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O sorriso por detrás da máscara

O sorriso por detrás da máscara

O sorriso por detrás da máscara

Francisco Bencè

 

Covid-19, Novo Coronavírus, pandemia, isolamento, quarentena, confinamento, álcool em gel, máscara. São palavras que tenho falado nos últimos meses.

Aprendi a limpar banheiro, varrer o chão, lavar as roupas e fazer comida. Vivendo sozinho e me sentindo só como nunca me senti só em minha vida.

Não vejo amigos, parentes. Não me vejo.

Não ligo mais a televisão, com suas poucas novidades. Até mesmo escutar música está me deixando no tédio. O silêncio tem me feito companhia.

Tenho tomado sol no apartamento, observado mais o mar pela janela e o canto dos pássaros.

E que tem passado em minha cabeça? Poemas. Tenho escrito uma série de poemas. Sobre tudo ou quase tudo.

Os poemas têm me tirado desse lugar de sofrimento. Me transportam.

Para me sentir fora de casa é necessário escrever.

A cor do dia tem inevitavelmente ficado mais cinza. E os poemas são um arco-íris que pintam de cor meu peito.

Tenho conversado pouco. Aliás, quando converso, converso comigo mesmo.

Hoje sei muito mais de mim do que antes. A solidão nos coloca próximos de nós mesmos.

Fico olhando a comida esfriar em cima da mesa. Irei comer novamente sozinho.

Existe uma falsa sensação de paz na solidão, onde o silêncio às vezes grita mais que um estrondo.

            Hoje, pela primeira vez depois de meses, desci na rua para ver o mundo.

A ideia de não nos tocarmos, não pegar na mão, não abraçar e não beijar me entristece muito. Todos necessitamos de um abraço bem apertado.

Hoje ao entrar no elevador estava lá a vizinha. Ao nos despedirmos, ela me abraçou bem forte e me disse em um abraço demorado:

- Quebro esse protocolo, pois sei da sua solidão, sei da minha solidão, sei da solidão de todos. Não sabemos ainda a dimensão do medo que isso tudo provoca. Existe muita insegurança, mas há sempre a esperança de voltarmos a ver nossos sorrisos por detrás das máscaras.

Ao abrir a porta do apartamento, o sol da tarde estava por toda a sala. Então me saiu um sorriso que fazia tempo que não tinha.

Não vejo mais os sorrisos das pessoas por causa das máscaras. Não sabemos até quando vai durar esse drama, mas ter esperança do seu fim nos trás mais motivos para sorrir. Ainda que seja por trás das máscaras.

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