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olhos de ressaca

olhos de ressaca

Ando com uma ansiedade fudida. No dia a dia, a angústia me pega com mais afinco. Na entrega que o cliente furou, no tênis furado, no brt lotado. São horas do meu dia observando os punhos levantados dos trabalhadores cansados a várias estações. Segurando com firmeza os ferros, como se seus equilíbrios dependessem disso; e dependem. Essa imagem anda me assombrando. Como se a sensação de conformismo e descontentamento do ambiente estivessem gritando no silêncio de um eco infinito. Ando sonhando com isso. Em suas aparições, as pessoas não tem rosto, não existe expressão, identidade. Elas me encaram e se torna impossível ler o que se passa em suas faces. A áurea do ambiente é sufocante. Não consigo me mover ou ao menos gritar. A cada dia, vejo mais de perto os rostos vazios, desesperada com o que posso encontrar. Na noite passada, dentre o emaranhado de pessoas, pude visualizar de pé, uma pessoa que despertou minha atenção. Alheia a tudo que se passava naquele cenário cinza. Enquanto todos me olhavam sem ter olhos, ela permanecia de costas. E em um piso em falso, expondo minha presença, ela vira e enxergo meu reflexo.


Tenho chorado demais. Esse sonho anda me abalando e ultimamente, tenho tido problemas com escolhas. Sinto como se todas andassem extremamente erradas. Isso ou aquilo? E se escolhi isso, aquilo não teria sido melhor? Mas que porra é essa? Isso me causa um estresse desagradável. A impaciência me consome.  A sensação de abandono me acomete. E cada vez mais repúdio o que me recorda dessa situação. Ando revoltada demais. E usando isso como força propulsora para não desabar a qualquer momento. Ando bebendo demais e já consigo sentir as consequências disso fisicamente.

Ando parada demais.

Nada parece capaz de me tirar do lugar. 

E meus olhos, cansados, exaustos, ressaqueados, tristes, resultante dessas cismas, desagrados, infortúnios, andam alheios demais na janela do transporte público.

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