Governador Doutor Adhemar Pereira de Barros (SP-340).

Minha vida é uma confusão com as viagens, pois o intercâmbio coincidiu no mês da prova do concurso público da ABIN, a qual me vi obrigada a fazer, para legitimar meu interesse em permanecer na instituição. Então, retornei a São Paulo no final de semana da prova e no dia seguinte já estava no voo para os EUA.

Na tentativa de conciliar o trabalho nas duas instituições, abri minha empresa, Acervos & Serviços, para prestação de serviços em organização de arquivo, assim eliminaria a obrigação do cartão de ponto.

Duas décadas depois, as viagens como lazer se intensificam e os relatos perpassam pelo meu olhar, influenciados pelo meu contexto social, moradora da zona norte do Rio de Janeiro, classe média baixa, desbravadora por gerações, herdeira da diáspora africana, apaixonada por história e erguida por três pilares: meu pai, minha mãe e o pai do meu filho.

Não significa que o elo entre eu e eles seja excelente, mas o tempo e a distância dos fatos dão forma às relações. A vivência tem resultado positivo e negativo, reconheço a direção boa fornecida por eles, o resultado favorável, no meu ponto de vista, permita-me exagerar um pouco, maravilhoso; quando eu olho para trás e vejo  o resultado da dificuldade, a não conquista, o não possuir, e os diversos nãos que recebi me trouxeram até aqui.

 

ENFRENTANDO A DEPRESSÃO. MOMENTOS TERRÍVEIS!

O meu eu contra mim: um diálogo interno, uma luta contra pensamentos negativos, as amarras psíquicas, angústia (só sentia algo no peito), não havia motivo aparente, talvez, seguir a sociedade em busca dessa tal “felicidade” estava cansativo, precisava recriar outro formato de navegar pela vida.

O descontentamento em trabalhar só para pagar as contas; no trabalho a rotina do meu serviço, organização de arquivo e atendimento ao público, havia dois anos que pedia para chefia me mudar de setor, sem sucesso, resolvi enfrentar a segunda faculdade para ter outra opção, outra carreira.

A crise, que não era fantasiosa, entrava em conflito constante, mas era mental e silenciosa; os sinais eram: direcionar a culpa para os outros, endemonizar o meu querer e o meu gostar, infelizmente, essas atitudes mentais roubaram minha alegria.

Para tentar colocar a ordem na desordem, levei em consideração quatro passos:

1° O meu maior inimigo sou eu;

2° Gratidão;

3° Nosso comportamento é Nossa Loteria;

4° No trabalho não fazer o que gosto, muitas vezes, me garante fazer o que eu gosto: pago as contas e viajo.

Esses sentimentos poderiam ser uma premonição, porque nesse ano minha mãe faleceu, e, com esse episódio, eu desmoronei, o que já estava frágil quebrou.

No Dia das Mães a minha não me reconheceu ao chegar de São Paulo, fiquei chocada. Como, minha mãe não me reconhecer? A débil ali era eu, por não entender os acontecimentos, minha irmã já tinha comentado e me chamado atenção, havia meses, sobre a saúde mental da mamãe. Como eu era muito mal vista em dar opinião nos relacionamentos, nem processava; pensava, elas que se resolvam.

Entre a doença e a morte foi um mês, estava todo final de semana no Rio, mas como papagaio de pirata, não conseguia me aproximar, não conseguia cuidar, me sentia maltratada.

Depois da morte da mamãe, fiquei ausente do Rio de Janeiro por seis meses, devido ao estresse da partilha dos bens. Voltei na véspera de Natal, retornara da Índia naquela semana e ao chegar no portão da casa comecei a chorar, quarenta e nove anos sem a ausência dela, me senti desamparada, abandonada, frágil.

Os vizinhos, amigos da família, me viram chegar e se aproximaram com um abraço; foi importante esse momento, me senti acolhida. Não pensava em voltar a morar no Rio de Janeiro, mais de vinte anos só como visitante da Cidade Maravilhosa, mas a possibilidade brotou a partir dali.

Ao abrir o portão para colocar o carro na garagem, já recomposta da choradeira, meu olhar repousou na casa dos meus pais e, de imediato, revivi o ritual à margem do Rio Ganges em Varanasi. O sentimento manifestado naquele momento era de gratidão, que se materializou como uma limpeza espiritual, eliminando os maus sentimentos.

Eu tenho a crença de que o rancor e a mágoa são barreiras que não deixam fluir a vida, faço a analogia de um carro com motor ruim que percorre o caminho, mas com uns trancos. E eu nutria alguns sentimentos não saudáveis que nem eu sabia, entretanto foi aliviado, retirado das minhas costas como um cravo encravado. A imagem é semelhante com cravo da Índia, aquele botão seco da flor, que serve como condimento, isso sendo retirado das minhas costas, um a um, e cada unidade era um pesar.

Floresceu na minha mente e no meu coração o sentimento de gratidão pelos meus pais, brotou de forma inigualável – mansa, agradável, agitada, recompensada, feliz por reconhecer o privilégio da educação, criação e do amparo – uma árvore quando brota e floresce, essa flor era eu surgindo e olhando para baixo e enxergando todo o processo de germinação.

Herdei a casa dos meus pais, receber imóvel é diferente de ganhar dinheiro. Olhava, olhava e pensava, herdei um elefante branco com mais de setenta anos de construção e trinta anos sem reforma; a parte elétrica com fios obsoletos da época de enceradeira, não havia hidráulica no banheiro do segundo piso.

As comoções turbulentas surgiram, tive a impressão de escutar uma voz ao pé do ouvido, talvez seja a voz da razão: Tem um filho, vai deixar isso para quem?

O que fazer? Estava anoitecendo, era véspera de Natal, precisava caçar pedreiro, mas quem quer trabalho, não escolhe hora nem dia. O empreiteiro do bairro e conhecido da vizinhança foi ao meu encontro.

A reforma da casa estava resolvida tendo a solução financeira por meio de empréstimo bancário consignado, venda do carro e financiamento para construção, através da Caixa Econômica Federal em trinta meses. A intenção inicial era reformar para alugar.

Eu sou uma pessoa “planejadinha”, escrevo tudo e gosto de cumprir, cada coisa no seu quadrado, só o quadrado de emagrecer que é desativado sempre.

Quando meu pai faleceu fui fazer intercâmbio nos EUA, a viagem foi uma forma de escapar para esconder os sentimentos, e no da minha mãe fui para Índia, esses eventos sempre próximos ao meu aniversário. Cheguei a ser apelidada de “o anjo da morte”, visitava o enfermo e em seguida ele ia a óbito. Às vezes, esquecemos que a morte faz parte da vida.

Analisando minha caminhada ao longo desses cinquenta anos, sou um pouco inquieta, doida e feliz. Recomeçar a vida é um desafio grande, então a minha escolha de fazer faculdade de História me deixou mais sedenta por conhecimento; ao chegar de uma viagem já fico doida para viajar de novo, cheguei da Índia mais doida. Sair do emprego para morar em outro país por desejar viajar pelo mundo. Se não sou doida; sou, no mínimo, fora do padrão.

Escuto relatos e encontro pessoas que deixaram tudo e optaram viver com menos (dinheiro, excesso, bens ...), em busca de tranquilidade e liberdade. O processo de angústia é idêntico:

"Se eu não sair daqui irei adoecer e morrer”, então, venha para o clube, caso esteja no mesmo processo.

 

CONTAR SOBRE AS VIAGENS

A intenção não é descrever os lugares turísticos de forma minuciosa ou as vestimentas das pessoas, e sim, compartilhar de um olhar sentimental pela oportunidade de desfrutar do belo filosófico, do novo, observar e sentir a cultura local. Era inimaginável dentro do meu clã familiar há trinta anos, o assalariado de classe média baixa viajar de férias pelo mundo. Não havia incentivo, uma ausência que nos rouba o direito de imaginar.

 

QUER CONHECER A ÍNDIA? ENTENDA A ÍNDIA

A viagem à terra de Gandhi também teve um incentivo histórico, a dominação pelo Império Mogol no Norte da Índia. Adoro geopolítica, saber sobre as guerras e as circunstâncias que estão por trás desses eventos catastróficos. Mas ao chegar lá nem me lembrei do Império de Genghis Khan, líder dos Mongóis. A curiosidade pelo sagrado me dominou completamente ao me encontrar no panteão das divindades hindus.

Do aeroporto para o hotel, fomos de metrô – bonito, limpo, agradável, sem tumulto, no entanto, ao sairmos de lá havia tanta gente que a estação do metrô da Sé em São Paulo às cinco horas da tarde era como o conforto de Uber.

O que me chamou atenção de imediato foi o cheiro da cidade, não era ruim, para o meu olfato era agradável; distingui como incenso com poluição ou um corpo sujo que passou perfume e sobressai o aroma do perfume.

 

CIDADE DO TAJ MAHAL

No terceiro dia que estávamos em Delhi, conforme o planejado, fomos para Agra, visitar o Taj Mahal, um bate e volta de trem.

A cidade de Agra fica a duzentos e dez quilômetros de Delhi e atrai 3 milhões de turistas por ano para o Mausoléu Taj Mahal, classificado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Na época da construção, Agra era a capital do Império Mongol.

Fui vestida de Sari, vestimenta da mulher indiana, para passear no Taj Mahal, esse foi o meu pecado. O sanitário do comboio era de latrina no chão, eu de sari, não combinou eu enrolada naquele lençol brilhante de três metros.

Comprei-o no dia anterior, o rapaz da loja muito simpático falava um pouco português e queria treinar o idioma. Era uma loja elegante, convidativa para permanecer por horas.

Fiz um cursinho para aprender a transpassar aqueles longos lenços pelo corpo, pelo visto não foi suficiente. As idas ao banheiro do trem: agachar, segurar a vestimenta para não encostar naquele chão úmido, e não cair sentada dentro da latrina era muito para mim, ainda bem que não estava malcheiroso. Ufa!

Aliado a tudo isso ainda tinha a minha preocupação com a parada do trem na estação de Agra, olhar a placa de cada paragem e tentar entender a voz que gritava o nome do local.

A viagem foi relativamente confortável, com exceção dos percevejos; o comboio, embora velho, aparentava manutenção em dia, muitos ambulantes vendendo todo tipo de produtos, não consegui identificá-los se eram cadastrados ou autorizados.

Minha vestimenta estava composta de calça legging, uma blusa e o Sari entrelaçado; ao descer do trem tirei o sari, na realidade afrouxei para apertar mais na minha cintura, todos me olharam.

Percebi que minha ação não estava correta, pensei em amarrar o sari, sair dali e ninguém mais iria me ver. Porém, os policiais vieram em minha direção e a policial feminina pediu para eu acompanhá-la até uma sala e me informou que eu não poderia fazer aquilo ali.

Depois de ajeitar a roupa fomos para o Taj Mahal, Agra Fort, Tapeçaria e fizemos um tour pela cidade. O motorista, como todos, muito simpático. Eles se oferecem para comprar o bilhete dos monumentos que desejamos visitar, os restaurantes lhes dão comissão, se não dão, eles pedem. Senti-me o tempo todo segura, roubada não, mas ludibriada sempre, fez parte da viagem.

Desfilei pelo jardim com o Sari, que me envergonhara, construído para representar o paraíso imaginário dos muçulmanos, muito bem representado pela perfeição. Ah! Escrevendo o livro, vem o desejo de retornar à Terra de Gandhi, local muito especial, lembranças da excelente viagem.

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