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Pássaros engaiolados

 

 Cada ida com meu pai a uma consulta é um verdadeiro aprendizado, e nesse período de quarentena, única saída de casa com ele, a única diferença está nas máscaras que escondem as emoções. No começo tentava me distrair acompanhando o painel de senhas, que mesmo sem querer chamava atenção pelo sinal que emitia a cada sala vaga. Aos poucos fui percebendo o movimento ao redor e notei o quanto estava perdendo.

Neste dia havia um senhor sentado numa cadeira de rodas. A filha encostou a cadeira num canto e sentou-se um pouco longe. Fiquei a observar aquele senhor, devia ter quase uns 90 anos pelos sinais do tempo no rosto ou perto disso. Ele olhava fixo para o nada. Não emitia som, sequer fazia algum movimento. Havia no olhar desse senhor algo que me levou a acompanhar a cena e me fazer inúmeras perguntas. O que será que aconteceu? O que viveu até chegar a esta etapa da vida? Era como se ele estivesse num mundo paralelo ao nosso. A filha mesmo distante estava sempre atenta. Enquanto eu acompanhava a cena, ao meu lado estava meu pai, olhei para ele, estava atento ao painel e olhava sempre seu número na ficha para se certificar que não era sua vez. Voltei a observar o senhor. Uma lágrima escorreu de um de seus olhos e foi contida pela máscara, a filha também percebeu e correu com um lenço para enxuga-la mesmo assim. Em meus pensamentos as perguntas não paravam de brotar. Seria essa lágrima um sinal, o único que conseguiu emitir para avisar que, embora seu olhar perdido, ainda estava ali, mais consciente do que nunca, preso em um corpo cujo controle havia perdido? Um pássaro engaiolado pelo tempo. Não havia melhor definição para o quadro que eu observava. Parei por um instante para pensar nessa expressão e percebi que estamos todos nessa condição, todos pássaros engaiolados pela quarentena. A filha ao voltar para a cadeira, percebendo os olhares de outros acompanhantes sentiu a necessidade de se justificar, mesmo não tendo necessidade alguma. Talvez apenas a necessidade de colocar para fora o que aquela lágrima causava dentro de si. Seu pai já estava naquela condição por 11 anos. Antes disso era ativo, autônomo. Viúvo por 20 anos e morando com sua única filha, acompanhou boa parte de sua caminhada. Viu netos chegarem, crescerem e baterem asas. Como num passe de mágica começou a dar sinais de ausências que aos poucos iam sendo mais frequentes até que não voltou mais. Ela contou que foi diagnosticado com Alzheimer e vem sendo acompanhado. Relatou a dificuldade de saber quando ele não está bem, se está com alguma dor, mal-estar ou simplesmente triste pois a lágrima que viram nem sempre se faz presente.

Questionada por uma senhora de como era interagir com alguém que demonstrava não estar presente, ela explicou que no início ficou tão perdida quanto o olhar de seu pai, mas aos poucos foi buscando leituras, relatos, foi se inteirando sobre este mal que o acometia e passou a interagir como se ele a ouvisse, pois na verdade não encontrou prova de que isso não ocorria. Sempre falava como se ele fosse responde-la, contava histórias antes de dormir, piadas quando o banhava, viam fotos mesmo que seu olhar não acompanhasse o folhear do álbum, mas narrava as emoções de cada foto relembrando do dia que foram tiradas, faziam bolo e cantavam parabéns a cada ano que completava, tudo como se de alguma forma, mesmo preso num corpo que não respondia entendesse o que se passava como uma maneira de dizer a ele que o queriam de volta, que o amavam e que nunca o deixariam sozinho.  Neste momento já era visível a emoção que tomou conta de quem ouvia o desabafo e da filha que abria seu coração para desconhecidos. Fiquei a pensar. Como seria difícil não conseguir abrir a gaiola e dar a liberdade ao pássaro engaiolado, sensação de impotência total. Voltei a olhar meu pai, neste momento, cansado de acompanhar o painel havia adormecido, cochilava sem perceber o que acontecia ao seu redor.

Sala de espera é uma verdadeira sala de aula. Na maioria das vezes lamentos, desabafos, mas sem dúvida alguma o aprendizado acontece involuntariamente, basta abrirmos nossos olhos, corações e ouvidos.

Todo esforço nunca será em vão, pois nunca devemos desistir de quem amamos, nem que para isso tenhamos que adentrar inúmeras vezes a tal gaiola e envolver o pássaro com nosso amor.

                                                                                         FIM

INfluxo
Jacqueline Quinhões da Luz
Jacqueline Quinhões da Luz Seguir

Sou Graduada em Letras e Pedagogia, Pós-graduada em Neuro psicopedagogia, Docência do Ensino Superior. Atuo na educação a mais de 30 anos, sendo os últimos dois anos dedicados ao atendimento de crianças com dificuldades e distúrbios de aprendizagem.

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