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Por favor Universo!

Por favor Universo!

      Querido 2020, quer dizer, querido Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Fada madrinha, Energias que regem o universo ou seja lá o que estiver no poder de me agraciar com um único pedidozinho que venho aqui a fazer, eu imagino que no meio de uma Pandemia mundial que parou o planeta etc, etc, você esteja cheio ou cheia de orações, preces, desejos mas vou dizer porque é que vos falo com tanta veemência e porque é tão mais importante me ouvir...

        Pois bem, você deve estar se perguntando o que uma psicóloga brasileira recém-formada que conseguiu seu primeiro emprego no início do ano sem saber o que lhe esperava pela frente poderia estar passando em momento como esse não é mesmo? É claro que tudo parecia incrível, eu já tinha planejado todo o calendário pra conhecer os bares do bairro para o qual havia acabado de me mudar, e quem sabe até arrumar um mozão por lá? Afinal se minha vida ia bem profissionalmente, a vida romântica estava mais parada que a plantinha que deixei morrer no vaso de casa, eu sei, eu sei, era um cacto, uma planta quase impossível de deixar morrer, não precisa explanar minhas humilhações diárias não Senhor Universo, enfim, como ia dizendo, tudo parecia esperançoso para mim. 

       Quando se concretizaram os primeiros indícios de que o corona vírus chegara no Brasil e na minha cidade tão rapidamente, você não imagina qual foi a surpresa que tive ao saber que a empresa onde eu trabalho foi contratada para auxiliar em hospitais que estavam atendendo pacientes com COVID! Eu não fazia ideia de como elaborar formas de promover a saúde mental dos funcionários e pacientes que começavam a ter que trabalhar sob pressão e a lidar com tantas coisas ruins...

       Pronto! Os ingredientes para fazer um delicioso bolo de caos completo na minha vida de uma hora pra outra estavam todos misturadinhos na forma já untada com muita ansiedade e insegurança de quem vos fala e colocados no forno. Agora basta aquecer a 180 graus e esperar por alguns meses de pandemia. Sabe meu caro 2020, o que admiro em você? Tamanha perspicácia e talento para piorar as coisas gradativamente como se fosse um vizinho chato aumentando o volume do som e quando você percebe já está tão insuportável estar na própria casa que você só quer fugir PRA QUALQUER OUTRO PLANETA... Daí você respira fundo... fecha o olhos... vai tomar um banho... lembra que o mundo todo está um caos mesmo... e dá mais uma surtadinha de leve! Estou me delongando de mais no papo? Ah pronto agora o Sr. Universo quer ditar o quanto de tempo eu posso falar sozinha pra reclamar da vida. Juro que você vai entender tudinho quando perceber como meu pedido é simples e ao mesmo tempo extremamente vital. 

     Bom, estava lá eu no trabalhando muito mais do que o normal, afinal os casos não paravam de aumentar, a bendita da queda da curva não chegava nunca, eu e os outros funcionários do hospital competíamos pra ver quem tinha mais olheiras, nessas horas dava saudade do trabalho mais “normal” que eu estava exercendo quando a empresa que eu trabalho estava concentrada em resolver problemas internos. Contudo, os outros funcionários ganhavam a competição de cansaço na maioria das vezes por que quando chegavam em casa ainda tinham crianças pra cuidar e eu só tinha meu cacto pra tentar reviver, mas em compensação eles tinham alguém pra dormir de conchinha, eu só tinha meu travesseiro que às vezes eu fingia que era o futuro amor da minha vida (quem nunca?). Mas voltando, foi em um fatídico dia cheio de tarefas e complicações pra resolver que eu desmaiei pela primeira vez! Pois é, nisso que dá ter hipoglicemia e ficar trabalhando como se não houvesse amanhã e esquecer de se alimentar por muitas horas... Mas o lado positivo, aliás, o lado extremamente positivo, quase o lado mais interessante que havia me ocorrido durante o ano inteiro era que uma enfermeira estava passando por mim quando desmaiei, afinal eu estava cercada de pessoas que sabiam muito bem lidar com alguém desmaiando, ela me levou pra uma sala onde fui acordando... E foi quando quase desmaiei novamente quando vi aquela mulher que mesmo usando máscara parecia a deusa de toda a beleza em pessoa.

- Tudo bem?

- Acho que sim, o que aconteceu?

- Você desmaiou.

- Ah sim, esqueço que sou doutora em desmaios desde criança. 

Ela riu com os olhinhos pequenos, e provavelmente com a boca também, mas eu não conseguia ver por causa da máscara, ajeitou os cabelos marrom cacheados que me fizeram ficar apaixonada naquele mesmo minuto e disse:

- Ficar sem comer durante o serviço faz parte dessa formação de doutorado?

- Com certeza, mas em minha defesa com esses meses todos trabalhando nessa correria essa foi a primeira vez que desmaiei, até eu estou surpresa comigo.

- Já dizia minha mãe: parabéns por fazer o mínimo!

- Que absurdo! 

Ela riu aquela risadinha maravilhosa de novo e me deu um lanche. 

- Come isso e espera um pouco até se sentir melhor antes de voltar ao trabalho, qualquer coisa me chama, eu sou a Natacha. 

     Eu voltei até mais feliz, não vou mentir, e um pouco boba, fazia tanto tempo que eu não me interessava por ninguém, mesmo que superficialmente, que aquilo realmente me impressionou. Eu estava absorta naquela vida maluca há meses sem poder ver ninguém devido ao isolamento social e sentir o coração bater mais forte naquele momento por um simples crush foi como voltar a me sentir viva por dentro. Aquele dia realmente atípico foi acabando, eu fui para o ponto de ônibus meio aérea pra voltar pra casa e pra minha surpresa ela estava lá também esperando o ônibus.

- Natacha?

Ela se virou com uma cara confusa até me reconhecer.

- Eaí senhora dos desmaios, tá melhor?

- Estou sim, só não garanto por quanto tempo...

- Olha lá hein...

- Olha lá meu ônibus vindo hein... Parece que você adivinhou.

- Quer dizer que você também está indo pra Limoeiros? 

- Opa é lá que eu moro!

- Então vamos ver se a gente consegue entrar nesse ônibus, tomara que não esteja tão lotado.

     Nós milagrosamente conseguimos achar dois lugares um do lado do outro pra sentar, sim universo tenho que admitir que às vezes o senhor é gentil.

- Você também está trabalhando nesse hospital desde o início da pandemia?

- Não, eu faço plantões onde me chamarem, cada dia estou em um lugar.

- Meu pai amado, eu achava que minha vida era um caos, mas pelo jeito dá pra ser mais caótico

- Minha filha não duvide do universo, sempre dá!

    Olha eu vou dizer que eu já estava encantada mas em alguns minutos de conversa ônibus eu consegui de fato me apaixonar. Eu sentia minhas pernas tremerem e minha mão suar como se eu tivesse voltado a ter 15 anos de idade, eu só queria fugir do mundo naquele momento com ela e esquecer que tudo estava tão difícil de lidar, esquecer que tantas perguntas não tinham respostas naquele momento, eu estava absorta em um êxtase único, de uma experiência tão incompreensível que era lidar com você 2020. Eu fiquei com medo e ansiosa com o fim abrupto que aquele êxtase teria quando eu descesse do ônibus e sem nem pensar direito interrompi a fala dela e perguntei

- Você quer descer no ponto comigo e passar em casa?

     Assim que terminei de falar eu fiquei rosa e depois e vermelha e depois branca e ela só ficou em silêncio me olhando um olhar indecifrável que me matava. Eu ainda envergonhada tentei consertar.

- Eu moro sozinha e não tenho saído pra nada, só pensei que poderíamos continuar a conversa lá, mas não precisa ir, eu sei que estamos em uma pandemia...

- Tá tudo bem, eu também moro sozinha, e confesso que não vejo ninguém fora do trabalho há muito tempo, nem minha família vejo já que são grupo de risco, mas fiquei realmente surpresa com esse convite.

- Mas não precisa aceitar, eu entendo totalmente, tá tudo bem...

- Acho que tudo bem se continuarmos a conversa na sua casa.

     Nessa hora eu parei de sentir tudo da cintura pra baixo e eu voltei a variar de cores feito um camaleão. 

     Em casa eu estava mais a vontade, e vê-la sem máscara foi parte que me ajudou ter certeza que aquele dia era realmente inesperado. Nós acendemos um cigarro, ela riu do meu cacto morto, mostrou as fotos que ela tira profissionalmente, eu cozinhei uma lasanha de brócolis de última hora, não é por nada não, mas eu sei cozinhar muito bem, ficamos falando sobre sonhos presos no aquário da vida, tangos mal dançados e quando tivemos coragem de dar um beijo na sacada não tivemos mais coragem de nos desgrudar. Era uma mistura de cheiro e tato e conversas intermináveis e gargalhadas siderais pelo espaço da noite. As horas foram passando, e ela precisou ir embora pra alimentar o gato.

- Me dá seu celular vou anotar meu telefone.

     Eu dei meu celular. Ela anotou. Se vestiu devagar. Me deu um último beijo e um sorriso e foi embora. Eu fiquei uns vinte minutos boba olhando teto te agradecendo muito senhor Universo. Peguei o celular olhei o número dela e sem querer apertei o botão de voltar ao invés de salvar! 

     Sim é isso mesmo EU CONSEGUI FAZER A PROEZA DE PERDER O ÚNICO CONTATO QUE TINHA DA PESSOA MAIS INCRÍVEL QUE CONHECI NOS ÚLTIMOS MESES. Agora você entende por que estou aqui te suplicando Senhor Universo? Talvez a Natacha nunca volte para o hospital em que eu trabalho, mas ela mora nesse bairro, eu sei é um bairro grande, mas eu preciso encontra-la de alguma forma, preciso esbarrar com ela, ou encontra-la de algum jeito. Por favorzinho esse é o único pedido que te faço, juro. Sei que muito bem que você senhor Universo, é fã das histórias malucas, mora na esquina das coincidências e protege os distraídos como eu, através de lindos acasos, e dou aqui de bandeja, a oportunidade de escrever uma coincidência quase que metafísica! Um conto mágico num cenário trágico.

INfluxo
Geovana Morais
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Eu sou uma casa vazia mas tem um cachorro latindo dentro

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